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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

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O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Sacassange, a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 18.09.20

Diferente, desconhecido e estranho

Chegámos completamente esgotados a Sacassange, onde era tudo diferente, desconhecido e estranho.

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Valeu o simpático acolhimento.

O aquartelamento, a cerca de 24 kms da Vila do Luso, do tipo destacamento, tinha instalações pouco cuidadas e era muito rudimentar.

Do que ainda me lembro, a estrutura, à primeira vista, parecia “abandonada”… havia uma porta de armas, uma espécie de dormitório dos oficiais, o depósito de géneros, uma secretaria, um barracão / sala de refeições, um posto de vigia, o forno do pão, um gorduroso local para refeitório e cozinha coberto com chapas de zinco e ao lado uma espécie de cantina.

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As oficinas e a arrecadação do material ficavam próximas das casernas dos soldados.

Apesar de tudo, havia aspetos agradáveis: Um clima de planalto, quase idêntico ao da metrópole, calor durante o dia e um fresco intenso à noite, que não dispensava cobertores, e um pequeno rio (o Dala), afluente do rio Luena. Passava bem encostado à proteção em arame farpado e foi muito útil no dia-a-dia.

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Estávamos num antigo colonato a 1300 metros acima do nível do mar, numa região agrícola decadente com grandes áreas abandonadas, devido à guerra e à implantação da UNITA na região, e de madeireiros, que neste ano de 1972 eram em número reduzido.

Junto à estrada principal, a 2 km das nossas instalações, havia, e ainda há, uma grande povoação, a sanzala do Moxico Velho.

O que fiz nos primeiros dias esteve longe de ser interessante, mas eram momentos necessários, a rendição… dos velhinhos, pelos maçaricos ou os “mikes” da Companhia 3485.

Começava o meu envolvimento nesta estúpida guerra, onde nunca consegui perceber se era a Guerra Colonial, se a Guerra do Ultramar ou a Guerra de África.

Ajudei na inventariação e na receção de algum material em monótonas e enfadonhas listas de todo o tipo e formatos… com assinaturas conjuntas, dos que ficam e daqueles que partem.

Contavam: Nas rendições havia a tendência ou a necessidade para realizar algumas aldrabices… cobertores dobrados ao meio para serem contados por dois, vasilhas de azeite ou de óleo, em que metade era água, guinchos de viatura sem o mecanismo interior ou peças, que depois de contadas, saiam por uma porta e voltavam à contagem, enfim… sempre me disseram que a tropa manda desenrascar, mas… não podes ser apanhado.

A referida transmissão de responsabilidades para a Companhia 3485, do Batalhão 3870, só ficou concluída com a rendição dos militares do destacamento, na povoação do Luatamba / Canage, a 46 quilómetros do quartel, uma estrutura improvisada junto à picada, que continuava para as Vilas do Lucusse e de Gago Coutinho.

Por nossa conta e risco

Uma vez sozinhos, o novo comando e cada um de nós no seu posto e funções teve de se adaptar às circunstâncias, aprender o que nunca nos ensinaram, improvisar muito e decidir, sem medo de errar… mesmo quando não havia informação de suporte ou tempo para pensar.

Eramos maioritariamente milicianos, com exceção de um primeiro-sargento e de um sargento-ajudante. Também, maioritariamente, formávamos uma boa estrutura de camaradas, 5 estrelas, como se costuma dizer… num misto de militares naturais de Angola (pretos e brancos) e de soldados brancos provenientes da metrópole (Portugal), quase todos naturais de Trás-os-Montes.

Apesar da minha juventude e da inexperiência dos meus 24 anos foi fácil perceber, que quem estava a mandar na organização da companhia eram os dois sargentos do quadro já habituados à máquina burocrática do exército… como instalar os mais convenientes e evidentemente, a instalarem-se… eram peritos na guerra do papel e a recrear vícios adquiridos noutras comissões.

Em conclusão, uma engrenagem montada para funcionar bem dentro do arame, mas que era insuficiente para responder com qualidade e prontidão às necessidades de quem andava no exterior. No campo militar o poder do Estado existia, à altura (1972), ainda omnipresente e omnipotente. Exigiam o uso da violência física e o apoio da DGS / Pide, o que surpreendia os mais esclarecidos Alferes milicianos e o Capitão de proveta, também miliciano, habituados aos discursos antiguerra ouvidos nas universidades, desde 1968.

A todos, devo muito… apesar do comando do nosso capitão, adepto confesso do Estado Novo e da ditadura, interpretar à letra o poder interno e externo pelo uso excessivo da violência psicológica e física.

A minha passagem pelo Leste de Angola foi penosa… numa lenta e difícil adaptação. Deixei, por lá, naquelas matas, as minhas primeiras revoltas e consequentemente muitas lágrimas e angústias.

Rações de combate, tubos de repelente e muitos mosquitos

Diariamente, entre rações de combate, tubos de repelente e muitos mosquitos, os grupos de combate faziam a proteção às máquinas, aos trabalhos e aos empregados da empresa Tecnil e da JAEA (Junta Autónoma das Estradas de Angola), que abriam a nova via asfaltada, Luso / Lucusse / Gago Coutinho.

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Naquela guerra de proteção o nosso dia-a-dia era sempre uma rotina desde as deslocações na mata, conforme o avançar das frentes de trabalho e até a quantidade do nosso armamento disponível… tudo era previsível e conhecido… numa zona muito complicada, lado a lado com um corredor, a Rota do Luena ou de Agostinho Neto, de passagem de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) vindos da Zâmbia. Na região, estavam identificados 3 esquadrões (1 esquadrão = 100 / 150 homens), o Voina, o Vitória e o Sakembo.

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O pessoal afeto à construção da estrada, trabalhadores e capatazes, oriundos de Angola, da metrópole e de Cabo Verde organizavam-se como queriam, sem problemas nas deslocações e nas horas mais impróprias ignoravam tacitamente o exército português. É certo que não os conhecia, mesmo nada, mas pelo que se observava diariamente tinha razões para duvidar destes comportamentos… a nossa organização teria de ser bem calculada, para não sermos transformados em alvos fáceis na mata ou junto à picada.

O cuidador

Um velho amigo beirão (Vitor A), companheiro de liceu e de faculdade, que teve a arte e o engenho de conseguir cumprir o serviço militar num gabinete em Luanda, passou a ser o meu companheiro distante do meu serviço militar no Leste de Angola… um cuidador, que eu alguma vez esperava ter. Para os curiosos, mas mais para os controladores do costume, dizia que era correspondência do meu primo Marinho Santos, que vivia em Luanda… um escritor, também de aerogramas.

Entre temas, simples, de velhos amigos, recordo aqui a primeira informação, que me enviou em Abril de 1972:

  • A FNLA ameaça a fronteira Leste pela área de Nova Chaves, a partir da base de Kaundu, com movimentos constantes na estrada de Dilolo. Fazem pequenos acampamentos ao longo do rio Cassai para o apoio dos guerrilheiros com destino aos locais de fixação, Moxico, Buçaco, Camgumbe, Munhango, Luma-Cassai e Alto Chicapa.
  • O MPLA fixou-se entre, os rios Luzege e Cassai, visando os movimentos militares das NT (nossas tropas) no itinerário Chimbila a Cazage. Usam a implantação de armadilhas, minas antipessoal e anticarro.
  • Na região norte do rio Canage, há pequenos grupos de reconhecimento, com 5 a 10 elementos emboscados ou móveis, sob a chefia do comandante Cauevo.
  • O comandante Cauevo domina a tua região com informadores fixos no Luso, no Moxico Velho e no Lumege. Usa, também, mulheres jovens, que parecem inofensivas. São conhecidas por Rosas Negras. Movimentam-se junto aos aquartelamentos e destacamentos das NT, no triângulo Teixeira de Sousa, Luso e Gago Coutinho.

Terminava sempre... um abraço de merda e não percas a cabeça, porque depois não tens onde colocar o quico.

Abandonados à nossa sorte

Ao fim de quatro meses, éramos homens tristes, cansados psicologicamente e saturados da rotina e do abandono à nossa sorte. Andávamos com munições contadas e com armamento muito pouco estimado (num primeiro teste, não autorizado, a cada uma das 25 espingardas G3 do grupo, só 7 funcionaram depois de muito bem limpas e oleadas).

Suportávamos uma tortura diária de muito calor ou chuva e lutávamos contra outro exército… pequenas abelhas que tentavam a todo o custo entrar em qualquer orifício do nosso corpo.

