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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

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Alto Chicapa (parte 2), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 16.10.20

Férias no Puto

No início de 1973 fui de férias, da guerra até ao “puto” (Portugal), numa longa viagem de 40 dias, 4 dias em Henrique de Carvalho (2 à ida e 2 no regresso), 6 dias em Luanda (3 à ida e 3 no regresso) e 30 dias em Lisboa com a família.

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O descanso, os passeios… os dias de férias passaram rapidamente e muito mais depressa do que eu estava à espera. A vida civil deixou-me sem grande vontade de regressar, mas o dever, de um voluntário à força, chamava-me novamente para o interior de Angola.

A saborosa bica no “Xico Careca” (Pastelaria Restelo, se faz favor!), em breve, seria substituída por outra, que só por dificuldades da máquina, não seria tão boa, mas facilitaria a continuidade de um vício, que muitas vezes era complementado com uma aguardente 1920, em balão aquecido.

No meu regresso à guerra, o pequeno avião, que me transportava da cidade de Luanda para a cidade de Henrique de Carvalho (Saurimo), desviou para a cidade de Silva Porto (Kuito) devido a uma tempestade tropical. Pernoitei no pequeno Hotel Girão. Da cidade… só me lembro o largo junto ao hotel e de uma casa de família, a que chamavam de “Meiaonça”.

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Ao jantar, o empregado, que apoiava o pequeno serviço às mesas, um pouco “abichanado” mas muito simpático, acercou-se de mim e junto ao ouvido, confidenciou:

- Hoje, é a noite das mulheres de fogo! São 50 do “puto”… no melhor sítio e com a minha companhia!

- Obrigado. Amanhã tenho que sair cedo e também já vi disso nos bares em Luanda.

- Não! Não! Esta é uma festa anual, da boa, é dança de preto, mesmo! É seguro!

Pela educação do moço, acabei por aceitar… eramos jovens. Quando chegámos, depois de um pequeno trajeto a pé, reinava um intrigante silêncio, entrecortado a espaços por vários e misteriosos ruídos, sem origem definida, parecendo os fantasmas de um povo residente na selva.

De um lado, havia tocadores de gomas e tchinguvos (tambores), ágeis e fortes nas suas pancadas, e do outro lado, vários tocadores de quissange (instrumento de palhetas) com sons e melodias doces. Ao centro, alguns homens seminus com vozes roucas, em coro forte e ritmado, eram acompanhados por um coro invisível de vozes femininas.

Mais longe, outro grupo de mulheres responde entoando sons parecidos.

Momentaneamente, os tambores começam a tocar muito fortes, as vozes dos homens tornam-se mais claras e precisas e, ao fundo, o outro coro de vozes femininas torna-se empolgante e arrepiante.

Repentinamente, surgem chamas e faúlhas de todos os lados, iluminando a noite, e as mulheres até aqui escondidas, aparecem sem panos, envoltas nos pulsos, nos tornozelos e na cintura com um material herbáceo a arder e a produzir uma chama azulada.

As atitudes, o fogo, os bailados, os sons dos chocalhos e das argolas, dos tchinguvos e dos quissange, formavam uma beleza rítmica impressionante, ao ponto de até o ar parecer fosforescente e fantasmagórico.

As mulheres de fogo, cada vez mais próximas de nós, insistiam nos movimentos sensuais e num bailado a simular o orgasmo, como estivessem a ser possuídas por uma divindade da dança glorificando a nudez sem complexos e a criação da vida.

Num cenário natural, nunca pensei viver momentos de arte, com origens tão primitivas.

De madrugada, noutro avião, maior, rumámos para Henrique de Carvalho, sem sobressaltos.

Como os anteriores, este texto continua a abordar a singeleza da vida, sem esquecer que fui um dos muitos militares milicianos que passaram por Angola sem sonhos de carreira e que a tais memórias me devo dedicar liberto de rancores e com um olhar calmo e enternecido.

As reflexões, deixo-as a outros, mais doutos.

Dizem, que em Portugal, por cada ex-combatente, que morre, uma biblioteca arde.

