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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Entre a gloriosa bicha de pirilau e a vacina de dose cavalar

Alto Chicapa, 01.07.21

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Não sendo grandes motivos de história, selecionei três momentos da minha juventude para vos contar... para os quais não estava preparado.

 
Na instrução de recrutas ou na recruta, como vulgarmente lhe chamavam, os primeiros dias iam-se alternando entre atividades físicas e procedimentos de burocracia acessória.
 
Começo pela fotografia para o cartão ou caderneta e processo militar, onde incluíam a PIDE. Era um procedimento do tipo presidiário... uma parede branca, um boné e um casaco do uniforme, que serviam para todos, e uma placa em chapa  pendurada ao pescoço, com um número escrito à mão, o número mecanográfico, que acabava por ser banalizado, melhor... desprezado ao longo da instrução, devido ao uso das alcunhas: o canina, o tretas, o missas (rezava à noite), o risadas, o cu de alface, o chupa grelos, o beiças, o corno feliz, o três pernas, o piçalho, o conas e o conichas (andavam sempre juntos) e o cacaralho (era gago), entre outros menos icónicos.
 
Depois... veio o dia da inspeção médica. Estávamos em Janeiro de 1971, ao frio, num longo corredor... um pelotão todo nu esperava em bicha para entrar no posto médico. Quando chegou a minha vez, entrei muito devagarinho... nos meus 50 kg, ia à defesa para a primeira brutalidade e também porque já há algum tempo que não sentia os dedos dos pés.
100347 de 69, apresenta-se!
Nem um olá recebi... tenho dúvidas se olharam para mim. 
Encontrei um médico sentado a uma secretária, com os olhos fixos em qualquer coisa, e um cabo enfermeiro, com cara de forcado na reforma, apoiado numa minúscula mesinha... escreviam alternadamente num livro enorme.
Só falou o médico :
- Já sei!... não sofre de nada! 
- Chegue-se aqui! 
- Pela ponta, levante o pirilau! Arregace! 
Enquanto me apalpava os fundos, sem mágoa, concluí que a bicha no corredor e o levantar do pirilau, davam razão para que se ouvisse: todos em bicha de pirilau. 
- Vá-se embora! Leve este papel e entregue-o ao meu major dos psicotécnicos... estava escrito, apto para todo o serviço. 
- Nosso cabo... onde estamos? Rápido, chame outro!
 
Para terminar... no fim do primeiro mês de instrução, a uma quinta-feira, aconteceu o dia da primeira vacina... a vacina, que dava para tudo. 
Apesar de estarmos num inverno, frio e chuvoso, houve uma cerimónia cheia de pompa e circunstância, mobilizaram-se os pelotões e  as mais altas patentes do quartel.
Em grupos de 20, fomos para enfermarias improvisadas... tronco nu e de costas voltadas sentámo-nos em bancos corridos, os do refeitório. 
Os comentários das anteriores vítimas, faziam adivinhar o início de uma "carnificina".
De repente, aparece um enfermeiro com uma mini esfregona improvisada de um maço de algodão... sem avisar, besunta o nosso lado direito com tintura de iodo, em movimentos circulares pelo ombro e na omoplata.
Atrás vinha um soldado a transportar uma terrina cheia de agulhas, que pareciam ferros... era a terrina da sopa, que costumava ir à mesa.
A fechar o cortejo, havia um outro enfermeiro com ar, sinistro... as anteriores vítimas já o tinham apelidado de espetador de ferros. 
À medida que o trio se aproximava, iam-se esclarecendo todas as dúvidas acerca dos sons, que entretanto se ouviam.
O espetador, antes de enfiar a agulha, que mais parecia um cano, dava um chapadão nas costas... até fazia parar a respiração.
Finalmente, o último enfermeiro com uma grande seringa, semelhante a um inseminador para gado, distribuía as doses a olho o que provocava um desacerto para o último, do banco... ou não levava a dose completa ou levava também o reforço.
Posso confirmar, aquilo era mesmo cavalar... fiz todo o serviço militar sem constipações, enxaquecas ou dores de qualquer espécie, nada me fazia mal... só não fiquei imune à malária / paludismo e aos "turras".
Voltando à enfermaria.
Um camarada conhecido por touro... uma força da natureza... tinha uma fraqueza, não conseguia ver agulhas.
No banco corrido, o touro fazia das tripas coração para não ver o que se estava a passar.
Aconteceu que, depois de levar com o líquido e antes que lhe retirassem a agulha, levantou-se para sair dali. Gritámos para se sentar e alguém acrescentou: ainda tens a agulha.
Olhando para o ombro, para confirmar, viu a agulha espetada... de imediato, caiu inanimado no chão.
Aquela animalesca vacinação terminou com o arrancar das agulhas e com a limpeza do sangue, que já escorria pelas costas de alguns.
As dores, no lado direito do corpo, já davam os primeiros sinais... fomos compensados com uma sessão de aplicação militar, destinada, como dizia o alferes-China, para fazer espalhar a dor.
A seguir, sem as grandes formalidades habituais, fomos de fim de semana.
Já não tenho a certeza se todas as indisposições se resolveram rapidamente só com umas aspirinas... mas rezam os certificados internacionais de vacinação do Ministério do Exército, distribuídos posteriormente, que não nos livrámos de mais vacinas, como as do tétano, cólera, varíola e febre-amarela.
 
Recordar, faz-me bem, a ti e a todos nós... reconstitui as tuas memórias, os sítios por onde passaste, viveste, combateste, amaste, sofreste, viste morrer... eventualmente, um parte do teu corpo e da tua juventude. 
 
Um abraço do tamanho do Chicapa. 
Carlos Alberto Santos

Entrevista a um ex-combatente, com histórias, que não quer contar

Alto Chicapa, 29.03.21

Estamos no mês de Março, na Primavera de 2021.

O futuro, uma vez mais, prega-nos partidas... grandes desafios para a medicina, as privações de liberdade e as ameaças de mais pobreza no mundo.

Eu sou o Carlos Alberto Santos, ex-alferes miliciano e ex-combatente na Companhia 3485, do Batalhão 3870.

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Fui militar no exército português, desde Janeiro de 1971 a Junho de 1974, três anos e seis meses. Em Fevereiro de 1972 fui para a Guerra do Ultramar.

A guerra de guerrilha em Angola, aconteceu no período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação, UPA/FNLA, MPLA e UNITA, entre os anos de 1961 e 1975.

A minha ligação ao Exército terminou com a passagem à disponibilidade ou passagem à peluda, como se costumava dizer.

Continuo casado, tenho três filhos e três netos, 72 anos... velhinho! Sou natural de Lisboa, mas com genética minhota, de Melgaço, por parte da mãe, e beirã, de Unhais da Serra / Covilhã, por parte do pai.

O que vão ler a seguir, é apenas e só uma entrevista a um ex-combatente em África.

O que o motivou a entrar no exército português?

Nada, mesmo nada.

Fui obrigado, como voluntário "à força".

Naquela época ia-se a uma inspeção obrigatória no quartel da área de residência... foi um momento agitado, ficámos todos com o "pirilau" à mostra.

Mais tarde, quando menos se esperava, vinha o recrutamento, que só alguns conseguiram adiar ou escapar.

Como estava a estudar na Faculdade de Medicina de Lisboa, solicitava adiamentos anuais de incorporação no exército. Foram dois anos e meio de espera (era o termo usado)... mas, a seguir ao Maio de 68, quando a revolução dos estudantes franceses começou a influenciar as organizações em Portugal, a PIDE atuou sem piedade nas Universidades, com as chamadas rusgas nas faculdades, que terminavam, quase sempre, com pontapés nos "tomates", murros, chapadas e a inevitável prisão dos líderes académicos e dos outros, que estivessem por perto.

O governo, por sua vez, como forma de coação, determinou às reitorias o cancelamento de todos os pedidos de adiamento de incorporação no exército.

No final do primeiro período escolar... uma semana antes do Natal, recebo um postal e uma guia de marcha para me apresentar  no dia 11 de Janeiro de 1971 no Quartel, em Mafra.

Foi um Natal muito sofrido lá em casa.