Nestes dias de inatividade ou de luta, as nossas refeições eram sempre feitas à base da Ração Individual de Combate, composta por uma lata de leite, uma lata de atum ou sardinha, uma lata de salsichas, uma lata de feijão com chouriço, duas latas de sumo ou salada de frutas e um pacote de bolachas de água e sal.

Como diz o poeta… estávamos numa guerra invisível e traiçoeira em que a bala espreita e a mina acontece… e eu acrescento… com o mosquito a “foder-nos” o juízo.

MVL

Uma vez por semana, passava na nossa zona de proteção, o MVL (Movimento de Viaturas Ligeiras) um conjunto de várias viaturas civis, para o transporte de pessoas, equipamentos e mantimentos, e de viaturas de um esquadrão de comandos, os Dragões. Esta coluna de viaturas, como os militares lhe chamavam, devido à sua previsibilidade, tinha uma longa história de ataques na zona do Luatamba, uma aldeia abandonada, muito próxima da nova aldeia do Canage e do nosso destacamento.

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Esta zona da picada, entre densa floresta, era temida e considerada muito perigosa. As viaturas tinham que abrandar a marcha devido ao declive, ao excesso de areia no final da descida e ao esforço suplementar que era exigido aos motores para vencerem a subida até à aldeia do Canage.

Era o local eleito para os ataques do comandante Cauevo. Diziam que a tática era sempre a mesma, umas vezes atacavam e isolavam uma das últimas viaturas, outras vezes atacavam as da frente para criar confusão e desorganizar a proteção à retaguarda.

Num desses ataques eu estava muito perto em proteção às máquinas do asfalto. Uma vez mais, tinha sido emboscada uma das últimas viaturas civis do MVL, que ficou com danos materiais no meio da desorganização geral, dos tiros e da morte de um jovem guerrilheiro, que aparentava ter pouco mais de 16 anos.

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Este jovem, sem qualquer identificação, foi atingido no abdómen pelos Dragões com uma rajada de G3. Encontrava-se, a cerca de 20 metros de um grupo de 10 guerrilheiros, encostado a uma árvore com uma metralhadora automática ao ombro, que parecia estar presa a uma corda para facilitar a sua retirada em caso de insucesso.

Em conclusão: durante a confusão alguém levou a arma (quem?), abandonou o jovem guerrilheiro e a corda.

Operação Perseguição

Ao assumir o comando da ZML (Zona Militar Leste), o general Bettencourt Rodrigues tinha sob o seu comando, 21 500 homens de toda a natureza militar - unidades do Exército, da Marinha e da Força Aérea e 11 700 homens de forças auxiliares, os "Fiéis", catangueses refugiados em Angola, os "Leais", refugiados da Zâmbia, os "Grupos Especiais", conhecidos por GEs, os "Flechas" da PIDE e as milícias armadas.

Foi um grupo de catangueses, fiéis seguidores políticos do deposto Moisés Tschombé, que perseguiu o grupo atacante.

Colaboravam com o exército português a troco de armas, dinheiro e troféus. Viviam de uma forma primária e com um regulamento de disciplina próprio.

Acompanhei-os… eramos apenas onze portugueses… a experiência de viver dias com um grupo de guerrilheiros caçadores de trofeus, que apenas usavam uma catana, uma panelinha e um cobertor amarrado ao cinturão das cartucheiras da G3, era impensável… mas aconteceu.

Arrancámos cedo para a mata. Antes do por do sol já estávamos no primeiro objetivo, sem encontrar vestígios de movimentos de outras tropas. Acabámos por pernoitar em plena selva africana... entre tanto silencio imposto… até ouvia o meu cuidador: “nunca percas a cabeça, porque depois não terás onde colocar o quico”.

Tinha uma carta topográfica (coisas de maçaricos) que não me servia para nada, tantas eram as manobras de diversão. Impressionou-me a floresta que ladeava as margens dos afluentes do rio Canage. Havia folhas de vários anos espalhadas no chão e a sua cor castanho brilhante formava um tapete com características únicas. À distância, havia dezenas de pequenos montes e vales, que se sucediam uns atrás dos outros cobertos por uma ténue bruma azulada e tonalidades mais escuras na linha do horizonte do Parque Nacional da Camea.

Era uma floresta rica em árvores de grande porte, o Mussivi, e muito mel em colmeias altas. Era tanto, que chegava a haver em buracos nas cascas ou nas aberturas das árvores.

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Ainda de madrugada, com a escuridão da noite a desaparecer, retomámos uma marcha sempre em silêncio e contínua até a um outro ponto previamente referenciado. A única paragem foi ao fim de cinco horas num local de vegetação muito densa, que serviu mais para o descanso e menos para o comer. A restante progressão fez-se ao ritmo das catanas numa dura passagem por vegetação cerrada.

Foram quatro dias de marcha dura, de ensinamentos e de atenção a todos os vestígios no terreno. Apesar do calor e da humidade e das muitas manobras de despiste de alguma perseguição ou emboscada, o que mais me impressionou foi a disciplina e o silêncio imposto em toda a jornada. Estes homens não gostavam de participar em operações com brancos. Tinham um apurado sexto sentido para o perigo e de tal forma, que até a nossa pasta para os dentes e o sabão ou o cheiro da comida enlatada os incomodava.

Foi a minha primeira operação militar. Andei muito assustado, com medo QB (quanto baste), entregue a mim e à sorte dos outros militares brancos… no meio de 30 indivíduos a falarem uma linguagem estranha, ocasionalmente francês, e com hábitos e costumes muito próprios. Mas, nem tudo foi mau, ensinaram-me a estar na guerrilha e a abrir todos os meus sentidos, vista, ouvidos e olfato, como grandes sentinelas… compreendi o silêncio imposto, porque só assim se conseguia ouvir o que a natureza tinha para nos dizer.

Ao princípio da tarde chegámos ao destacamento do Canage, com a Operação Perseguição terminada e sem nada de relevante a assinalar.

O jovem guerrilheiro que tinha sido sepultado por nós, sem qualquer mutilação do corpo, embora a vontade dos catangueses fosse outra… ao contarem-me os pormenores, impressionou-me a frieza e a obsessão pelos trofeus… reclamei contra o ritual à custa de um desconhecido, que morreu a lutar, também por uma causa, com as mesmas armas, embora do lado oposto…, mas teimaram, para eles ia manter-se o ritual de trofeus.

A aldeia do Canage era uma populosa sanzala, atravessada pelo rio canage, numa clareira aberta no meio de uma densa floresta, ligada por uma ponte metálica à picada, futura estrada de alcatrão, Luso a Gago Coutinho.

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Antes de voltar ao quartel em Sacassange, tomei um banho no rio, com um pedaço de “sabonete” azul e branco, que o Alferes Monteiro emprestou... foi a melhor refeição, que tanto ansiei durante os últimos quatro dias.

O desenfiado

O meu regresso ao quartel, onde raramente estava para usufruir de um dia de descanso, coincidiu com a abertura do primeiro auto à luz do Código de Justiça Militar.

Durante o fim-de-semana, o soldado Oxxx tinha-se ausentado (desenfiado) sem autorização e sem avisar ninguém. No quartel pensava-se em tudo, rapto, morte… menos no que realmente acabou por acontecer. Depois de vários dias em complicadas buscas e contatos com sobas, acabámos por encontrar o nosso camarada na aldeia do Moxico Velho, escondido numa cubata, mas em plena lua-de-mel com a sua nova companheira, uma fogosa luena.

Na fase final das averiguações, perguntaram-lhe:

- Soldado Oxx, está arrependido?

- Meu capitão, acredite… não estou nada arrependido… se eu soubesse que era assim tão bom já lá tinha ido há mais tempo!

Quanto ao auto, já não me lembro das conclusões ou das consequências, mas era evidente que para muitos dos nossos tropas a experiência militar também significou:

- A primeira viagem de avião;

- A saída de casa;

- A ausência de vergonha dos vizinhos;

- O primeiro contato com outras realidades;

- A obrigatoriedade de princípios de higiene e de hábitos alimentares;

- A liberdade de terem satisfação sexual, normalmente com a popular figura da lavadeira, que facilmente misturava o trabalho com o prazer.

A geraldina

Numa das minhas passagens pelo destacamento do Canage, corria o mês de Julho de 1972, em plena estação do cacimbo.