Cheguei dias depois ao Alto Chicapa por volta da hora do almoço, aproveitando o favor (pago) do desvio de um avião monomotor.

Mal tive tempo para me apresentar ao comando… a sala de refeições, que eu bem conhecia, esperava por mim para o almoço na companhia de personagens da OPVDCA / DGS… as comodidades eram uma mais-valia, que nos faziam sentir bem às refeições e, também naquele complemento, no bar, com café e bebidas… num espaço muito agradável e bem cuidado pelo camarada Sousa.

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Foi sem grandes motivos de alegria, que passei ou passámos o primeiro ano de tropa naquele mundo cheio de mistérios, com outros valores muito primitivos, numa região isolada e muito pobre onde se travava uma luta constante com a natureza, para a sobrevivência. Num raio de 200 km, existiriam, talvez, meia dúzia de europeus civis.

Durante aqueles meses, apercebi-me que o povo sofria em silêncio… com os fantasmas dos feitiços, com a prepotência do chefe de posto e dos seus cipaios e com a ignorância dos colonos e dos militares a cilindrarem tradições e a deslocarem estrategicamente as aldeias.

Temporal

À noite, no meu quarto, enquanto lia A Selva, de Ferreira de Castro, a luz do gerador desapareceu na sequência de um enorme relâmpago.

A seguir, um violento temporal desabou mesmo por cima de nós, numa infernal barulheira sobre as chapas de zinco. Foram horas e horas de chuva e trovoada. Em qualquer cidade seria uma catástrofe.

A meio da manhã, recebemos a informação de que a região continuaria sob o violento temporal.

A área do aquartelamento transformou-se num enorme lamaçal, as picadas próximas ficaram cortadas em vários sítios, as pontes destruídas pela força da água e a pista do avião cheia de sulcos. Um dilúvio, que nos deixou ainda mais pobres e sem o abastecimento semanal dos alimentos frescos.

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Ao fim de duas semanas os géneros começavam a ser escassos e a ridícula verba disponibilizada pelo estado português não dava para compras extra.

Tínhamos entrado no ano de 1973, com a época das chuvas a causar muitos aborrecimentos. Era o mau estado das picadas, a dificuldade em circular com as viaturas e a falta do abastecimento e do correio. Aliás, o responsável pela gestão dos alimentos já vinha há algum tempo alertando para o facto de estarmos com poucos géneros, com défice orçamental, e com uma verba que não dava para compras extra. As refeições dividiam-se entre feijão guisado, esparguete com água e sal, e atum ou cavalas de lata.

O furriel Vítor, o vago mestre, foi perentório:

- Aqui não se fazem milagres!

- Estou farto de pedir, mas não mandam o que necessitamos!

- Não há viaturas que venham ao Alto Chicapa e o avião não pode aterrar na nossa pista!

- Como o tédio parece abundar e as noites custam a passar, proponho uma caçada na zona para reabastecer as arcas frigoríficas e modificar as magras dietas.

Caça

Éramos quatro num Unimogue a gasolina e quatro G3, uma caixa de ferramentas, uma espingarda mauser, do tempo da segunda guerra mundial, e um farolim. A natureza era generosa… conseguimos a carne que o exército nos deveria fornecer.

Regressámos por volta das duas da madrugada com duas peças de caça, um animal de bom porte, um burro do mato com cerca de 120 quilos, e uma gazela com cerca de 20 quilos.

Nunca gostei de caçadas, mas neste caso, a necessidade falava mais alto e em consciência, foi mesmo apenas o necessário.

Quando chegámos ao quartel, os mais curiosos interromperam o sono para verem o resultado.

No entanto, ainda nos atormentava a falta do correio, que, em condições de bom tempo, a pouco menos de uma hora de voo, vinha uma vez por semana, pela parte da manhã, no pequeno avião desde a base aérea em Henrique de Carvalho.

Apesar dos estragos, e da urgência nas reparações das picadas, nas pontes e na pista do avião, as operações e as patrulhas não podiam parar.