A minha mãe, andava a fazer tratamentos a um cancro de mama... abraçava-me a chorar... chorava sem fim (terrível).

Depois da experiência, mudava alguma coisa no serviço militar?

Mudava muito. Conforme está hoje, o serviço militar é uma aberração, não serve para nada... é a imagem decadente de quem nos governou e governa.

O Serviço Militar deveria continuar, para homens e mulheres, mas num registo de formação e de envolvimento cívico... sem estragar ou empatar a vida do cidadão.

Fazia bem a todos.

Mesmo só de passagem, a organização militar é uma escola de vida, de disciplina e de valores... no final de um percurso militar, alguém me dizia: quando entrei para a tropa era um "atado", saí de lá um homem.

O modelo israelita, independentemente da visão daquela guerra, poderia servir para uma base de trabalho.

Quantos quartéis e infraestruturas estão subaproveitados?

Porque estão obsoletos os hospitais do exército, da marinha e da força aérea?

O laboratório militar, de onde saíram tantos medicamentos, os LM e outros, até vacinas... porque foi esquecido?

E o centro de estudos epidemiológicos do exército?

A memória pode ser curta (?)... mas há milhares de profissionais formados na Força Aérea, na Marinha e no Exército a trabalhar em empresas civis de diferentes sectores... e hoje?

Gostava de ver os seus netos no serviço militar?

Gostava, mas não na guerra.

A disciplina, a hierarquia, o sentido de organização e o respeito pelas diferenças fazia-lhes bem.

Na guerra não! Porquê?

Andei na guerra em África... sei o que é.

Na guerra não... as guerras são injustas e desnecessárias.

Quando o mais forte ser humano, é tão frágil numa pandemia... guerra para quê?

O que sentiu quando foi chamado para combater em Angola?

Fiquei assustado.

Era um menino!

Não sabia o que era combater, nem estava treinado para tanta responsabilidade... por isso, ouvia-se: carne para canhão.

No Leste de Angola, aquilo não era brincadeira, já era uma guerrilha a sério... quem facilitava, geralmente recebia problemas de volta... os que estavam em fim de comissão "os velhinhos", diziam aos recém chegados, "os maçaricos": se não matares primeiro, és o homem que morre... a estupidez da guerra.

Pensou, alguma vez, que podia não voltar vivo?

Pensei muitas vezes, principalmente durante os trajetos na picada.

Quando andava na mata sentia-me mais tranquilo... as noites e as madrugadas também não eram de confiar, no entanto o meu cão Buda, que parecia nunca dormir, dominava a escuridão, sem ladrar... era a melhor sentinela.

Tínhamos uma vida muito complicada... a mina acontecia e a bala espreitava.

A interajuda desinteressada, entre nós, tornavam tudo mais fácil... quase o único conforto... não me canso de dizer: estou vivo, porque os meus camaradas estavam perto de mim.

O que sentiu quando chegou a uma terra tão diferente de Portugal?

O primeiro choque foi o calor, em Luanda. Parecia uma fornalha.

Depois... as pessoas.

Nos primeiros dias, os pretos pareciam todos iguais... os miúdos também eram muitos, não paravam, estavam sempre a pedir... os brancos (silêncio)... não imaginava que fossem assim tão distantes da realidade e alheios a tudo, exceto às suas vaidades.

Num restaurante da ilha, só por estarmos a conviver ou talvez um pouco mais animados, senti(mos) a verdadeira dimensão do desprezo que tinham por nós, militares... uma família marcou-me para sempre... o vosso lugar é no mato, fora daqui... a seguir, veio o empregado: vão ter que terminar e sair.

Com o tempo, fiquei a conhecer melhor aquelas atitudes... uma prática muito comum nas grandes cidades. Por exemplo, em Malange, terra de diamantes, a arrogância era enorme... quando os "senhores" caminhavam no lado direito da estrada o preto sentia-se na obrigação de passar para o outro lado.

Para quem acabava de chegar, de Portugal, para combater e para ajudar as populações, estas atitudes eram impensáveis.

A vida no interior de Angola era diferente... era mais pura.

Viviam de uma forma rudimentar... praticamente só tinham o que a natureza lhes dava, isto é, se não fossem espoliados pela guerrilha.

Apesar da guerra e de vivermos paredes meias com o "inimigo", era, apesar de tudo, um ambiente fascinante e culturalmente rico.

As pessoas eram boas e sem maldade... quando gostavam, eram amigas. Mas, também os havia, os de dupla pátria e os malandros.

Não contando com os militares, num raio de 100 /150 kms só existia um ou outro branco, geralmente comerciante ou o chamado chefe de posto.

Viver no interior, com a natureza e com pessoas muito cultas, à sua maneira, marcou-me muito. Foi um fascínio, que perdura, meio século depois.

Como resolvia os momentos de maior aflição?

Não sou de grandes aflições.

Nesses momentos sou frio. É preciso resolver... resolve-se sem nervos, sem medos e com a consciência de que pode correr bem ou não.

No dia seguinte, vem o pior, os meus intestinos desfazem-se... na escola, depois dos exames, acontecia-me o mesmo.

Em conflitos, com armas na mão, uma indecisão era fatal.

Com a experiência a maioria ficou pronta para tudo e ia sempre em frente, como se nada fosse... quase sem a perceção do risco.

Tem alguma imagem marcante de mortes?

Não houve mortes na Companhia 3485... apenas feridos em acidentes.

Só tenho uma situação marcante com a morte. O assassinato de um homem, que violou a mais nova de quatro mulheres de uma família na aldeia de António Cavula.

As quatro mulheres, unidas pela natureza de um casamento polígamo, decidiram fazer justiça... envenenaram e enterraram o agressor, ainda vivo.

Quando o chefe de posto foi informado daquela morte exigiu a retirada do corpo da improvisada sepultura. À medida que o corpo ia sendo retirado o povo fugia com medo do feitiço dos espíritos... a força do veneno criou um monstro.

Semanas depois, quando me encontrei com o Chefe de Posto perguntei-lhe como tinha ficado o caso do monstro de António Cavula... respondeu: O Soba, depois de consultar os Mais Velhos, concordou com o julgamento dos espíritos, o homem deixou de ser homem... quando decidem assim e não há conflitos, o Chefe de Posto não se envolve.

Como entendeu a guerra colonial?

Como todas as outras... não há guerras sem interesses paralelos, políticos e económicos.

Em Angola não fugiram à regra... o povo acabou por ser o principal sofredor... continuam subjugados ao colonialismo geopolítico... ao poder económico, ao consumismo e à dívida.

Quais eram os momentos de descontração?

Descontrair sem controlo era perder o foco da guerra... era perigoso e podia pagar-se com vidas.

Efetivamente havia momentos assim, para esquecer... entre petiscos, jogos e conversas.

No meu caso, também juntava a esses momentos um diário e alguns livros... lia muito.

Havia militares com problemas traumáticos?

Traumas... acho que não.

Só algumas "pancadas" leves, talvez isso! Eram apenas situações comportamentais, de uma dezena de militares mais problemáticos... quase sempre à volta da violência sexual, das drogas leves e da negação das regras.

A ditadura e a rigidez de comando também ajudavam à indisciplina dos "revoltados", que se manifestavam, depois, fora de portas, com comportamentos extremados.

Sem querer particularizar... hoje sim, há gente com problemas traumáticos, como por exemplo: os que não querem ouvir falar dos camaradas ou da tropa, os que só querem distância dos temas... mesmo que a mente sofra ou as "dores" de consciência, reais ou não, atormentem os dias.

Quando soube que a missão em Angola estava a chegar ao fim, o que pensou?

Sinceramente, não pensei em nada... mas tinha, desde o final do ano de 1973, um duplo sentimento amargo: os anos de juventude perdidos, para nada, e a hipocrisia daqueles, que nos foram buscar para combater e no final fizeram tudo para nos esquecer.

Este sentimento exacerbou-se, entre o quarto trimestre de 1973 e o primeiro trimestre de 1974, na sequência das alterações impostas pela paupérrima gestão do Sr. General Hipólito.