Quatro “bons” malandros, do meu grupo de combate, lembraram-se de… participar à noite numa "geraldina"… cada um à sua vez, a ter prazer sexual.

No final de cada serviço, diziam:

- O nosso alferes vem no fim… confia, ele paga-te!

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Bem cedo, na madrugada do dia seguinte, a enganada, outras mulheres e mais dois homens, apareceram à porta do nosso rudimentar destacamento, onde rapidamente se armou uma tremenda confusão a exigirem um ajuste de contas com o “nosso alferes”.

Eu ainda estava deitado e não sabia, nada de nada e do que se tinha passado (mas o meu cuidador sabia… “não percas a cabeça, porque depois não tens onde colocar o quico”). Bem… falei com todos, entre desculpas, e como não contavam ouvir-me dizer: com a noite perdi-me na aldeia… é fácil num local escuro… acalmaram… o triplo do dinheiro necessário para reparar os estragos acabou por fazer o resto, a bem de todos.

Andei, algum tempo, muito desconfortável com aquele comportamento… mas precisava de manter o quico na cabeça… diziam-me insistentemente que não pensaram nas consequências da brincadeira e que só queriam desenferrujar o prego… mas aqueles dias de guerra e aquele local sem leis ou regras, o desfecho poderia ter sido irreparável.

Os Movimentos de Libertação, desfaziam-se

À medida que os meses passavam, mesmo em tempo de guerrilha, percebia-se facilmente que as pessoas iam ficando diferentes e que a sua revolta não era para nós mas pelos sucessivos anos de maus tratos, do trabalho forçado e não pago e de muita “porrada”, como diziam.

Estávamos, já há algum tempo, deslocados naquele destacamento com o nosso melhor espírito de sacrifício, a enorme capacidade de sofrimento dos soldados e a aproveitar uma paz inesperada, devida, momentaneamente, ao desentendimento entre os movimentos de libertação. A FNLA enfrentou uma grave amotinação na base de Kinkuso, obrigando as tropas do Zaire a intervir, o MPLA foi confrontado com uma revolta encabeçada por Daniel Chipenda (ex-jogador da Académica de Coimbra), em oposição a Agostinho Neto e o pacto de não-agressão oferecido à UNITA, com a garantia cínica do controlo do Leste de Angola.

Mais tarde, perante a desorganização dos movimentos, que se desfaziam, a OUA (Organização de Unidade Africana) e Mobutu juntou-os, com a assinatura do acordo de Kinshasa em 13 de Dezembro de 1972. Quando fui informado deste acordo, temi o pior para nós e calculei que iria surgir no terreno uma força poderosa com um objetivo comum devido à solução encontrada com a criação do CSLA (Conselho Superior de Libertação de Angola), do CMU (Comando Militar Unificado) e do CPA (Conselho Político Angolano) … mas as fortes contradições e as inúmeras divergências dos movimentos de libertação e dos seus líderes anularam o acordo… felizmente para as NT (nossas tropas). Hoje, ainda não percebo como é que a diplomacia portuguesa não aproveitou esta situação… tinha a força do seu lado e todas as condições para preparar a independência de Angola, sair organizados pela porta grande e evitar a guerra civil aos angolanos.

Dois enrabichados

A nossa vida, neste longínquo destacamento para onde fomos atirados, mantinha-se religiosamente com os mesmos rituais, proteção diária à construção da estrada, esporádicas patrulhas na mata e a vida na aldeia. Durante a noite, lia ou ouvia rádio, a Emissora Nacional e a BBC, que chegavam com qualidade razoável em ondas curtas. Ouvia, ocasionalmente, uma rádio da Zâmbia, a Maria Turra. Falavam de nós, mas exageravam muito. Por exemplo: -Tínhamos sido vítimas de uma emboscada, da qual não escapámos ficando a picada mais vermelha com o nosso sangue.

Apesar de tudo, nem tudo era mau, se soubéssemos partilhar as experiências e abrir os olhos para o que nos rodeava… foi o que aconteceu ao nosso jovem Qxx…o amor.

Só me apercebi quando uma esbelta luena se queixou do chindelo Qxx… quer sempre acabar em “maka” (armar confusão) … “Nossoalfers, essi gaju num tens esperto, num querer só esfoder assunji da minina”… e insistia comigo… “nossoalfers, pá, asboca és pra comer, osmataco és pra cagar, xiiii”… percebi logo que estes dois estavam enrabichados.

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Naquela época a mulher luena, enquanto solteira, tinha muita liberdade na sua vida sexual por desejo…não parava até ter o homem escolhido.

Voltando à jovem luena, convém referir, que enquanto novas eram sempre muito elegantes e que aquela acusação, ao chindelo Qxx, tinha, para além de tudo, um fundamento cultural, nesse ano de 1972. Via-se, que entre os nativos, não existia, por exemplo, o beijo e o contacto físico, senão, como diziam, durante a intimidade do ato sexual.

Até o cumprimento de mão era substituído por um bater as palmas ou bater no peito.

Também não existiam as aberrações, nem a perversão dos costumes, aliás existiam lendas para provocar a repugnância, o medo e o horror a tais práticas com os órgãos do corpo humano, que só devem ser usados nas funções para que a natureza os criou.

Em poucos meses, aprendi muito sobre o povo desta região do Leste de Angola. A mulher valia na tribo pelos trabalhos que realizava e pelos filhos que procriava mesmo sem haver, provavelmente, o amor como nós o entendíamos. Começavam o dia cedo, muitas vezes carregando os filhos às costas. As suas tarefas diárias incluíam, tratar dos animais, a preparação da comida e da terra, plantar mandioca, feijão, milho e batata-doce, secar ou fermentar os tubérculos da mandioca, transportar a água, a lenha, frutos, raízes, assim como, ratos, gafanhotos e larvas. Os homens tinham tantas mulheres quantas pudessem comprar, porque ter mulher ou melhor mulheres, significava ter comida e ser rico.

Dedicavam-se à caça com arcos, flechas, dardos e armadilhas. A caça estava intimamente ligada às convicções religiosas ou tribais e também servia para fornecer carne para alimentação própria e para a comunidade. Adicionalmente, era seu dever construir a casa, procurar mel e destilar milho em aguardente.

O destacamento

No destacamento, convivi de perto com dois irmãos de mães diferentes, um rapaz e uma rapariga… muito jovens. Cuidavam há algum tempo da minha roupa, com esmero.

Ele “arranhava” razoavelmente o português e era muito curioso pela leitura. Aos poucos começámos a ter uma mútua confiança. Tratava-o por Dito.

Num domingo andou comigo pela aldeia, numa zona praticamente vedada ao branco ou a estranhos… vi o sítio onde se lavavam, visitei o adivinhador, uma espécie de médico, o jango das cerimónias fúnebres, o local da circuncisão e o da iniciação, a zona da sanzala onde vivia a sua família e no batuque que aconteceu depois do por sol, na “lua escura”, onde entre sons e danças acontecia sexo com naturalidade e sem ciúmes… fumavam a erva / maconha, bebiam a aguardente de milho… puuum, puuum, puuum… ouviam-se os sons e o eco dos tambores no silêncio de uma noite envolta num maravilhoso manto de estrelas. À volta da grande fogueira projetavam-se enormes sombras e reinava a momentos um intrigante silêncio da erva, entrecortado a espaços por vários e misteriosos ruídos, sem origem definida, parecendo os fantasmas errantes do imaginário das mentes ou das mensagens, codificadas, com outro destino.

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Noutro momento, apresentou-me, aos seus nove irmãos e irmãs (alguns ainda de colo) e a quatro fogosas e esbeltas mulheres, duas ainda de seios empinados e muito jovens, uma seria a sua mãe.

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Ao fundo do caminho de terra batida havia uma cubata diferente, a maior… na frente e à sombra de uma grande árvore, estava “aninhado” um homem que aparentava ser muito mais velho. A todos falei… mas em simultâneo o meu pensamento desviou-se para o batuque da ” lua escura”.

Dito! Como é que o teu pai consegue dar conta de quatro mulheres tão novas?

"Oh alferes, não esfala isso, os filho és mesmo dele."

Era gente feliz… regressei intrigado ao destacamento… como consegue um homem muito mais velho ter tantos filhos com aquelas jovens mulheres.