Sorte e Contrariedades

Sem mortes, feridos graves ou acidentados nas nossas 79 operações, ficou para recordar a sorte, que nos acompanhou, e algumas contrariedades, que não foram mais do que isso… soubemos ser disciplinados e prudentes. A todos devo muito.

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A jiboia

Quando iam abastecer os cantis de água, ficaram estáticos a meio do percurso… frente a frente a um monstro de cabeça levantado à altura de um homem.

O Cassiano, era o último do grupo. Voltou atrás a pedir ajuda.

Ficámos à prova, numa situação inédita e que teve que ser tratada com pinças.

Com algum sangue frio, abati o animal com dois tiros na cabeça, um ao lado do outro.

Mais calmos, e passada a surpresa, confrontámo-nos com uma jibóia, com mais de seis metros de comprimento e palmo e meio de largura, um bicho lindo e respeitável, daqueles que só se vêm nos filmes.

Sem o sabermos, a sorte esteve do nosso lado… só não fomos atacados ou mordidos devido ao facto de a cobra estar com uma cabra inteira dentro da barriga, com cornos e tudo.

O Buda ataca

O ataque do meu cão Buda sobre três nativos, que tentavam passar dissimulados.

Estávamos muito afastados do nosso quartel, junto à nascente do rio Chiumbe, numa zona de guerra onde era proibida a circulação de civis.

Num abrir e fechar de olhos, o cão sai disparado sobre os três indivíduos, que ficaram sem reação. Hoje já não me lembro como é que tudo acabou, mas recordo-me… conforme o cão avançava ouviam-se vários gritos, Buda euá, Buda euá, Buda euá … (Buda vai-te embora).

Percebi, que o cão foi reconhecido… não percebi a ausência de tiros e a nossa passividade.

Pensando melhor… o Buda era um cão conhecido e temido pelos nativos… foi bom para nós e para eles, que acabaram por fugir.

Formigas térmitas

O ataque das formigas térmitas, que durante uma noite comeram silenciosamente parte dos panos de tenda, calças, o fundo dos sacos mochila e até os elásticos das cuecas.

Formigas quissonde

Sem sabermos, paramos num território de formigas quissonde… o corpo fino e avermelhado, uma cabeça relativamente grande e duas fortes mandíbulas que se cravam facilmente na nossa pele… lentamente começaram a andar pelo interior das nossas calças e botas… de uma forma telecomandada somos todos mordidos violentamente e quase em simultâneo como uma descarga elétrica.

A aflição instalou-se, foi necessário tirar as roupas para aliviar as dolorosas ferroadas e retirar as formigas, uma a uma… mesmo só com a cabeça e as mandibulas agarradas ao nosso corpo. Pelo que aconteceu, o ser humano ou outros animais em dificuldades, seriam devorados vivos.

A fuga dos carregadores

Num trajeto no rio Chiume apercebi-me que os carregadores andavam nervosos. Faziam de tudo para não continuar, diziam-se doentes, sem forças, e que estavam em lugares de feitiço. Durante a noite, fugiram.

Acabou por ficar o carregador principal, o Sá Moço e mesmo assim com muitas dores de dentes. Devido às fugas, não acreditámos nas suas queixas… para se livrar daquele tormento meteu na boca uma rudimentar faca e arrancou, assim a sangue frio e pela raiz, um grande dente cariado.

Perdidos na mata

Numa das primeiras saídas para a mata, sem saber bem como, em determinado momento deixei de ter locais para referência, o mapa não conseguia ajudar, os carregadores não se entendiam, e não havia meio de se encontrar um trilho ou um simples regato para orientação.

À nossa volta, havia um denso e alto arvoredo e um terreno arenoso sem vegetação. Nunca consegui encontrar uma explicação para todo aquele desatino.

Ao quinto dia já andávamos a comer ração de combate a meias e algumas folhas.

Ao sexto dia, sem comida e com alguns raspanetes do capitão, via rádio, lá conseguimos chegar a um pequeno curso de água que nos orientou e nos permitiu após uma longa caminhada chegar à picada de Luma-Cassai e enviar as coordenadas certas para a recolha do grupo.