Os erros de estratégia, como o "rasgar" de acordos e a retirada de militares influentes e importantes nas pontes entre o IN e as NT, acabaram por ser fatais para centenas de camaradas, numa guerra que parecia ganha.

A falta de diplomacia e o desprezo  pela nova UNITA, deram força para ataques quase em simultâneo com o MPLA. Houve perdas, sem precedentes, de muitas vidas de civis, de militares e a destruição de muito material nas NT... armas, viaturas, equipamento de comunicações e até infraestruturas.

O que sentiu quando regressou da guerra?

Foi, sem dúvida, uma explosão de emoções, entre sensações estranhas e de alegria.

Senti o conforto da casa e da família e a urgência de recomeçar a vida em Portugal.

Encontrei o meu país, em pós revolução de 25 de Abril, com convulsões sociais, manifestações e muitas greves.

Sem contar, fiquei envolvido numa nova "guerra"... procurar trabalho.

Uma curiosidade... durante as primeiras noites em Portugal, não conseguia adormecer na cama, apoderava-se, de mim, uma agitação inexplicável.

Parecia que faltava o ar... dormi várias semanas deitado no tapete e de janela aberta.

Faziam-lhe muitas perguntas sobre a guerra?

Nos anos a seguir ao 25 de Abril, as conversas sobre a guerra colonial eram evitadas... praticamente, não perguntavam.

Havia um sentimento de culpa na sociedade portuguesa, até porque havia os colonos regressados e os que tinham fugido das retaliações ou da guerra civil em Angola.

A guerra foi marcante, para quem a viveu... mas, também havia grandes momentos de amizade.

Como compara a guerra colonial com as guerras de hoje?

De uma maneira ou de outra, guerra é sempre guerra... há mortes, feridos e destruição.

Atualmente, a guerra acontece com mais tecnologia, armas sofisticadas e até visão noturna... é diferente. Usam a espionagem dos satélites e a robótica de precisão... atacam onde querem.

Acho que não há comparação possível... passou-se da armadilha e da flagelação aos drones e à robótica.

Há alguma história que queira contar?

Há muitas histórias simpáticas, que se poderiam contar aqui, resumidamente... mas iam desvirtuar a finalidade desta entrevista.

No entanto, no site da Companhia 3485 (www.cc3485.pt), podem ler histórias com momentos daquela época... se não estão mais, foi porque não as quiseram contar ou então, são para esquecer, mesmo!

Também há outras histórias, que de tão íntimas... só as queremos guardar para nós.

Os dois anos e meio de guerra, o ambiente hostil e o que passámos... essa sim, é a nossa história (silêncio).

Parece desiludido, pela minha decisão...!

Como não quero desiludir, conto então uma história real, passada numa terra de lindas mulheres, Chaves em Portugal.

Já não me lembro como tudo começou, mas decidiram que tinha de dar aulas regimentais de preparação para o exame da quarta classe.

Dava aulas duas vezes por semana, numa sala na Câmara Municipal.

Depois, no quartel, durante a tarde de quinta-feira, respondiam a um teste livre com a matéria da semana... três perguntas e uma cópia de um pequeníssimo texto.

Entretanto, espalhou-se um boato (intencional)... as perguntas e os textos, que se repetiam nos testes de aprendizagem semanal, saíam no exame final.

Ao princípio, demonstravam falta de empenho e eram pouco cuidadosos... gordura, sujidade... iam à escola por obrigação.

Na terceira semana de aulas, mais ou menos a meio, informei-os: vocês ainda não sabem... quem vai avaliar o vosso exame é a professora que tem estado a corrigir as vossas provas semanais.

Se a quiserem conhecer... janta quase todos os dias na messe de oficiais... juntem-se, e vão até lá, eu faço o resto.

Apresento-vos a minha mulher...

Como por magia, tudo mudou a partir desse momento. Mais empenho, letras cuidadas, corações desenhados, papel perfumado e um exame da quarta classe inesquecível... momentos únicos, que nos acompanham pela vida fora.

Consegue comparar a atual pandemia Covid 19, com as doenças, que existiam durante a guerra colonial, em Angola?

Não consigo fazer essa comparação... não tenho conhecimentos e as épocas também são distintas.

Mesmo assim, há algo em comum: hoje, ainda não temos os tratamentos a 100% para o coronavírus Covid 19 e no passado só havia a penicilina para anular infeções provocadas por bactérias, mas, apesar de tudo, havia a vantagem  de não haver mobilidade fácil e grandes concentrações de pessoas.

Durante a guerra, a Sífilis e a Gonorreia, transmitidas através da relação sexual, eram as doenças mais complicadas de tratar.

Havia também a Lepra e doenças hemorrágicas muito letais.

Finalmente a Malária ou Paludismo, que meio século depois, ainda é uma doença endémica em África.

É uma infeção dos glóbulos vermelhos, causada pela picada do mosquito Anopheles fêmea infectado.

Atacou muitos militares na Companhia 3485.

A minha experiência com a doença não foi nada boa. Febre acima de 40º C, suores frios, uma contínua dor de cabeça, falta de força para sair da cama e não conseguia raciocinar. Só ao fim de 4 dias é que tive a verdadeira noção do que estava a acontecer.

Não gostei de terminar a minha entrevista assim... mas, como é óbvio, a vida também é vivida em luta contra as doenças.

Um abraço do tamanho do Chicapa.

Carlos Alberto Santos

 
 
 
 
 

Meio século depois... da viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força em Angola

Alto Chicapa, 28.01.21

Praticamente, meio século depois…

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Ao meio-dia de um sábado, sempre o primeiro depois do dia 15 de Maio, num restaurante da região do organizador (Lisboa, Braga, Fátima, Peniche, Porto-São Félix, Santarém, Viseu, Batalha, Évora, Alenquer, Arouca, Paredes, São João da Pesqueira, Ponte de Lima, Caldas da Rainha, Sta. Maria da Feira, Alpedrinha, Cascais, Barcelos, Vimioso, A Ver-o-Mar), juntam-se algumas dezenas de homens e mulheres com idades próximas, muitos já na “casa” dos 70… outros mais novos… descendentes, filhos e netos, num ritual ansiado.

O ambiente é de alegre convívio, entre a cerimoniosa presença das esposas rejuvenescidas e a camaradagem barulhenta dos homens.

As mulheres relembram, mais um ano que passou, os novos descendentes… perguntam pela família e pelas novidades.

Os homens juntam-se em grupos, riem, falam alto e distribuem abraços com palmadas nas costas.

Quem está de fora, nem sempre consegue compreender este tipo de concentração de pessoas. Umas de roupas domingueiras e outras informais, como num dia normal.

Apesar da nossa dispersão geográfica, entre Norte, Centro e Sul de Portugal, que separa as nossas vidas... a camaradagem dos tempos de guerra constitui o motivo para que uma vez por ano haja uma viagem no país e no tempo e com horas de recordações, que pertencem a todos com a comemoração na continuidade entre o passado e o presente.

Depois dos fartos aperitivos… sem mesas reservadas… há quem guarde o lugar para a esposa e descendentes e na mesa ao lado, para os amigos convidados. Há grupos no feminino, as “militaras” que se tornaram amigas ao longo dos anos e se juntam entre si.

O almoço convívio, pelo ambiente e pela variedade da comida, parece um casamento… mas é um encontro de camaradas, ex-combatentes na guerra de guerrilha em África, que se juntam e se revêm durante uma tarde à volta do prazer da mesa.

São os encontros anuais, da Companhia 3485 do Batalhão 3870, que acontecem com regularidade desde o nosso regresso de Angola, em Junho de 1974.

O Batalhão 3870 foi mobilizado em Julho de 1971. Constituído por uma Companhia de Comando e Serviços e quatro Companhias Operacionais, num total de 1100 (?) homens. No entanto, foi só em Novembro e no Campo Militar de Santa Margarida que se juntaram os restantes militares das especialidades para o embarque em Fevereiro de 1972.

Todos os anos há um bolo com o brasão de armas da Companhia e um brinde com espumante para todos, os que estão e os que não podem estar presentes. É também neste momento que se escolhe o responsável pela organização do próximo encontro / convívio, a quem cabe, sem oposição, toda a logística, na escolha da região, do restaurante, da ementa e do envio dos convites.