Durante a noite, aconteceu o que não conhecíamos… chuva persistente e muito forte. Era o início da época das chuvas. A aldeia e toda a área circundante do destacamento ficou coberta de água e de terra barrenta. A trovoada e os relâmpagos eram tão fortes e intensos que pareciam estar junto a nós. O chão tremia, como nunca o tinha sentido, e a barulheira da trovoada vinda dos quatro cantos era contínua e infernal.

Quando deixei o destacamento fiz questão de me ir despedir daquela família… deixei uns livros ao Dito e à irmã e umas cucas (cervejas) ao pai em troca do segredo da sua capacidade sexual.

Respondeu-me: - "Cá, nossalferes, tomo milongo (remédio)”… uma raiz amarelada grande, que há nas areias da mata… “para ter os pau direito e fazer o sexo divino de Nzambi (Deus) e os minino nas minina".

Saí desta zona, sem a angústia dos pretendentes a heróis, satisfeito comigo, honrado e com o luxo de ter gravado no meu olhar, longa e eternamente, momentos mágicos, que, quando os recordo, fazem parar o meu tempo e me ajudam na minha sanidade mental.

Muitos anos depois, vi o filme África Adeus… como eu entendi a frase, que Meryl Streep diz para Robert Redford: - Tudo o que disseres agora, acredito.

O meu oásis e as forças redobradas

Durante as ultimas seis semanas, em Sacassanje, tive um pequeno oásis na minha vida e na guerra e também as forças redobradas. Passei a ter a companhia da minha mulher e do meu filho João. Hoje, ainda recordo com gratidão aqueles momentos e não esqueço aquela coragem.

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Sacassanje Adeus

Saí de Sacassanje com motivos para recordar, gostava daquele povo luena (malwena), dos batuques e dos merengues no Canage, que eram sempre muito ritmados e de grande beleza, com um grupo de homens, colocados ao centro, tocavam os tambores, e o resto dançava de volta, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, mexendo-se com espantosa facilidade e cantando ao mesmo tempo uma linguagem que nunca cheguei a perceber. O Soba e os Mais Velhos, todos muito velhos, vestidos de umas velhas fardas de um luxo esfarrapado, assistiam sentados em banquinhos baixos, com uma dignidade imperturbável.

Aquele mundo africano era lindo, cheio de vida, de juventude e de imaginação.

As casas de adobe e de capim, a mandioca a secar e a cheirar a quilómetros, o milho, o feijão, a batata-doce, os panos soltos com que as mulheres mal se cobriam, a imensa proliferação de crianças de todos os tamanhos e as estupendas figuras das meninas prontas para o casamento rentável para a família, tudo isto era de facto estranhamente original, belo e apaixonante… apesar da vida primitiva.

Deste bocadinho de comissão guardei comigo, para hoje partilhar com amigos e outras pessoas, mapas, fotografias, slides, memórias e umas garrafas de whisky. Outras, impartilháveis, como os cheiros, os sabores, a poeira, a lama, o cansaço e a nostalgia depois de cada aerograma, ainda são, mesmo assim, levemente passíveis de serem descritas. Porém, ainda outras… que não podiam vir, vão andar comigo para sempre até que a morte as apague… os amigos sem cor e que nunca mais vi, as matas que ainda não conheciam a ganância do ser humano, os horizontes, o medo, a alegria, a descoberta e a camaradagem.

Os portugueses que por ali estiveram noutras épocas, muitos são acusados, de terem matado, estropiado e escravizado. Não foi grandioso ou louvável para nós, mas hoje ninguém os pode avaliar e seria insuportável desconfiar de tais intenções, porque julgar os outros e a história tendo a vantagem do tempo diante dos nossos olhos, é duvidoso.

A todos, devo muito…

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt

A viagem dos grandes choques de realidade para milhares de voluntários à força

Alto Chicapa, 23.07.20

Poucos tinham visto um Boeing 707 (04-02-1972 / Figo Maduro, Lisboa)

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Eram 23 horas, de uma noite muito fria, escura e… triste. Estávamos no Aeroporto em Lisboa, numa aerogare da força aérea. Entre momentos de boa camaradagem, de espanto e de alguma descontração, fizemos um razoável percurso a pé, até ao avião.

Poucos tinham visto um avião de tão perto. Era todo branco com uma risca azul ao meio e uma cruz latina vermelha no bojo, junto às janelas, entre as asas e na porta de acesso. Organizados, subimos as escadas e entrámos deslumbrados.

Já no ar, com o espetáculo de uma Lisboa à noite a perder-se de vista, passou-se, rapidamente, para o Oceano Atlântico num ambiente de nuvens muito escuras.

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De madrugada, no meio de uma grande tempestade tropical, o avião era sacudido grosseiramente entre grandes deslocações para baixo e para cima. Lá fora, via-se perfeitamente como se fosse dia e as nuvens em baixo eram rasgadas frequentemente por enormes clarões.

Para me proteger da luz dos relâmpagos, ajeitei-me na cadeira e adormeci, praticamente inconsciente, como se o vazio se tivesse apoderado do meu espírito fazendo-me esquecer aquela agonia familiar da partida para a guerra.

Despertei ao som da voz de um militar da Força Aérea Portuguesa, “a nossa hospedeira de bordo”, anunciando que o pequeno-almoço ia ser servido.

Passavam trinta minutos das seis da manhã.

Quando foi servido o pequeno-almoço, à base de fiambre, pão, manteiga, croissant, café com leite, compota, geleia e mais qualquer coisa com ovo, estávamos muito perto de Angola, já se via o oceano muito bem e a altitude era mais reduzida, sobrevoávamos a orla marítima, formada por retalhos onde o verde da vegetação contrastava com uma terra avermelhada, e os arredores de Luanda com uma extensa zona de bairros pobres e, mais adiante, junto ao aeroporto, a cidade onde já havia alguns edifícios modernos.

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Uma madrugada calma

À hora em que a natureza começava a mostrar-se com toda a sua exuberância, a costa africana ainda estava envolta pelo cacimbo do amanhecer. O verde, o calor e a terra encarniçada misturavam-se entre capim, árvores e neblinas.

O sol nascia desde a traseira do avião boeing 707 dos TAM (Transportes Aéreos Militares).

Tudo, ou quase tudo, parecia ser tão irreal, um grande rio a vencer o oceano, a floresta, uma pequena aldeia, e algumas casas isoladas cobertas de vegetação em clareiras rodeadas de frondosas árvores.

Fiquei feliz por ter desfrutado, assim, dos primeiros cenários naturais de Angola.

Semanas depois era o percurso até... à nobreza dos animais nas chanas junto à água e ao rugido cavernoso do leão, à noite. As plantas que curam ou fortalecem e o secretismo dos feitiços. A jovens nativas, frutos silvestre, corpos de gazela, olhos luzindo promessas de desejo nos seios… nuas numa esteira em noite escura, aiué, aiué... os batuques, entre avisos de guerra, e as fogueiras com as silhuetas e as sombras que se deleitam entre danças. Foram muitos meses, a viver, em plena selva, com dois panos de tenda a servir de teto… num choque indescritível, que ainda arrepia, entre medo, respeito e fascínio.

Foi a dureza da vida e aquela imensidão africana que me permitem, hoje, olhar a natureza de outra maneira, moldar a minha mentalidade e a libertar o meu espírito de comportamentos mesquinhos.

A integração, no espírito africano.

O dia começava cedo na cidade de Luanda, o orgulho do Império, num trabalho lânguido misturado com o lazer e a prática corrente da sesta.

Num intenso calor carregado de humidade e de mosquitos, a vida parecia preguiçosa, embora as alienadas gentes, idas do “Puto”, antes da guerra, invadissem tudo, abanando a “árvore das patacas” num saque que parecia urgente. Os nascidos na terra, esses olhavam-se incrédulos e confusos, perguntando frequentemente, porquê tanto trabalho.

Bem à portuguesa, os chamados colonos tinham filhos, casavam-se, eram felizes na terra de adoção. Mantinham ali o seu dinheiro e investiam na vida profissional e material local como um cidadão na sua terra natal.

Havia gente de toda a espécie, aqueles que tinham trocado toda a riqueza, na santa terrinha, por uma carta de chamada, documento original na diplomacia portuguesa, imprescindível à imigração dos sonhadores, os portugueses de primeira, que se achavam altos funcionários cheios de importância e os intelectuais de esquerda, tacitamente contra o colonialismo, mas sem abdicarem das mordomias e de tudo o que era bom.