Decidiram a recolha para um dia depois (o poder instalado, mandava), deixaram de responder aos nossos contatos via rádio (dividir para reinar) e quando entrámos esfomeados no quartel recebi o reconforto, mais filho da puta, da minha vida: Daqui a três dias volta para a mata!

Andar de roda

O dia, em que estivemos a passar no mesmo sítio, uma vez, duas vezes, e à terceira… ouve-se a voz do furriel Gomes… porra, já passei por aqui!

O Buda perdeu-se

Entre o rio Cuilo e o Luchico, o meu cão Buda desapareceu. Como nunca tinha acontecido, tememos o pior… comido por uma onça, mordido por uma cobra ou preso numa armadilha.

Fizemos de tudo para o encontrar.

Em desespero, retardámos os nossos movimentos, deixámos vários pedaços de roupa e outros materiais, que ele bem conhecia, como por exemplo o líquido fortificante dos enfermeiros esfregado nas folhas ao longo do trajeto.

Íamos para a segunda noite de angústia… o Teixeira, que estava numa sentinela mais avançada deu um sinal de alerta e de perigo. Estavam a rastejar na nossa direção. Movimentamo-nos em auto defesa, mas ato contínuo o Cabo Novo grita: - Calma pessoal… é o Buda, é o Buda. Anda Buda! Logo que ouviu o seu nome levantou-se, avançou e imediatamente demonstrou todo o seu contentamento, entre lambidelas. Parecia muito cansado e magro, mas a sua felicidade parecia maior do que a nossa.

As raízes do Sá Moço

Durante uma pausa, encontrei o Sá Moço a contemplar o horizonte, perdido no tempo e a mascar raízes (já sabíamos, que era um consumidor frequente de afrodisíacos naturais).

- É bom?

- Sim! É remédio para dar força! As mulheres esperam-me!

- As quatro?

- Sim, todas! As mulheres são ciumentas e não se pode adiar a visita conjugal. Pedem para ser contempladas, de igual modo.

Quando o confrontei pelo excesso de afrodisíacos, respondeu-me:

- Tudo o que sirva para estimular o pénis (lukutu) e excitar a vagina (sundji) é bom, porque um homem ou uma mulher sem desejo, são cadáveres vivos.

Matacanha

A meio da manhã, no bar do quartel, entre uma cerveja e uma sempre saborosa sandes de chouriço, comecei a sentir algum desconforto no meu pé direito. Mais tarde, na enfermaria, fiquei a saber que estava com duas matacanhas, uma no calcanhar, quase do tamanho de uma ervilha, e outra muito mais pequena debaixo da unha do dedo grande.

A matacanha é uma espécie de pulga penetrante.

Naquela época, os nativos eram os únicos e os verdadeiros médicos especialistas no tratamento destes parasitas. Um pouco a medo, aceitei a ajuda de um indivíduo da sanzala, que confirmou: - São dois ninhos.

Sujeitei-me a uma pequena “intervenção cirúrgica” com um rudimentar pau muito bem afiado na ponta e desinfetado ao fogo. Com tempo e muito cuidado, tirou uns sacos sem os romper. Continham, o respetivo animal e umas centenas de ovos. No final, encheu os buracos com petróleo e cinza retirada de uma fogueira.

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Sem sangrar, ficaram apenas dois orifícios no pé.

Mais tarde, com a ajuda do enfermeiro Luís, do Dr. Vila Verde e com uns comprimidos (LM), o meu pé recuperou completamente.

Passeio a Henrique de Carvalho

Fui em “passeio” a Henrique de Carvalho. O pouco tempo passado na civilização, de uma pequena cidade, não compensou o desconforto da viagem e um trajeto tão longo.

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No entanto, aproveitei o momento de ócio para rever dois velhos camaradas de Mafra, os Alferes Duro e Saldanha, colocados na sede do batalhão.