Estes (re) encontros nasceram da teimosia e determinação de um pequeno grupo de camaradas que decidiram ter chegado o momento de reunir a Companhia 3485. Com a lista dos nomes à data da incorporação, iniciou-se, entre telefonemas, viagens a aldeias e conversas com vizinhos, o processo de localização dos antigos companheiros de armas. Alguns, nunca foram encontrados.

A primeira vez que revi ex-companheiros, olhei, olhei… para muitos foram precisas pistas… não conheces o Freitas? És tu castiço! São tantos anos… no entanto, outros não tinham mudado nada, não havia engano possível.

Apesar das roupas civis, de agora, que podem denunciar a proveniência de cada um… os uniformes, de então, que distinguiam apenas a hierarquia militar, constituíam um nivelador social sem precedentes nas nossas vidas, que perdura até aos dias de hoje.

De um momento para o outro, o salão converte-se num espaço de festa… dançam e cantam os temas. Os que fumam aproveitam para vir até à rua ou simplesmente falar das suas vidas, do tempo que passou, de camaradas falecidos e dos que ainda são procurados, na tentativa de os juntar. Mas há também quem relembre velhas histórias de Angola… as que merecem ser lembradas, num tom geral de boa disposição.

É desta forma que as memórias da guerra no Leste ou na Lunda, entre 1972 e 1974, se reconstituem no presente com os episódios vividos há meio século, entre os valores da camaradagem e os acasos, de sorte ou azar.

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Ao longo do ano… noutros convívios, que também nos levam a viajar e não só no tempo… desfrutamos em proximidade e durante mais tempo a amizade, que perdura no inédito e num prazer diferente por Espanha, França, Marrocos, Açores, Checoslováquia, Eslováquia, Hungria, Bulgária, Roménia... ou a conviver e a partilhar os momentos... num fim de semana de passeios (Coimbra, Serra da Estrela, Óbidos, Foz Coa, Lisboa, Viana do Castelo, Castelo de Vide, Évora, Chaves), celebrando as castanhas e o São Martinho.

O guião dos convívios repete-se ano após ano sem grandes surpresas. Antes de começar, a festa já acontece nos pontos de encontro, antes de um almoço anual, num aeroporto ou num hotel para um fim-de-semana de passeios.

Há de tudo, num ruidoso aquecimento… conversas, alegria, anedotas, cantorias, os beijinhos do Chumbinho e a poesia do “Manel” Esteves, onde é declamada aquela solidão do destacamento militar no meio de nada, só selva Africana… hoje há a comemoração partilhada do passado com a “outra família”, que a guerra construiu numa situação de violência, doenças e dependência mútua.

Naquele tempo não se fazia a guerra sozinho… é essa a imagem que eu ainda tenho e que não se apaga… a proximidade dos outros.

Hoje estou a escrever, porque um de vós estava perto de mim.

Sem passarmos a linha, que separa o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido… quando nos juntamos, o tempo da guerrilha renova-se… era o isolamento, a tensão em terra hostil e as aventuras num mundo diferente, que se descobria.

Aqui e ali, vai-se ouvindo: RECORDAS-TE?

DE LUANDA… uma cidade alegre, elegante, ao mesmo tempo antiga e moderna. Bebia-se uma cerveja e vinha logo um pires de camarão! Quando vinham canecas, era uma barrigada de marisco. Os arredores, com os musseques muito pobres e cheios de barracas de madeira e de chapas e ruas com esgotos a céu aberto. Um mundo incrível.

E… a “avenida” da prostituição. Porta sim, porta não, ao postigo ou sentadas à entrada a oferecerem-se, como mercadoria. Nunca pensei que fosse possível existir uma “coisa” assim.

DAQUELE HORIZONTE… mata, só mata, tudo primitivo e praticamente sem presença humana… os rios e as suas enormes chanas, as aldeias a horas de distância e a população a partilhar só o que a natureza lhes dava.

DAQUELA CULTURA… gostava do ambiente entre palhotas, as fogueiras, o pirão e o cheiro à mandioca… perdia-me a ver aqueles rituais fascinantes, mas também os havia de horror… tão diferente da nossa terra.

DAS PICADAS… para mim, eram uma tortura. A tensão era enorme, estava sempre à espera de levar um tiro nos cornos ou, então, de não chegar a ouvir o estoiro da mina debaixo da Berliet.

DO DESTACAMENTO DO CANAGE… impossível esquecer. Quando não estávamos de serviço, a fazer segurança ou em proteção, andávamos de camisola ou em tronco nu a banhos no rio… e a comida… um sabor! Apetecia mesmo!

Apesar do inimigo estar ali connosco, aquilo era um paraíso… foram os melhores dias… não havia formaturas e quando havia descanso ninguém inventava qualquer coisa para fazer. Ajudou a matar as saudades de casa e da família.

… DOS GE’s… só me lembro, que havia qualquer coisa estranha neles. Passavam semanas na mata, desenfiados, e ninguém sabia por onde andavam. Sempre achei, que a qualquer momento podia haver a possibilidade de inversão das lealdades. Afinal, era a pátria deles!

De quem não gostava mesmo, era dos Cipaios e até das Milícias, também. Um dia vi-os, junto à casa do Chefe de Posto, em círculo, a espancarem uma mulher, que não conseguia fugir. Naquele momento senti revolta e vergonha. Hoje compreendo melhor a situação das mentalidades de “pretos e brancos”, à época.

NO QUARTEL… o isolamento era enorme. Depois de meses seguidos sem sair, a ouvir as mesmas conversas e a ver as mesmas caras, a impaciência instalava-se… a mesma rotina, mês após mês. Era muito difícil… para não entrar em loucura, muitas vezes às sete da tarde já estava na cama.

DA CHEGADA DO CORREIO… a chegada do correio era a bênção da família. Depois íamos para a caserna ler, ler e reler num grande silêncio… mas também havia, os que não se interessavam. Um dia o Axx vira-se para um conterrâneo… a minha mãe diz aqui no aerograma, que a tua namorada anda com o filho da Carolina… apesar do silêncio, veio logo outro, em cima: Ai a grande vaca, pôs-te os cornos… risos, gargalhadas e uma festa do “carago”!

A tropa acabou por ser boa, abriu-me os olhos. Quando cheguei a Angola, eu era um inocente.

DOS BATUQUES… eram uma maravilha de sons e de danças. Assisti às batucadas quando um morre. Aquilo era uma festa, comiam, bebiam e dançavam toda a noite. Eram velhos, novos e até mulheres com miúdos às costas.

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O que acabei de escrever em plena Pandemia (Janeiro de 2021) são apenas alguns fragmentos de um passado distante, escutado nos convívios e que cada um dos intervenientes ainda recorda com um olhar retrospetivo e reconstruido.

Não quis ser exaustivo, mas as memórias e os episódios repetem-se nos convívios, ano após ano… por vezes, apenas na troca de versões do mesmo acontecimento.

Apesar de tudo, os temas são consensuais.

A maioria das recordações, estão quase sempre concentradas na descoberta da cidade de Luanda, na vida das aldeias (quimbos), na entrega das roupas à lavadeira e nos namoros (muitos), nas viagens em picada, nos banhos de rio, nas noites de batuque e na nossa vida no meio do “inimigo, com duas faces”. Só depois, vem a saudade, a tensão, o medo das minas e das emboscadas, a rotina no quartel, as aventuras no desconhecido e os horizontes de mata.

Este texto com a disciplina do tempo passado e presente, foi o último de seis temas.

Tal como os anteriores, é mais um testemunho para a História, mas também um sinal à sociedade política, que ainda se envergonha daqueles que um dia chamou à pressa para combater.

Foi desta forma, que decidi reviver o passado, entre sentimentos de revolta e saudade, mas também de repúdio, pela juventude perdida numa guerra inútil, pelo patético discurso ouvido no Alto Chicapa, em finais de 1973 e pelas decisões desumanas, desastrosas e precipitadas, na quebra unilateral de acordos, que potenciaram ataques indiscriminados pela UNITA e MPLA às NT (nossas tropas) e abriram o caminho à Guerra Civil em Angola.