No mundo urbano central, quase restrito aos brancos, novos-ricos, perdidos em vaidades e rodeados de criados, a guerra no mato, impiedosa, noticiada diariamente, era ignorada… até um anormal movimento de helicópteros com feridos, sobre a cidade, não conseguia agoirar um fim de tarde de lazer ou uma revista local acabada de sair, cheia de fotografias de bailes, festas sociais, moda e automóveis do tipo americano. Ninguém se apercebia do fim eminente.

Na Mutamba apanhei um “machimbombo”.

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Fui dar uma volta pela cidade. Estava deserta. O comércio fechado, as ruas vazias, os táxis parados, sinaleiros sem trânsito, dormitando tranquilamente até que a cidade volte a si… é que das 12h00 às 15h00, Luanda defende-se do calor. Fecham as farmácias, as barbearias, as lojas, as repartições públicas, os consultórios e até os quiosques. É um ato de hibernação regulado pelos sons no forte de S. Miguel que anuncia as 13h00, o momento da passagem da mesa do almoço para o cadeirão de verga onde se lê o jornal e se dorme… uma sesta.

A minha hora do almoço foi passada, estrategicamente, na estrada de Catete junto ao Jumbo.

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Era o local escolhido para o descanso do motorista ou… do tropa que em 1963 tinha sido retirado de Macedo de Cavaleiros para ir defender Cabinda.

A nossa aproximação começou com um... és um recém-chegado a África!

- Sim, sou tropa, cheguei de Lisboa, vou para o Leste.

- Vais precisar de tempo para aprenderes, o que esta terra tem para nos ensinar.

- Nunca esqueças! Não andes mais depressa do que o teu anjo-da-guarda puder voar… coisas de África… quando te passarem os fulgores da juventude e perceberes que o homem não é omnipotente… vais acreditar!

- Na guerra, que acontece nas terras para onde vais, mata-se e morre-se… quando regressares, que não seja entre cal e chumbo ou enfermo da violência psicológica e da solidão ou com rancor pelos anos que te roubaram, mas com o espírito encantado, vagueando perdido, saudoso e prisioneiro dos horizontes míticos... só assim conseguirás a tua própria paz!

O acordar do povo foi rápido e o “machimbombo”, uma comprida camioneta, em marcha lenta, já ia cheio… pretos, brancos e mulatos.

O entardecer rápido.

Agitava cafés, cervejarias e esplanadas enquanto o sol se envolvia num largo turbante vermelho para um número final do seu belo espetáculo de todos os dias… o pôr-do-sol.

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Havia, sempre, muita gente no centro da cidade, na Marginal, no Cais do Porto, nas Ingombotas, na Maianga, na Vila Alice, na Vila Clotilde, na Cidade Alta… a respirar um ar húmido, que tornava tudo pegajoso, e que entrava pelas narinas como um bafo inebriante e erótico, vindo das fornalhas daquele clima tropical onde o desejo fervia… sem parar.

A noite era igualmente morna e húmida entre a água calma e deslumbrante da baía de Luanda.

Os majestosos edifícios iluminados, encimados por reclames multicolores, o edifício do Banco de Angola, os andares do Banco Comercial de Angola, os grandes edifícios dos hotéis, o edifício de apartamentos da indústria do prazer, o “treme treme” (local muito frequentado por belas morenas, que tornavam tudo mais fácil e pelos militares em férias ou regressados do mato), o porto de Luanda repleto de navios e os vários bares onde havia espetáculos de variedades e de striptease de categoria duvidosa.

Luandanoite

Noite dentro, no Largo da Cervejaria Portugália…

- Qxxxxxx, tu... por aqui?

- Alferes!?

- Viemos comprar batatas!

- Batatas?

- Batatas-doces… riram-se.

- Viemos às meninas.

- E então?

- A primeira que encontrámos, disse que era a Josefa… parecia ter cinquenta anos… mostrou-nos a perna até… à… barriga, só pintelhos.

- Depois… outra e ainda outra a usar grandes óculos de sol à noite… aquele bimbo só se ria... pirou-se... e eu fiquei ali parado, a olhar os oculos escuros na noite escura… são 50 do puto por uma “mamada”!

- E... que tal?

- Meu Alferes, uma vergonha, aquele bimbo percebeu a tempo… era um travesti. Isto já é a guerra… posso morrer na merda, ficar sem pernas ou sem pila, mas não quero entrar na minha terra, esticadinho no caixão, só a arrotar a colhões de um qualquer travesti.

Havia uma outra Luanda

Nos arredores da cidade, os musseques... um mundo de gente fugida da guerra das montanhas do Norte e das planícies do Leste, iludida por uma vida melhor… esgotados nas entranhas das ruelas escuras, fedorentas, insalubres, das fogueiras queimando excrementos e das águas estagnadas, ninho de milhões de mosquitos e de incontáveis misérias.

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As inacabadas casas de madeira ou de lata não eram um mundo impenetrável para o branco, ali encontravam desejo, tesão, prazer… galope desenfreado e o gozo de fazer sexo livre em qualquer lado… entrava-se e sai-se livremente e, naturalmente, aconteciam as uniões entre as raças. Nascia a mestiçagem uma geração de gente mulata, onde as raparigas, quase irresistíveis, eram esbeltas e harmoniosas… Kuringa, uma cabrita, de cor “canela”, em meneio gingado como uma potra de raça, sorriso de marfim, corpo maduro ansiando parelha, linda, vestida de panos garridos e justos a realçar as formas esculturais do belo corpo já bronzeado, o ventre liso, os seios excitados, o “mataco”, que dança e até se insinua na cidade, marcado por calcinhas minúsculas e… tudo o resto… nem era preciso adivinhar.

Campo Militar do Grafanil.

A chegada, ao Campo Militar, em veículos de mercadorias, “gado” entre taipais, foi apenas o começo, de semanas e mais semanas… anos de um jogo mortal de guerrilha.

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3º. Grupo - zona do Cassai

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Eles

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- Alferes, isto é tudo um fingimento.

- São as casernas, que não são… são pocilgas e tendas.

- São as camas, que não são… são viveiros de percevejos e prateleiras de cimento com um cobertor.

- O vinho, que não é vinho… é banga-sumo, uma mistela.

- A capela, que não é capela… é um embondeiro… o Capitão é que a sabe toda, de mansinho desenfia-se… vai-nos enrabando de fininho… igualzinho ao meu padrasto.

Pairava no ar muita angústia e o ambiente era infeto e incaracterístico. Representava, a síntese das fragilidades da sociedade angolana, o nível intelectual dos muitos militares de gabinete, ébrios de poder... conhecidos pelos calhaus da engrenagem.

O chão vermelho da parada, onde as poucas árvores estrategicamente colocadas julgavam contrariar a fúria dos elementos, fervia aos primeiros raios solares com a intensidade de um forno crematório.

Nas noites, passadas entre percevejos, mosquitos e um silêncio de morte, os corpos escorriam suor e os pés escorregavam no chão gorduroso e húmido dos líquidos que habitualmente escorriam das latrinas cheias.

Apesar de tudo, não esquecerei os momentos de camaradagem na esplanada, com uns “conversados” camarões, a solidariedade, o humor, o desconforto físico e, em certos casos… muita revolta. Foi ali, com as minhas próprias forças… as internas e as outras, que comecei a aprender a resistir e a ultrapassar os fantasmas e os medos.

Primeiro dia da viagem para o Leste de Angola

Já era noite alta quando chegámos à cidade de Nova Lisboa (Huambo).

Não houve salvas, nem festa, nem, como em Luanda, bandos de aguerridos miúdos a receber-nos.

Num olhar rápido pelos arredores e pela estação dos comboios, vejo alguns edifícios iluminados e todas as ruas desertas.

Atiro-me para um cadeirão de verga num quarto alugado para… mais dois. Fiquei-me… sem reação… sem dar pelo tempo… a tentar recordar os muitos quilómetros percorridos (600). Queria lembrar-me de episódios, de paisagens, de cenas, de costumes, mas… só conseguia reconstituir na penumbra, da luz mortiça de uma lâmpada, a manhã calma da partida, as cubatas ao longo da esburacada estrada, o espetáculo fantasista do sol a morrer para lá das últimas palmeiras gigantes, que se viam no horizonte, os casebres pobres em silhuetas coladas sobre um chão encarnado e um céu onde se adivinhava a agonia rápida do dia.

Perto de mim, escreviam-se aerogramas e uma conversa em surdina acabou em evocações sentimentais:

- A minha senhora faz anos... que pena não haver um telefone!