Convidaram-me para a cervejaria Bonina(?), junto ao cinema Chicapa(?). Passámos em amena cavaqueira junto ao edifício do governador, aos jardins, à igreja e numa rua ladeada por estabelecimentos comerciais junto à avenida principal.

O petisco era excelente, mas a conversa foi o melhor. Comemos um bife de asas (a sair do prato), muito bem temperado com gindungo e um molho com óleo de palma e leite de coco, acompanhado com muitas batatas fritas, um pão grande acabado de fazer e umas garrafas de vinho verde Gatão (muitas).

- Carlos, então?

- Está tudo ótimo… é de chorar por mais… não há disto no Alto Chicapa.

- A sobremesa… vai ser ali, mais à frente, na pastelaria (?)… onde o chouriço, até vira paio.

Ficámos instalados junto à vitrina dos bolos… sem qualquer pedido feito, fomos logo atendidos, por uma das filhas do patrão... três cafés e duas aguardentes velha antiqua, em balão aquecido.

Eram duas irmãs, com roupas justas a realçar ainda mais os seus corpos, mas não precisavam… eram as rainhas da casa e as delícias dos clientes… vindos do mato tinham tratamento especial… e como elas sabiam ser cúmplices do acréscimo de tesão, que nos percorria o corpo.

Acabei a noite no cinema com outros camaradas. Cheguei atrasado… mesmo no momento em que as luzes se apagavam. Só deu para ver uma sala quase repleta de militares.

A sessão, começou com um noticiário / documentário sobre o império e o mundo e alguns desenhos animados, que ajudaram à boa disposição.

Depois do intervalo, começou o filme, Um Dólar Furado, uma história de cowboys, que agradou a todos e foi certamente o tema das conversas nos dias seguintes. No final, houve uma salva de palmas.

Ainda fomos beber umas cucas... mas com os vapores de Baco já trocavam tudo… até tinham ouvido, à saída do cinema, duas, das muitas pulgas existentes na sala, a decidirem: - Vamos a pé ou num tropa.

Malta! Não podem esquecer… hoje é dia d’ânus… a Teresinha arrumadora está com o período …, ih! ih! ih!

Agora, era o tipo do peido... saíste antes de tempo! Já não vês o filme ….

Irra… não há outra conversa... vai outra rodada?

Abandonei o grupo, para aproveitar algumas horas de sono, antes da partida para o Alto Chicapa. Esperava-me muito asfalto e o grande desconforto da picada.

A nossa coluna era composta por duas viaturas, um Unimogue a gasolina, onde ia o condutor, o capitão, o correio e alguns géneros alimentares, e uma Berliet com um condutor, eu, dois furriéis, três soldados, muitos sacos de cimento e alguns cartões com ovos.

No regresso a casa, o trajeto parecia ser melhor e até o condutor estava com o pé mais pesado… era o desejo de chegar ainda com dia.

Na Vila do Cacolo, antes de entrarmos na picada, petiscámos na Tasca do Mais-Velho. Comi um arroz malandro de bacalhau, único e delicioso, com cerveja gelada. Dei pela ausência do capitão… já sabiam, era assim mesmo nesta altura do percurso, com ou sem petisco, não esperava e continuava para o quartel.

Praticamente no final da nossa viagem, um pouco antes da descida para a sanzala do Cambatchilonda, numa zona reta onde a picada plana convidava para mais velocidade, um troço de areias e lama obrigou à troca para uma mudança mais segura. Sem explicação a viatura vira para o lado e sai da picada. Valeu a travagem e a destreza do condutor. Uma das rodas ficou bloqueada. Não houve estragos na carroceria, nem ferimentos… incluindo os ovos.

Ficou para a história uma reparação fora da picada e uma longa noite passada com os mecânicos Ferreiro, Barradas e Morgado, que tudo fizeram para resolver a avaria com um recuperado material, muito gasto, e não esqueço a ajuda providencial de uma árvore, no lugar certo, para estaca do guincho.

Torneio de Futebol

Com os equipamentos, que tinha trazido de Lisboa, camisola laranja às riscas e calção branco, inaugurámos o campeonato interno de futebol de onze. O nosso primeiro jogo, foi contra a CCS (o pessoal do arame farpado).