Para terminar, resta-me mencionar a minha eterna gratidão para com os meus camaradas de armas. Com eles, contínuo em divida pelos dois anos e meio de convivência, pela amizade desinteressada e, sobretudo, pela solidariedade nos momentos improváveis e difíceis.

Sem aquela partilha de esforços e de sacrifício, todos os obstáculos seriam intransponíveis.

 

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram,

mas na intensidade com que acontecem. Por isso,

existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis

e pessoas incomparáveis".

Fernando Pessoa

 

Aquele abraço, do tamanho do Chicapa.

Carlos Alberto Santos

 
 

 

 
 
 
 
 

Alto Chicapa (parte 3), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 13.11.20

Colonizadores Especiais ou Ditadura

Depois de Salazar, Marcelo ainda insistia na mensagem de que eramos um povo de brandos costumes e de colonizadores especiais… mas um Imperio, que durou séculos, não se constrói com brandura!

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Foi com violência… até nos anos 70, na nossa companhia, a 3485, e em redor dela, em espaços civis, a violência psicológica e física, eram sempre a primeira opção, de tal forma, que ainda hoje a sociedade prefere o medo a falar e ignora o óbvio dos traumas do passado ou trazidos da guerra… compreendido só por alguns ou pelos camaradas, que estiveram lá.

Apesar do nosso colonialismo retrógrado, de anos, e da guerrilha dos movimentos de libertação, a soldo de outros interesses, americanos, russos e chineses, Angola estava diferente e mostrava-se ao mundo, com uma nova geração de jovens e de quadros técnicos, saídos das escolas e das universidades locais, aptos para trabalhar na saúde pública ou privada, indústrias, comercio, agricultura, pescas e minérios… enfim quase tudo o que uma nação pode ambicionar.

As deslocações, que realizei entre Luanda, Nova Lisboa, Malange, Silva Porto, Henrique de Carvalho e Sá da Bandeira, deixaram-me boas recordações.

Naquelas cidades, a classe média e média alta de angolanos de todas as origens já eram os funcionários maioritários nas empresas, no comércio e nas funções de estado. Ouvi muitas vezes tratar por africanos tanto pretos como brancos… evidentemente, nós os europeus, não pertencíamos a essa elite.

A própria guerra, onde fui envolvido, e o dinheiro que chegava, não foram elementos de destruição… foram mais-valias de progresso e construção, que incrementaram uma nova qualidade de vida. Os próprios militares milicianos, retirados das faculdades ou dos locais de trabalho em Portugal também contribuíram para a grande transformação de mentalidades.

A evolução do nosso quartel:

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Muito longe das cidades ou das vilas, no interior de Angola, onde estávamos, a realidade era outra. A felicidade não se encontrava nos bens materiais, mas sim dentro das pessoas.

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Diziam: - Os antepassados governam, as divindades ajudam, as magias completam e as superstições previnem. Nzambi (Deus) está no Céu, criou o mundo e os homens e entregou o seu governo aos espíritos, a quem cabe o maior papel… mas isto não queria dizer, que estivéssemos no paraíso.

Hoje, a postura na governação contínua inqualificável:

- Cheguei como tropa a uma colónia portuguesa (Angola), governada por ditadores;

- Como militar miliciano, deixei Angola num processo de bastidores e de interesses internacionais, que transformaram os Movimentos de Libertação em Movimentos de Destruição; e

- Como acompanho a evolução do país… lastimo a governação entre ditaduras sucessivas e entre aduladores dependentes das vaidades e dos luxos desmedidos, num retrocesso ao estilo de vida das antigas elites coloniais.

Paludismo / Malária

Apesar de a UNITA estar a poucos quilómetros do nosso quartel e com familiares nas sanzalas próximas, como António Cavula e Muaxiteca, o ambiente com as populações continuava em confiança e em descontração mútua… até nos momentos em que se ia dar uns mergulhos no rio, muitas vezes, lado a lado, com mulheres nativas a lavar roupa.

Depois de uma dessas idas ao rio, à noite comecei a sentir-me debilitado e sem forças para me movimentar. Durante uma semana o paludismo tomou conta de mim numa cama. Foram momentos difíceis. As alucinações misturavam-se com o frio e as febres altas transformaram-me num farrapo humano… ausentei-me completamente de tudo, durante dias.

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O enfermeiro Carvalho e, mais tarde, o Dr. Vilaverde devolveram-me a vontade de viver com a ajuda de algumas injeções, uns fortificantes e nos 14 dias finais com comprimidos de Resoquina, que evitavam o regresso das febres da malária.

Adultério

Ainda em recuperação, fui aconselhado a dar uns pequenos passeios pelo quartel.

Depois do jantar atravessei-me, sem querer, no caminho do camarada Cxx, um transmontano de gema, como se costuma dizer.

- Então Cxx… que grande “cadela”!

- Foda-se, só me faltava este… não quero conversa!

- Por ali… toma um banho!

- Tire a mão, sei o caminho… cabrão… és igual aos outros!

- Vai dormir!

- Não quero conversas com a “chicalhada”… só falo com a minha mãe! Quem vem lá... lááá?

- Afastei-me… deixei-o à vontade e a cambalear.

Continuou de mal com a vida e com todos… até com o quico.

Passado uns dias cheguei à fala com ele… um rapaz educado.

- Foi um momento de revolta, que me deixou mais fraco.

Dei-lhe alguma razão… percebeu a parte negativa e a conversa fluiu.

- Vim do Cambatxilonda. O homem é duro… se um tipo escorrega, leva logo uma “piçada”.

- Sabe! Andava de pau feito, até doía… deram-me alguma porra! Gostava de saber, quem foi o filho da puta.

- À noite, fui à aldeia. A determinada altura fiquei a olhar. Era ela… não era a primeira vez, que estávamos juntos… o meu olhar estava perdido e o pau já arqueava… imaginei-a à minha espera… beleza, não te assustes!

- Já percebi! Assustou-se… deu merda!

- Sim, deu merda, mas não se assustou… foi até de manhã. Era uma doida a foder, de lado. Só que… no fim… quis mais dinheiro e comida.

- Acabei castigado.

- Agora, que está tudo mais calmo, digo-te que foi bom vires por uns tempos para o quartel… um tipo morto a caminho do puto de pau feito, não era boa ideia.

- Alferes… foooda-se… era uma vergonha (tinhamos 20 /24 anos)!

À época, o adultério, em certas condições, até era bem tolerado, porque era, muitas vezes, o próprio marido que contribuía para a mulher se tornar adúltera, não só por algum abandono declarado mas também pelo proveito material que podia tirar disso.

Havia casos, em que homens idosos, rodeados por várias mulheres e mais duas ou três muito novas, longe de ser a figura do marido ultrajado, aproveitava-se da situação para aumentar os seus proveitos, naturalmente, oriundo, delas seduzirem ou deixarem-se seduzir.

A sedução na mulher, quando gostava, era natural e desejo, frequente e banalizada, mas não se pense que a moralidade estava ausente, pelo contrário haviam muitos valores de vida, impossíveis de ser avaliados à luz do pensamento e da mentalidade europeia.

Na região do Alto Chicapa, para além de um ou outro caso sazonal vindo de fora, não havia comércio sexual, como em Luanda ou em Henrique de Carvalho, havia sim a tal sedução ou uma troca material pela utilização do corpo da mulher e até do homem.

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Mudança no comando da Zona Militar Leste

A vida mantinha-se calma no quartel e a na região à nossa responsabilidade. Continuávamos sem vestígios de movimentos hostis graças ao equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.

No entanto, a mudança do comando da Z.M.L. (Zona Militar Leste) motivou uma visita ao nosso aquartelamento por altas patentes militares e pelo General Hipólito, o novo responsável pela Z.M.L.

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Os preparativos foram levados ao extremo e de tal forma que até os soldados passaram a usar lençóis na cama… apenas um… para fazerem a cama à espanhola… só para General ver.

De acordo com as normas militares, reuniram na “parada” os presentes e outras individualidades vindas da cidade do Luso. Depois de prestadas as honras, o General Abel Barbosa Hipólito tomou a palavra… entre opções inconclusivas, acabou por deixar a ideia de que seria reavaliado o equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.