Um camarada… mais "cusco"… comenta alegremente:

- Mas há mosquitos, moscas, muita merda, uma bala perdida e mais mil quilómetros, bem medidos… com o peso dos teus cornos duvido que lá chegues!

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Pálidos… pelo desconforto.

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A paisagem era desoladora e agressiva. O capim dominava a região entre a densa mata, algumas clareiras e os raros terrenos de cultura onde os braços desiguais e retorcidos dos embondeiros pareciam estar em atitudes alucinadas de quem protesta e se revolta contra o solo ingrato.

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Em algumas aldeias, junto à estrada, a população parecia ser feliz, gritavam as mulheres, as crianças, os jovens e os velhos, quando passávamos perto. Os gritos… pareciam ir de sanzala em sanzala como o som do batuque que comunicava de terra em terra, no alfabeto indecifrável daquele povo, com a notícia da chegada do “chindelo”.

Noutras, havia um silêncio imprevisto, e em contraste lá estão junto das cubatas as mesmas mulheres, homens e crianças, parados sem que os olhos se abram amistosamente, sem uma atitude de interesse, quase sem se voltarem… em desprezo. Outros estão sentados, de costas apoiadas nas paredes frágeis das cubatas, indolentes, inúteis e tristes.

Numa loja, onde se vendia de tudo, com um quadro do Bom Jesus de Braga à entrada e um velho colono sentado ao balcão a fumar e a beber cerveja… gabava-se de episódios de outros tempos, de lutas… para nós, os maçaricos, eram simplesmente irreais e impossíveis.

Quilómetros, quilómetros, quilómetros… 

A espaços uma sanzala igual a tantas outras, onde o povo aparece no caminho com saudações diferentes, uns fazem continência, outros batem no peito e as palmas, outros quase se deitam no solo e erguem as mãos numa atitude de inspiração fascista.

Passámos por pequenas povoações, postos isolados de governadores solitários, por alguns colonos portugueses… a bandeira portuguesa, entre casas de adobe e telhados de zinco.

A um soba, perguntei: - Então, como correm as coisas por aqui?

Metido no seu fato de Terça-Feira de Carnaval com botões dourados, descalço e de chapéu-de-chuva, bracejou na mímica do seu complicado idioma.

Pelo semblante, só podia estar a dizer... vai-te embora, vai para a tua terra!

Um intérprete de ocasião tenta convencer-me de um encontro amistoso... não disse nada, era só discurso.

Era o contraste de ideias, que passava a estar incluído no preço que iria, realmente pagar, para, um dia, poder voltar a Portugal.

Nos Caminhos de Ferro de Benguela, até á Vila do Luso

Inspirado nos livros de Agatha Christi e no meu imaginário esperava por umas confortáveis carruagens, um restaurante onde poderiam jantar 30 pessoas em verdadeiro luxo de espelhos e cristais, empregados aprumados de fardas bordadas a ouro, um menu de africanos… cadeirões confortáveis para a noite.

Percorri o comboio de ponta a ponta… não fiquei entusiasmado, nem acabei surpreendido.

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Passámos, dois dias em bancos de madeira, alguns longitudinais, em grandes molhos de corpos, de braços, de pernas, de armas e de porcaria… os líquidos de odor duvidoso, os restos das latas de conserva e outros detritos iam ficando espalhados pelo chão.

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Depois de breves paragens em Bela Vista, Chinguar, Silva Porto, Munhango, Cangumbe e Vila General Machado chegámos à pequena estação da Vila do Luso quando o luar já tomava conta da paisagem.

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Destacavam-se algumas casas brancas, recortes de arvoredo em ruas largas e muitos europeus… maioritariamente militares e seus familiares.

A mil trezentos e vinte metros de altitude gozava-se ali as delícias de um clima planáltico temperado e saudável.

Na povoação, de uma tranquilidade excecional, ouvia-se ainda, lá longe, como um eco, como um rugido, como um grito abafado pelo tambor e pelos cânticos do batuque, a repetir sem descanso: - Chindelo chegou… chindelo chegou…

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No restaurante Catespero, perto do Hotel Luso, finalmente uma refeição… um grande bife, batatas fritas, três ovos estrelados e vinho verde Gatão. Aí, conheci o Sr. Joaquim, um velhote, marcado pelas febres, respeitado e saudado por toda a gente… setenta e sete anos de idade e 50 anos na Universidade do Leste.

Contava:

- Era tão fácil andar pelo mato noutros tempos… andava à vontade até nos extremos da fronteira.

- Firmavam-se tratados de amizade com os sobas, deixando como permuta a bandeira das quinas.

Apesar dos prepativos para uma nova partida para a primeira noite num “quartel” no mato... entre espingardas, outras tralhas, munições... uma voz mais alta em brado de aviso irónico faz coro com o ronco do motor da Berliet… Cuidado com os leões! Não os matem todos…

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No dia seguinte, já em Sacassange… reparei na triste monotonia da paisagem.

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt (Site dos Ex-Militares Companhia 3485)

O que os grandes clássicos da literatura deixam entender sobre as pandemias, como a que estamos a viver com o Covid-19.

Alto Chicapa, 26.06.20

Palacio Bolsa protesto cordão sanitario peste bub

(protesto no Palácio da Bolsa contra cordão sanitário / Peste bubonica 1899)

- A Peste de Albert Camus (1947)

- O Ultimo Homem de Mary Shelley (1826)

- A Máscara da Morte Rubra de Edgar Põe (1842)

- O Amor em Tempos de Cólera de Gabriel G Marques (1985)

- Noites de Peste de Daniel Defoe (romance recente, passado em 1901)

- Os Noivos de Alessandro Manzoni (1827)

- O Ensaio sobre a cegueira de José Saramago (2008)

 

Há uma curiosidade ao longo da história e da literatura sobre as pandemias, que torna isto tudo muito semelhante... ainda hoje.

Não são os vírus, as bactérias ou as pragas, como lhe chamavam... são os nossos comportamentos.

Ao longo desta crise viral, as nossas atitudes têm oscilado entre:

  • Doentes e mortes;
  • Economia;
  • Desunião europeia;
  • Interesses, egoísmo de personagens e fazedores de opinião, onde a irresponsabilidade se mistura com simuladas verdades numa teia irracional de comportamentos;
  • Fraqueza psicológica.

... a abordagem às pandemias parece secular. Desconhecimento, opiniões casuísticas, proibição, isolamento, restrições, encerramentos... por maior que sejam as limitações, os receios do povo que pensa só por si, nem sempre de uma forma sábia ou tolerante, atira-se para o desconhecido sem a necessária informação científica ou sanitária que o  ajude a rejeitar o egoísmo e o irracional.

As incertezas e as mortes de hoje, que muitas famílias estão a vivenciar, revelam a mesma fragilidade da vida noutras épocas… um mundo sem jornais e de analfabetos onde só a imaginação e os tormentos deixavam entender onde estava o perigo (quando se lê, por exemplo, Os Noivos de Alessandro Manzoni, tudo se torna mais claro, nos dias de hoje).

Atualmente, o comportamento de alguns lembra o jogo da roleta russa... num inconsciente exercício de auto suicídio em grupos formais ou informais, de onde, de um momento para o outro, a consciência científica e sanitária se ausenta... uns trocam a vida pelo prazer de momentos e outros pelos resultados económicos… depois de tantos avisos recentes à humanidade: SARS-Cov em 2002, a gripe das aves h5n1 em 2003, a gripe suína h1n1 em 2009, o Síndroma Respiratório do Oriente MERS-COV em 2012, Ebola em 2013, o Zyka em 2015... ou, por exemplo, a Legionela com tantos casos recentes no nosso país.

Ultrapassada (?) mais esta provação, espero um futuro melhor para os que cá ficarem, uma ciência independente das multinacionais… que fique apenas o sintoma decisivo para mudar mentalidades, para diminuir a dependência dos subsídios, para ver empresas fortes, capitalizadas e com trabalhadores envolvidos na sua riqueza e um país “quase” autossuficiente no essencial.

Nesta pandemia do vírus covid 19, que ninguém sabe quando e como acaba, a débil estrutura empresarial de Portugal ficou sem argumentos, a desunião europeia reafirmou-se e o desaparecimento do Estado das grandes áreas da vida das pessoas deu lugar a um grito de todos para que o governo faça agora tudo, pela saúde, pela economia, pelas empresas, pelo desemprego e pelas famílias… paradoxalmente o nível de contradição social com as grandes fortunas e os mercados da dívida é o máximo.