Os escorpiões do 1º grupo de combate, estiveram insuperáveis num grande jogo com certeiros remates do Canossa, Gomes, Miguel e Neto, que nos permitiram alcançar uma estrondosa vitória por seis bolas a duas.

O João, era o nosso guarda-redes das grandes defesas, no entanto a esta distância já não consigo reproduzir qualquer momento dos jogos… exceto quando o nosso homem, o das grandes defesas, abandonava o jogo para ir à casa de banho.

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A circuncisão dos rapazes e a iniciação das raparigas

Como, em 1973, o ambiente entre as NT (nossas tropas) e as populações ainda era de mútua confiança, fui convidado a participar na festa da circuncisão dos rapazes, e na iniciação das raparigas.

A circuncisão dos rapazes

A circuncisão dos rapazes, acontecia aos catorze anos na “mukanda”, onde lhes eram, também, ministrados todos os ensinamentos.

Durante alguns dias haverá uma enorme atividade que gira em redor do rapaz, dos pais, do operador, do ajudante e do professor. No final do serviço, há sempre um pagamento obrigatório, geralmente feito em animais domésticos, bebidas, ou outros bens.

Tudo acontece num cercado redondo com uma única entrada que fica virada para a aldeia, a “tchifwa”. Lá dentro, existe uma pequena palhota destinada à mulher mais idosa da aldeia (uma mulher pura sem relações sexuais) a quem compete a preparação das refeições para que os circuncisados não emagreçam, não adoeçam ou morram.

Na véspera da entrada dos rapazes, logo que anoitece, todos os casais da aldeia e outros estranhos convidados vão para dentro do cercado onde acendem varias fogueiras, junto das quais se sentam, dançam, gozam a vida, comem e bebem.

Quando se ouvem os sons do batuque, começa a dança da circuncisão, a “tchisela”, a noite propiciatória e licenciosa, como diziam. Era o início de todas as liberdades, onde todas as brincadeiras são permitidas. Nesta noite, não há casais, não há adultério, apenas homens e mulheres. É a noite dos amantes, em que a todos é permitido divertirem-se com a sua mulher ou com outras. Para que não haja dúvidas, o chefe da aldeia informa todos… ninguém pode provocar desordens ou estragar a alegria… se não concordarem saiam. As relações sexuais consentidas, procuradas ou toleradas, nesta noite, são todas praticadas fora do cercado, e só, até ao nascer do dia, quando acaba a dança da circuncisão.

Logo que nasce o sol, o chefe da aldeia, acompanhado de todos, rezam aos espíritos dos seus antepassados para que tudo corra bem e livre os circuncisados de toda e qualquer doença, feitiço ou mal.

Depois, os operadores, os seus ajudantes e o “mukiche” (mascarado), abrem outra saída no cercado, no lado oposto à única existente, por onde vão sair a fim de procederem ao corte dos prepúcios. Com os braços prendem-nos, e a cabeça é virada para o lado para não verem a operação, que é feita sem anestesia ou outros cuidados anti-inflamatórios. O “mukiche” guarda o local da operação, para evitar que profanem o recinto da circuncisão.

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Depois de operados, ficam em fila virados para nascente completamente nus com o pénis a sangrar.

Para acalmar a agitação, o medo e a dor, colocam na cabeça argila branca bem molhada e para parar o sangue, põem sobre o golpe, um pouco de pó proveniente de plantas.

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Por fim, os iniciados dormem três noites ao ar livre junto de uma fogueira, e depois dentro de umas palhotas, que construíram. Assistem ao nascer do Sol e pedem para que lhes dê fecundidade e potência sexual.

A partir da data da circuncisão, passam a ser considerados homens e adquirem o nome definitivo.

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Iniciação das raparigas

Ao contrário do que aconteceu com os rapazes, em que tive muita liberdade para participar, a iniciação das raparigas, depois de me informarem o que costumava acontecer, disseram-me que apenas estava convidado para a parte final.