Por meias palavras, deixou algumas ideias para a resolução do conflito à imagem da sua visão militarista posta em prática, com resultados positivos, em Moçambique. Entendia, que todos os “terroristas” deviam ser tratados da mesma maneira… pactuar com o inimigo era contrário aos princípios da honra e da ética militar.

Nos momentos seguintes, de convívio informal, perguntei a alguns camaradas, o que pensavam desta encenação de meias palavras. Foi só conversa. Valeu o rancho melhorado.

Depois de outros discursos, provavelmente com as mesmas ideias ouvidas no Alto Chicapa, as consequências não se fizeram esperar… o MPLA e a FNLA começaram a aparecer junto à fronteira com um elevado potencial de fogo em ações traiçoeiras e muito violentas… por exemplo, no itinerário Luvuei / Lutembo, uma emboscada, causou 5 mortos e 32 feridos.

Três crianças num quartel

Apesar de tudo, no mês de Agosto de 1973 a população do quartel transformou-se para melhor com a presença das esposas do Capitão Perdigão, do Alferes Coelho, da minha e ainda de três crianças, o João Miguel, a Catarina e o João Carlos.

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Foram dias felizes, que se escoaram ligeiros como é próprio dos bons momentos e das coisas boas. A minha mulher trazia na bagagem o que me faltava, o carinho, o amor, a alegria, e a ternura.

Viver no Alto Chicapa com a família, significou viver em território africano a um ritmo calmo, onde há sempre muito para ver e fazer. A magia de África, que se fazia sentir em cada momento, levava-nos a realizar alguns passeios numa natureza diferente e debaixo de um céu em azul intenso com tonalidades violeta, típico das altitudes (estávamos a 1320 metros acima do nível do mar).

A minha vida também animou, noutra dimensão, com a presença do meu filho. Gostava de o ver a correr despreocupado por todo o lado com um ar doce e atrevido. Caía, levantava-se, sem ajudas, e raramente chorava. Os soldados chamavam-lhe “O Fufuta”, nome de um guerrilheiro.

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O Destacamento

António Cavula, era uma aldeia, a doze quilómetros do Alto Chicapa.

O mais recente destacamento da nossa companhia foi ali construído, um pouco antes da entrada Oeste da povoação e junto da picada.

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A população, influenciada pelo soba e pelas decisões do adivinhador, nunca se mostrou amistosa ou agradada com a nossa presença. Sabia-se, que tinham ligações à FNLA entre Os Mais Velhos e outros à UNITA.

O professor apesar de ser um simpatizante do MPLA, foi mais racional e estratega durante a nossa estadia. Aceitava a nossa presença, interagia e ansiava pelas benfeitorias, que nos propusemos realizar.

Durante meses, construíram-se casas, fizeram-se obras de manutenção e recuperou-se o abastecimento de água.

Contra a vontade do adivinho ou “tchimbanda”, o enfermeiro Luís e o Dr. Vilaverde juntaram-se à população para ajudarem no controlo de doenças e de algumas mazelas existentes.

A presença do Capelão Bernardo, também não foi bem aceite.

Meses depois, a nossa missão estava terminada. Os resultados estavam à vista, casas novas entre outras melhoradas, caminhos restaurados, o depósito de água a funcionar e a escola com as novas infraestruturas.

A operação Castor, com a elite dos militares portugueses, atuou sob a ordem “Rapidamente e em força em cima de Savimbi”. Foi devastadora. Com bombas de napalm e de fosforo queimaram as sementeiras e destruíram com químicos os terrenos usados para cultivo. Os acampamentos da UNITA, que eram conhecidos e consentidos pelas autoridades portuguesas, foram atacados e arrasados em conjunto com muitas mortes e guerrilheiros em fuga… mas o principal objetivo era a aniquilação da Direção.

Savimbi, avisado por um madeireiro das intenções do novo comando da ZML, acabou por escapar para a Zâmbia.

Em simultâneo com o desenrolar da Operação Castor, o “meu cuidador” teve a arte e o engenho de me alertar de imediato. A retaliação iria surgir de várias formas na nossa área e a qualquer momento, com ataques á tropa portuguesa e, na região, às aldeias hostis à UNITA. Acrescentou: - A norte, descarregaram um barco com muito material bélico, incluindo tanques de combate… presume-se, que o material veio da União Soviética e que foi entregue ao MPLA.

Como era expetável, entre Dezembro de 1973 e Janeiro de 1974, a UNITA, sem aviso prévio, primeiro ataca violentamente as tropas portuguesas, provocando muitas mortes, e de seguida as populações que eram mais hostis, como por exemplo, a destruição da localidade de Sarieza no Bié e o corte de 36 cabeças, de homens, mulheres e crianças, na população de Sautar a cerca de 60 quilómetros do Alto Chicapa.

Corria o mês de Janeiro de 1974… quinta-feira… um dia que não consigo precisar… recebo, em mão, uma mensagem escrita num pedaço de cartão “o destacamento precisa de mais tropa, olhar a zona sul durante a noite, precisamos de falar”.

No próprio dia, ainda consegui falar com o primo do professor (tinha as funções de monitor na escola).

Quando cheguei, saudou-me meio atrapalhado. Pediu desculpa pelo saco na entrada. Estou de saída para o Cucumbi.

-Já? Hoje?

- Parto antes do dia nascer. Vou estar uns dias com a minha família.

- Estou autorizado a fechar a escola… foi o Chefe do Posto.

- Pareces abatido!

- Estou assustado! É melhor falarmos longe daqui… preferia no acesso da água ao depósito... importa-se, que vá à frente?

Ao longo da conduta de água, na zona desabitada… perguntou: Entendeu a mensagem?

- Sim, talvez… pelo menos vou aumentar a segurança a sul… se puderes acrescentar mais alguma informação, “fico em dívida…”!

- Esta semana, chegaram dois (?) guerrilheiros da UNITA para viver com a família. Estão desarmados, mas não acredite. Enterraram as armas à entrada da aldeia.

- Apesar de andarem durante todo o dia por fora, estão bem informados sobre os vossos movimentos na aldeia e no acampamento.

- Consta que pertencem a um grupo de mais sete guerrilheiros, que ainda estão a caminho de António Cavula, também para visitar familiares.

- É normal… haver tantos guerrilheiros com familiares na aldeia?

- Conta-me o que sabes!

- Não posso falar! Se o soba desconfia, amanhã estou morto.

- Os Mais Velhos não aprovaram as visitas.

- Olha! Como eu não consigo falar com os Mais Velhos, vamos combinar… hoje saio um pouco mais cedo para o quartel. Apanho-te na picada, longe do soba e da aldeia. Depois, vou deixar-te a meio caminho do Cucumbi, mas pelo caminho vais fazer o favor de me contar tudo o que sabes e eu prometo nunca falar no teu nome… concordas?

- Então? Como vai ser?

- Apareço na picada, onde há mais areia.

Quando subiu para o Unimog… de imediato agradeci a atitude e afirmei: - Nunca vou falar no teu nome.

- A mensagem não é minha…

- Eu sei quem enviou, não te preocupes… fala!

- Só sei o que está ser preparado com a condescendência do soba e sob o pretexto de uma visita a familiares… mas fala-se, que vão atacar, de surpresa, as vossas instalações, talvez no sábado, dia da Lua Escura, antes do dia nascer e enquanto estiverem a dormir. Se as sentinelas estiverem desatentas, vai haver mortos e feridos. A seguir às flagelações o grupo disperso junta-se na picada para montar uma emboscada.

- Agora, que já sabe tudo, o que sei, espero, que cumpra a sua palavra… quero ficar no cruzamento das picadas.

- Ficas longe do Cucumbi e é quase noite! Não é perigoso?

- Assim é melhor, ninguém nos vê. Não se preocupe…tenho autorização para circular, família no caminho e uma arma para me defender.

- Obrigado… és um homem… grande!

Tive uma noite em claro, cheia de pensamentos e de emoções, mesmo depois da conversa com o Furriel Marques, que me garantiu duas viaturas, uma Berliet e um Unimog, para o nosso regresso durante a manhã… à tarde o Unimog era preciso para uma recolha na mata.