Para os mais desatentos, o Covid comprova a insustentabilidade do atual sistema globalizado, do capitalismo, dos mercados... a incapacidade mundial para combater uma recessão económica, a impreparação demonstrada pela ciência no combate a novos vírus e a crise civilizacional que continua a passar por nós.

Para terminar:

- Os lucros de milhões… milhões anunciados oficialmente pelas empresas… onde estão? Como e onde estão os que ajudaram a criar riqueza?

- Os milhões do turismo… impostos, taxas, taxinhas… para onde foram? Como estão as empresas e aqueles “peões” do setor que ajudaram a engordar, tanto, o PIB português?

- A igreja, com conhecimentos ancestrais sobre pandemias, não está no terreno com a palavra, a sua organização e a proximidade... não chega o culto. Qual a razão do governo descartar tão importante ajuda? … não só para os comportamentos anti-covid, mas também pela experiencia no conforto da mente.

- Apesar de tudo, também, a minha, meia culpa… mantenho o meu otimismo, de que será mais uma etapa da vida para ganhar apesar da ausência de um tratamento específico. Não vou aceitar o otimismo “bacoco” de achar que as recomendações dos cientistas não são seguras ou confiáveis... não me vou deixar instrumentalizar para fins políticos e/ ou económicos onde a vida parece importar menos do que os nossos luxos e os nossos prazeres.

Carlos Alberto Santos

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Os ovos do melro da minha tangerineira

Alto Chicapa, 21.04.20

Num dos meus últimos momentos de escrita (posts) , onde disse: - Desejo que os ovos do melro da minha tangerineira vos tragam muito mais do que a simbologia da época...

O que aconteceu, de seguida?

Ninguém me chamou charlatão (compreendo... estávamos na quaresma!), mas pelas conversas que mantive com alguns, fiquei com a ideia do que vos ia no pensamento... pintar ovos, loja de chineses, um ninho para a fotografia, podias ser mais criativo, onde está o coelho, qualquer dia vai aí um GNR ajudar-te a atravessar a rua, etc.

Verdadeiramente… aconteceu vida!

Vejam nas imagens:

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Urbanos... estão perdoados!

Com Covid ou sem Covid, sintam aquele meu abraço do tamanho do Chicapa.

Carlos Alberto Santos

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Convívio de S. Martinho de 2019 em Setúbal (15 a 17 de Novembro) – Operação Bocage

Alto Chicapa, 14.04.20

Apesar da distância, desde o Porto e de outras regiões mais a norte, o nosso encontro de São Martinho de 2019, em Setúbal, foi iluminado por vários momentos e com motivos de interesse para diversas sensibilidades.

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Um encontro de amigos é a melhor rede social e às vezes é só isto... quando menos se espera, aparece um daqueles momentos que nunca mais se esquece.

Começámos por uma visita ao Palácio da Quinta da Bacalhoa em Azeitão, a antiga Quinta de Vila Fresca, propriedade da Casa Real Portuguesa.

Com mais de 500 anos de história, entre modificações sucessivas, foi uma propriedade desejada por diferentes famílias.

A mais famosa quinta da região devido ao seu rico património de azulejos dos séculos XV e XVI, foi classificada pelo IPPAR em 1996 como Monumento Nacional. Atualmente, pertence à Fundação Berardo, os mesmos donos do Budah Eden, onde já estivemos em convívio.

O palácio restaurado e a coleção de obras de arte não deixaram ninguém indiferente.

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Para completar o primeiro dia, o queijo surgiu com apontamentos de requinte.

Durante a visita à Quinta Velha Queijeira de Azeitão, participámos na produção de queijo, com leite de ovelha e flor de cardo, em vez de coalho, e onde também foi bom apreciar os bons produtos do nosso país, entre pão da região, o queijo fresco acabado de fazer, o queijo de Azeitão amanteigado, a compota caseira / chutney e o moscatel de Setúbal.

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Na manhã do segundo dia a Vila de Sesimbra presenteou-nos com um mar calmo e azul, que parecia misturar-se com o céu.

Foi no ex-libris da região, o Castelo de Sesimbra, construído pelos mouros e conquistado no início do reino de Portugal, que nos deliciámos com uma envolvência magnífica sobre a vila e uma vista sobre o mar, de cortar a respiração. No seu interior, para além de um café e de um núcleo museológico com artefactos encontrados em todo o concelho de Sesimbra, há uma igreja marco da reconquista cristã de Dom Afonso Henriques, a Igreja de Nossa Senhora da Consolação, com um altar muito bonito e paredes revestidas a painéis de azulejos azuis e brancos, magníficos.

No entanto, ainda entre aquelas muralhas, um espetáculo triste… um cemitério num estado lastimável e desprezado.

Depois… a Serra da Arrábida com paisagens lindas entre pequenos miradouros para contemplar o estuário do rio sado, a tranquilidade das praias e a península de Troia.

Terminámos a manhã no afamado mercado do livramento entre peixe de excelência, frutas, legumes, paredes cobertas de azulejos, que retratam cenas da vida, da pesca e da agricultura, e a nossa animação bem na essência do nosso grupo de amigos.

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A melhor forma de conhecer e visitar os pontos de interesse turístico na cidade de Setúbal foi andar a pé.

A Praça do Bocage, inserida na baixa, é o local mais central e obrigatório para se iniciar uma visita. A estátua, de Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta nascido em 1765, os Paços do Concelho e a Igreja de São Julião.

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Depois foi o roteiro até à Casa museu Bocage, num bairro histórico, para descobrirmos o pensamento do poeta e a sua época. No percurso passámos pelo Museu do Trabalho e subimos ao miradouro virado ao mar e ao rio Sado.

A Casa Museu, um local de inspiração, de documentação histórica e literária acolheu-nos com bons momentos de leitura de poemas do poeta.

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Um dos livros mais polémicos da literatura portuguesa, as “Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas”, de Bocage, é uma antologia poética que retrata a faceta mais excêntrica do poeta português.

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Podem obter o livro AQUI (uma oferta Luso Livros)

Seguiu-se um passeio pela avenida Luísa Todi, a mais célebre da cidade e um dos principais pontos turístico da cidade de Setúbal (homenageia a cantora lírica Luísa Todi nascida na cidade no séc. XVIII).

Depois de uma visita a uma exposição de pintura na Galeria de Pintura Quinhentista, fomos terminar o dia num restaurante local, com uma noite de fados, entre choco frito, castanhas e água-pé.

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Ao terceiro dia, domingo, durante a partida em direção ao Castelo de Palmela a chuva foi a nossa companhia, mais exigente, nem D. Afonso Henriques, em 1147 o foi.

Chegados ao Castelo, que foi recuperado por D. Sancho I, a primeira vista, de cima das muralhas, é sobre a vila de Palmela e a sua igreja matriz. Mais à frente lá estavam Setúbal e Troia, igualmente lindas apesar da chuva. Do lado norte, o rio Tejo e a cidade de Lisboa.

Conta a história de Portugal: - Durante as invasões mouras, os soldados portugueses acendiam fogueiras no castelo sinalizando a invasão e consequentemente antecipavam a defesa da cidade de Lisboa.

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Na reta final do nosso Encontro de São Martinho, regressámos a Lisboa, para antes do almoço no Parque das Nações, realizarmos uma visita panorâmica pela cidade, entre a Torre de Belém e a Baixa Pombalina.

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Vídeo

 

Carlos Alberto Santos

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A última semana da Quaresma, conhecida como Semana Santa

Alto Chicapa, 09.04.20

Com tantos dias de quarentena no mundo, seria bom que "todos" conseguissem entender estes ensinamentos, que a vida nos proporciona.

Perante isto, encontrem o engenho e a capacidade de recomeçar, de respeitar o próximo, a biodiversidade, o equilíbrio da natureza ou de, pelo menos, se esforçarem por viver em harmonia e sem egoísmos entre lugares, ideias, povos, credos, políticas ou raças.

Desejo que este vírus seja apenas o melhor ensino intensivo à distância e agora presencial de que, há muito tempo, a nossa sociedade parecia carenciada. É o mais importante dos exames das nossas vidas. Espero que nos transforme e nos torne mais racionais nas decisões sobre as urgências económicas, sobre o canibalismo dos mercados e, porque não, do facilitismo com que brindamos os nossos filhos... entre outros, como o novo sentimento ou a instituição do "descartável".