Contam: Tudo acontece quando a adolescente tem a primeira menstruação e foge para o mato longe da vista dos homens. Uma das mulheres adultas da aldeia, a que chamavam de mestra, procura a jovem e leva-a para junto de uma árvore e aí mantêm-na acocorada. Dá-lhe umas raízes a comer e leva-a tapada para a casa das menstruadas, fora da aldeia. A iniciação dura uma semana, na companhia da mestra e de uma virgem, com quem dorme. A mestra ensina e exemplificava o verdadeiro comportamento nas relações sexuais, a prática dos movimentos da vagina e as técnicas para a obtenção do máximo prazer. Cada lição de aprendizagem só termina quando a aluna atinge o orgasmo. No corpo da iniciada, também são feitos alguns golpes transversais, acima da púbis, nas costas, cintura e rins. Estas linhas, têm finalidades eróticas, excitantes e indicam onde o homem deve colocar a mão esquerda durante o ato sexual.

A parte visível, só acontece quando termina o fluxo menstrual. A iniciada é lavada no rio e pintada de branco. É levada para a casa da família ou do marido, onde lhe dão o nome definitivo. Nesta altura passa a dormir com o marido, mas só na terceira noite lhes é permitido ter relações sexuais.

Independentemente da anterior vida da jovem, com ou sem relações sexuais, o que contava para a mulher era o dia da menstruação e efetivamente o inicio da sua verdadeira vida de casada.

Visita à aldeia de António Cavula

Enquanto se preparavam as infraestruturas para a instalação do novo destacamento em António Cavula, fiz uma visita à aldeia. A meu pedido, esta foi previamente preparada pelo professor. Fui conhecer em pormenor os limites da aldeia, as entradas, o soba, alguns dos mais velhos e o adivinho ou “tchimbanda”.

Foi uma visita estranha num ambiente aparentemente sem população à vista e cheio de ambiguidades… o soba e o filho, pareciam duas marionetas dos seus familiares, sempre indecisos entre os, que ainda estavam na aldeia e os, que já andavam na guerrilha.

No conselho dos mais velhos, foi tudo mais fácil, mesmo sem falarem, demonstraram por gestos a sua aceitação para a instalação do destacamento militar.

Quando chegámos perto do adivinho os meus olhos faiscaram nele… talvez devido às diferenças culturais ou à minha formação.

Apesar de tudo, quis saber mais e vê-lo em ação, quando fosse possível.

O momento aconteceu no tratamento de um homem doente. Começou o tratamento invocando os ídolos e os espíritos dos antepassados. No fim informou: Está enfeitiçado, deve fazer rezas, pagar com uma cabra e tomar o remédio (?), que encontra na mata.cestoadvinhação

Contaram-me:

- Quando a doença era mais pequena, o “roubo” era maior. Chamava-lhe uma “mahamba”. Neste caso o tratamento era feito por exorcismo com batuque e cânticos onde o “tchimbanda” e o assistente hipnotizam o doente. Mais tarde, indicam-lhe o pagamento que é necessário para acalmar os espíritos.

- Por exemplo, quando alguém tinha dores nos braços, nas pernas ou reumático, dizia que eram provocadas pelos espíritos dos brancos… só passa após o pagamento para contato com o espírito.

A minha conclusão foi simples… quem mandava na aldeia era o adivinho ou “tchimbanda”. O povo tinha muito medo dele. Nesta aldeia, o único que conheci, era considerado como um deus. Dizia, que conhecia todos os segredos da natureza e da vida do sobrenatural a quem os espíritos obedeciam.

Os meus olhos faiscaram porque me apercebi do negócio… este adivinho e o assistente eram pessoas sem escrúpulos, a quem toda a gente era obrigada a venerar, pagar e acreditar… de tal forma, que nenhuma decisão era tomada por alguém sem que fosse consultado o adivinhador… só ele podia resolver depois de entrar em contato com os espíritos dos antepassados.

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt

Ex-Militares da 3485 no MEO Kanal

Canal nº 888882 – Ex-Militares da 3485 no MEO Kanal

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