No destacamento, sem que alguém se apercebesse, falei com os furriéis Santos, Gomes e Canossa sobre o regresso ao quartel.

Abordei superficialmente:

- A situação dos guerrilheiros, que vinham a caminho para visitar familiares;

- As benfeitorias terminadas há semanas.

Desconhecemos a verdadeira intenção dos visitantes e como não temos nada de nosso aqui, a prudência diz-me que é o momento certo para partirmos… antes que alguém se aleije ou fique entregue à sua sorte.

Portanto, vamos agir com naturalidade… deixar, que todos terminem o pequeno-almoço e, como é o costume, entregar aos miúdos o café com leite e o pão para levarem para a cubata.

Quando o destacamento estiver livre de estranhos falem com os vossos. Digam-lhes apenas, que vamos regressar ao quartel e que ninguém está autorizado a sair daqui.

Quando os soldados souberam que íamos regressar, a azáfama instalou-se… antes das nove horas os pertences individuais já estavam nos sacos e os apetrechos empilhados na Berliet.

- Alferes, como é agora

- Diz, Vieira!

- Tenho tudo arrumado… posso ir despedir-me da namorada? Sou rápido!

- É preciso calma! Oiçam novamente… ninguém sai daqui para despedidas na aldeia ou noutro lugar qualquer!

- Mas alferes ….

- É uma ordem, depois falamos no quartel!

- Furriel! - Furriel Gomes, meta aí uma cunha.

- Parece-me, que não ouviste bem!

- Não olhes assim para mim… não me metes medo… se alguém sai, vai tudo “cu’caralho”… perceberam!?

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Chegámos ao quartel antes da hora de almoço, depois de uma viagem rápida e silenciosa.

Operação Perseguição

À noite, quando o comandante de companhia chegou de uma reunião com a OPVDCA / DGS no Cacolo, transmiti-lhe o que estava a acontecer na aldeia e a flagelação que, eventualmente, estaria preparada para o destacamento. Ficou muito desorientado com as informações e furioso pela nossa saída, que, diga-se, já estava combinada para aquele fim-de-semana.

Quando a vida não corria de feição ao capitão Perdigão, o indesejável companheiro de muitos, destilava ódio, castigava e, mais tarde ou mais cedo, o seu caráter ainda desencadeava uma vingança.

Apesar de estarmos a viver na mesma casa, nessa noite ouvi os maiores desaforos e a segunda ameaça de cinco dias de prisão, que voltei a recusar, por achar, que era um erro. Desta vez ultrapassou todos os limites na presença das senhoras e do meu filho… hoje, nada disto tem importância na minha vida, mas foi uma experiencia única e humilhante para um jovem com a personalidade em formação.

Por impulso, no dia seguinte, ao nascer do dia, o desorientado capitão dirigiu-se a António Cavula.

A imprudência, que substituiu o planeamento e a estratégia, podia ter sido fatal. Arrastou, consigo, alguns camaradas da sua confiança e outros… mais candidatos a heróis.

Com sorte, não houve a tal emboscada na picada, mas acabaram por ser recebidos a rajadas de kalashnikov.

Felizmente, regressaram ao quartel sem qualquer ferimento, mas muito “desasados”.

Salvaguardando a sua ambição de uma carreira militar e a patente… se ao respeito, entre camaradas, e à confiança, com quem se convivia diariamente, lhe juntasse o planeamento, a estratégia, a experiencia de quem andava semanalmente na mata e uma equipa musculada, aqueles indivíduos teriam sido apanhados à mão, naquele sábado.

O meu avô costumava dizer: Se quiseres conhecer alguém, dá-lhe poder.

Acabei por ser o “bombo” daquela frustração… e o motivo da inevitável vingança com mais um costumeiro castigo.

Mandou-me, escolher 10 homens, metade do grupo de combate e sair Domingo de manhã para a área de flagelação, durante quatro dias.

Parti com 10 voluntários, os do costume, pessoal fixe, e um cão. Fomos, sem euforias, para uma zona de mata, que eu conhecia muito bem e onde me sentia confortável… gostava daquela liberdade. Sem grande pressão procurámos vestígios, que confirmassem a retirada ou a presença dos guerrilheiros na região… não foi preciso procurar muito.

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Mesmo assim, como o contacto com os guerrilheiros poderia acontecer em qualquer momento, ajustei às circunstâncias o que aprendi com o grupo catanguês… principalmente a disciplina e o silêncio.

Também, para ajudar à nossa segurança, embora contra a vontade do camarada Hamilton, mandei silenciar, até ao último dia, a ligações via rádio.

No meu relatório, da operação perseguição, escrevi, que só havia, para assinalar, um rasto de sete indivíduos ao longo da picada, na direção da povoação de Cazoa. As marcas do calçado diverso e de botas eram evidentes.

Acrescentei:

- O ambiente na aldeia está calmo apesar de haver uma divisão de opiniões sobre os acontecimentos.

- Na versão da população, que gostava da nossa presença, os sete guerrilheiros, que chegaram no sábado vieram para fazer (maka) confusão. Os dois elementos desarmados, que já estavam na aldeia, há alguns dias, fugiram na direção do Dala quando ouviram os primeiros tiros.

- Na versão do soba, os guerrilheiros tinham vindo para visitar os familiares e ver as melhorias na sanzala.

- Numa terceira versão, a da população mais próxima dos Mais Velhos, dizem que estava tudo combinado para acontecer sangue no destacamento. Os chefes estavam instalados na aldeia há algum tempo. Do grupo, de nove guerrilheiros da UNITA, só cinco avançaram contra os do quartel. Depois dos tiros, dispersaram… são todos de povoações próximas do Dala, Ponte do Cassai e Cazoa.

Ao fim de tantos anos, ainda não consigo esquecer estes acontecimentos e a atitude miserável do soba. Depois de tantos sacrifícios para deixarmos a aldeia restaurada, com bons acessos, água potável e uma escola nova… merecíamos melhor.

Apesar de tudo, a todos devo muito… para o professor e o primo, não me canso de enviar a minha eterna gratidão.

A minha família regressa a Portugal

Depois das mudanças na ZML, dos últimos acontecimentos no destacamento e do ressurgir da guerrilha na região às mãos de uma UNITA transformada, a minha família regressa a Portugal.

As retaliações do movimento de Savimbi, que reuniu todo o seu arsenal militar contra posições portuguesas, eram indiscriminadamente mortíferas, como por exemplo o ataque em Dueja e Kuete, onde matam 19 militares, queimam sete viaturas, recolhem material de guerra e de comunicação… um dos mais violentos ataques de que não havia memória.

Quis o destino, que o avião, que nos levaria do Alto Chicapa a Henrique de Carvalho, fosse abatido antes de chegar… logo após a saída da localidade do Lumege.

Sem transporte, para chegarmos ao voo de ligação entre Henrique de Carvalho e Luanda, valeu-nos a amabilidade do Sr. Capela, o comerciante local, que nos facilitou o aluguer do seu idoso Land-Rover de caixa aberta e a disponibilidade do comandante Perdigão para emprestar um bidão com 100 litros de gasolina.

Tinha informações e provas de que a guerra andava por ali, cada vez mais ativa e com grupos de guerrilheiros nas proximidades, prontos a matar.

Achei, mesmo assim, que alguma informalidade na partida e muita concentração no percurso seriam suficientes.

Aos camaradas Alberto, Teixeira e Canelas, que se prontificaram a ajudar-me durante a viagem, solicitei-lhes o máximo sigilo… até com os amigos.

Saímos, ao anoitecer. Embora armados até aos dentes, o nervoso esteve sempre presente num ambiente noturno e misterioso com neblinas muito baixas, que pareciam encomendadas.

O nevoeiro denso acabou por ser a nossa maior dificuldade nas picadas de terra batida…quando se adivinhava um buraco já lá estava outro.

Naquela época, sem luz nas localidades, sem mapas, placas de referência, marcações e um nevoeiro intenso, o instinto era o nosso GPS. Como a estrada de alcatrão tardava, parei para reconhecer a zona. Quando saí daquela viatura, estremeci e não queria acreditar… tinha acabado de atravessar a estrada de alcatrão… na minha frente havia um imenso abismo.