Acreditem, também: - Tudo, está lá, nas empresas. Não houve nenhuma guerra destruidora. A economia, os mercados, o ensino, o lazer e os outros podem recomeçar, mais tarde ou mais cedo... ou de uma forma egoísta e/ ou apressada e/ ou mais calculada... a saúde, essa, raramente se refaz totalmente e sem cicatrizes.

Desejo que os ovos do melro da minha tangerineira vos tragam muito mais do que a simbologia da época. Saúde, felicidade e compreensão.

ovos.jpgTambém quero, que sintam aquele meu abraço do tamanho do Chicapa e que o dia de Páscoa vos traga um pouco de alegria.

Carlos Alberto Santos

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Qual é a parte da recomendação "fiquem em casa" que não compreendem?

Alto Chicapa, 30.03.20

O alerta de uma médica / Leiam com calma e se quiserem... até ao fim.

Se há assunto que não deixa de ser falado 24h/dia, 7 dias por semana, em todos os canais noticiosos é a progressão da pandemia ao vírus SARS-CoV-2. Todos os dias, a Diretora-geral de Saúde com a Ministra da Saúde emitem um boletim númerico da evolução do contágio da país. A tutela encerrou as escolas até dia 9 de abril e decretou estado de emergência nacional. Se isto não é pôr os sinos a tocar a rebate, não sei certamente o que será.

Por isso, é com absoluta repugnância que assisto na televisão ao engarrafamento no tabuleiro da ponte 25 de abril em plena tarde solarenga de sábado. Que seja preciso que a polícia faça uma operação STOP para demover o mais comum dos mortais de ir apanhar um bocadinho de sol à praia é absolutamente chocante. Somos um país de brandos costumes, de dar uma no cravo e outra na ferradura, de gente sem a mínima espinha dorsal para assumir a necessidade de manter o isolamento social. Vergonha! Tenham vergonha!

Querem perceber exactamente porque é que a infeção pelo vírus SARS-CoV-2 é complicada? Trata-se de um vírus completamente novo, para o qual não dispomos de um tratamento dirigido, nem vacina protectora. Não, não é como a gripe. E é justamente isto que gostaria de vos explicar.

Olhando para o caso italiano, sabemos que por ano, em Itália, morrem 10.7 pessoas em cada 1.000 habitantes. Para um país com 60 milhões de habitantes, são expectáveis 640 000 mortes anuais, a um ritmo médio de 12.300 mortes por semana. O facto de, desde 15 de fevereiro (aproximadamente), terem falecido um número extra de 10 000 pessoas, significa que a taxa de mortalidade aumentou 12%.

Para compreenderem o impacto disto, vamos comparar justamente com o vírus da gripe: em 6 meses de surto anual (nos países temperados, como Itália e Portugal, é expectável que exista gripe entre novembro e abril), estimamos um aumento da mortalidade que ronda os 15%. O que a COVID-19 fez em Itália em seis semanas, sem ter acabado ainda o surto, é o equivalente ao que faz a gripe em 6 meses.

Percebem porque é que um surto desta natureza consegue colapsar qualquer sistema de saúde, por muito avançado e evoluído que seja? Não se iludam, as condições sanitárias no norte de Itália e em Espanha são globalmente superiores às condições portuguesas. Reparem: em Itália existem 12 camas de cuidados intensivos para cada 100.000 habitantes. Em Portugal temos 4. Não há forma, a não ser através do abrandamento do contágio, de lutarmos contra isto.

Mas, se ainda não estão convencidos que o vírus SARS-Cov-2 não é uma simples gripe, posso continuar a esgrimir argumentos: apenas entre 10 a 12% dos doentes com gripe desenvolvem pneumonia/ doença moderada a grave. Esta realidade atinge os 18% para o vírus Sars-CoV-2.

Lembram-se do caos provocado em 2009 pelo aparecimento da famosa gripe A (H1N1)? Atualmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a taxa de mortalidade da gripe A seja 0,02%. A mortalidade global estimada para a doença COVID-19 é estimada entre 1,7-2,1%. E para os doentes acima dos 70 anos, a taxa de mortalidade ronda os 8%.

Se eu não consigo compreender porque é que as pessoas acima dos 70 anos continuam a sair à rua para beber um cafezinho, ou fazer uma caminhada, ou ir ao supermercado comprar 2 ou 3 items só porque sim, muito menos consigo compreender as pessoas de 30 anos que agem como se nada fosse. Como se não pudessem ser infetados (sabem que há óbitos abaixo dos 30 anos, ou não?) e continuar a transmitir a doença. Será que não pensam que o seu comportamento é um risco evidente para os outros?

Como é que uma Provedora de Justiça se acha no direito de terminar a quarentena a quem, proveniente de outro país devastado pela pandemia, regressa agora, na Páscoa, para as aldeias envelhecidas do interior do país? Estamos a brincar aos brandos costumes? Estamos a brincar às meias medidas?

Por isso, tenho muita dificuldade em compreender como é que uma população de um país pequeno, pobre, mal governado, recentemente alvo de resgate económico, não age em conformidade com a real ameaça que esta pandemia representa. O que nos separa do total colapso do sistema sanitário é tão e somente o comportamento da população. Dinheiro não há, camas extra não existem, as equipas médicas não se multiplicam, nem as omoletes se fazem sem ovos e os famosos 20.000 ventiladores chineses ainda não chegaram. Restamos todos nós!

Qual é a parte do risco que não conseguem compreender?

Querem que, como médica, vos trate a 50% daquilo que é recomendado? Ou que, caso entrem em insuficiência respiratória, providencie suporte ventilatório apenas 12 horas por dia?

Qual é a parte da recomendação "fiquem em casa" que não compreendem?

Um texto da médica pediatra Joana Martins.

Deus estará farto de nos aturar?

Alto Chicapa, 26.03.20

Junto ao rio Tejo há pessoas que se passeiam, com cão, sem cão. Passeiam a pensar que vão isoladas e que está tudo bem. Não percebo que parte do Fique Em Casa é que não perceberam, mas depois recebo um vídeo de um senhor num centro comercial a dizer que isto é uma praga divina, Deus estará farto de nos aturar, que isto é uma limpeza mas que a ele especificamente, este senhor com cerca de 70 anos, ou seja, grupo de risco, nada afetará. Deduzo que nada o atacará por acreditar em Deus.

Lembro-me sempre da anedota do tipo que vive umas cheias terríveis e está agarrado à janela a ver a água subir, subir. Passa um barco que o quer levar e ele recusa, dizendo: “Deus me salvará”. Mais tarde, já numa situação terrível, passa um helicóptero e quer tirar o homem do cimo do telhado no qual teve de procurar refúgio. De novo, a resposta: “Deus me salvará”.

Conclusão, o homem, tão crente, morre e chega ao céu, injuriado e frustrado refila com Deus: “Então? Eu acreditei em ti e TU não me salvaste!” Deus, podemos imaginar que é o Morgan Freeman que sempre dá mais sumo à história, vestido de um branco imaculado, quem sabe de jelaba, responde. “Então?! Então nada, eu mandei-te um barco e um helicóptero e tu não quiseste”.

No nosso caso, quando nos dizem para ficar em casa não são palavras divinas, são palavras de quem sabe mais do que nós.

E a quem não pode ficar em casa, porque é médico, porque está numa mercearia, padaria, porque recolhe o lixo ou está a trabalhar para garantir bens essências, o meu agradecimento.

Texto de Patrícia Reis

 

Nota pessoal.

A nossa Europa sofisticada, com alta tecnologia e cheia de “glamour”, evidenciou neste futuro recente penúria e uma falta de visão política e cultura do passado. Menospreza todos os ensinamentos adquiridos à volta de doenças como a malária e outras epidemias nas suas ex-colónias de África à Ásia.

A Europa tem de se reinventar… sem dependências em todos os setores, quer para produzir máscaras e outros equipamentos de proteção… uma simples bata de enfermeiro, que está para chegar da China… um medicamento, esgotado, de um laboratório no Paquistão, que voltou a ser desviado por quem pagou mais.

Enfim, os “nossos” eleitos que decidem o que é prioridade, esquecem-se / esqueceram-se que os males e/ ou epidemias também podem acontecer no sistema de saúde de países ditos ricos… onde os orçamentos se sobrepõem às pessoas.

A lição que o coronavírus nos está a dar, talvez…

Carlos Alberto Santos

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