Ultrapassadas as primeiras complicações, a bênção do nevoeiro, que camuflou todo o nosso trajeto, em tempos de guerra, foi a ajuda inesperada para um regresso seguro, da minha mulher e do meu filho, a Lisboa.

Fim da Comissão

Quando se entrou no período próximo do fim da comissão o pessoal começou a acreditar, que ia chegar inteiro ao “Puto”.

Começava a procura de recordações… uns panos estampados (quitenges), imagens esculpidas em madeira, garrafas de whisky, tabaco… e o grande frenesim dos caixotes, para o Silva, o nosso carpinteiro, os fazer.

Porem, o final não ia ser fácil. As últimas informações do meu “cuidador”, em Março (1974), já deixavam entender um provável adiamento da nossa rendição devido à instabilidade política em Portugal, confirmada mais tarde com a revolução de 25 de Abril e pela mudança de regime na governação portuguesa.

Num sítio longe dos centros de decisão e com comunicações limitadas, obrigou muitos de nós a repensarem o futuro das suas vidas.

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Em fins de Maio, chegou o dia, o grande dia da rendição e de rumar até Luanda.

Parecia um sonho tornado realidade… estávamos vivos, mais velhos e cansados.

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No meu imaginário já revia Luanda… contava com um pequeno e merecido descanso… a tal cidade que ainda fervia de vida, com as suas praias, os restaurantes da ilha, os cinemas ao ar livre, como o Miramar, e um ambiente frenético, onde todos se alheavam completamente, que a umas centenas de quilómetros havia ainda uma luta armada e que estavam a germinar os primeiros focos de uma guerra civil.

Sá da Bandeira

Com alguma surpresa, a minha “missão” e a do furriel Coimbra, em Angola, ainda não estava terminada.

Fomos eleitos para percorrer em velhas camionetas de carga uns adicionais e longos 2.000 quilómetros (ir e vir) e entregar no Regimento de Infantaria, em Sá da Bandeira, os soldados do contingente de Angola.

Sá da Bandeira era uma cidade situada num planalto, que me impressionou muito. A zona antiga, que visitei à noite, estendia-se desde o Palácio do Governador e do Banco de Angola até ao quartel, passando pela câmara municipal, a igreja da Sé, o parque infantil (com um zoo em miniatura) e um jardim, com lagos onde ao anoitecer se passeava para lá e para cá.

Havia muita população de brancos por toda a cidade.

Uma cidade quase perfeita para a época com um Liceu Nacional, o de Diogo Cão, a Escola Industrial e Comercial, o Grande Hotel da Huíla ao estilo colonial e um Hospital.

O parque da Senhora do Monte, com jardins, um lago, que era mais uma piscina ou praia, um casino, onde assisti a um espetáculo, numa noite de riso, com o madeirense Max e a sua Mula da Cooperativa. Na encosta vizinha, lá estava a Capelinha da Senhora do Monte.

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O Daniel Velosa, um camarada de armas do contingente angolano, a residir na cidade, foi o meu guia, o melhor de sempre... num cansado VW carocha alugado "voámos" por tudo o que era aldeias, arredores e por rios sem pontes... a Humpata, a fenda da Tundavala, com 700 metros de fundura, a Serra da Leba a 1800 metros acima do nível do mar, com a sua estrada em serpente...

Cheira bem, cheira a Lisboa

Com a nossa chegada de Sá da Bandeira, a Companhia ficou completa e reunida no Campo Militar do Grafanil em Luanda.

No dia 05 de Junho meteram-nos num avião, fretado à TAP.

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Regressámos a Lisboa.

O comandante com outros camaradas, ainda ficaram mais uns dias para tratar da chamada liquidatária da Companhia e do fecho das contas nos Serviços de Contabilidade e Administração.

Durante a viagem, meditei sobre os dois anos e meio de vida militar, da estranha guerra de guerrilhas em Angola, o tempo perdido, os locais por onde andei e a liberdade, que sentia nas matas.

Naquele avião, terminava uma guerra e começava outra… para outros ritmos e outros hábitos… procurar trabalho, cumprir horários e ganhar a minha independência.

Ficaram as memórias dos momentos de felicidade a contrastarem com as passagens negras onde, mesmo assim, houve uma saudável, sincera e desinteressada colaboração… momentos, que enriqueceram as nossas vidas e nos deram mais força para continuar.

Ao sobrevoar Portugal, ainda me arrepiei quando se cantou até chegarmos à pista de aterragem, em Figo Maduro / Lisboa, a canção "Cheira bem, cheira a Lisboa...".

Quando saí do quartel RALIS, tinha terminado a minha odisseia.

Já à civil, tudo parecia ainda um sonho… estar em Lisboa, o cheiro a mar, o brilho do sol, o Verão, os jornais, os cinemas…

Passados estes anos, ainda tenho consciência, que, quando regressei, não era o mesmo… a vida deu-me luta, obrigou-me a desafios e aprendi a saber o que não quero.

Restam 150 euros do Império… e não só

Termino estes quatro capítulos entre sentimentos de saudade e revolta, contrastando com a minha vontade de voltar atrás, viajar no tempo, numa espécie de regresso ao passado, para poder abraçar os que comigo partilharam os momentos em que estivemos envolvidos, maioritariamente como voluntários à força.

Falem, contem ou escrevam sobre o ocorrido, porque só assim se mantêm vivas as memórias de um tempo que não pode ser ocultado nem, sobretudo, ser negada, a parte dos melhores anos da nossa juventude.

Estarei a ser injusto? Afinal, ainda me restam do Império 150 euros anuais, antes de impostos!

Fico com a convicção de que me esforcei por este objetivo a que me propus, reconhecendo que ainda fica muito por dizer. Nada se esgotou aqui, muitas páginas minhas e de outros camaradas ficarão por escrever.

Merecem uma referência particular os amigos, os verdadeiros e os leais camaradas, e a desinteressada amizade, que ainda hoje nos une e resiste com a mesma vivacidade ao tempo e à distância.

Numa Angola “profunda”, muito no interior, não esqueço aquele povo bondoso e arredado dos conflitos de interesses dos movimentos armados, homens, muitas mulheres e ainda mais crianças, que nos receberam tão bem.

Ainda há poucos meses, ao telefone, um leitor e amigo dos tempos do quartel em Chaves, mas de outra guerra, Moçambique, me dizia: Ainda recordo com admiração a minha lavadeira, que me acompanhou todo o tempo no mato e em duas regiões distintas… foi preciosa a cuidar e a defender, conheci a sua cultura e os seus costumes, como ninguém.

É verdade, África tem uma magia inexplicável… também sobre mim… foram os cheiros, os batuques, os sons (até o trabalhar do gerador à noite), a simplicidade do povo quioco, o soar do clarim do Virgílio, o barulho das hélices do avião, que trazia as notícias da família… que aos poucos se entranharam e me acompanham durante todos estes anos, gerando um sentimento único… saudade.

Sem querer esquecer ninguém, faço questão de recordar:

- O excesso de rigor a que estivemos sujeitos, com a desculpa da manutenção da disciplina… não era preciso tanto, não eramos um bando de anormais, nem uns fora‑da‑lei;

- As carecadas dos furriéis… a luta improvável;

- Quando libertei um camarada amarrado a um eucalipto e recebi de volta a primeira ameaça de 5 dias de prisão;

- O Alferes Coelho… sem emoções;

- O Primeiro-sargento Ledo Teixeira, uma agradável presença… lembrava-me o meu pai;

- Os “meus” Furriéis, o Alfredo Gomes, o José Canossa e o José Santos (o saudoso menino branco) … não podia ter tido melhor companhia;

- Os camaradas sinceros, do dia-a-dia, que nunca me abandonaram na mata e a quem nunca ouvi um não, o Nuno Pereira, o Hamilton Castro (transmissões), o José Sousa, o Luís Carvalho (enfermeiro), o José Costa, o Daniel Velosa, o Augusto Teixeira, o Fernando Freitas, o Fernando Conceição, o Mário Vieira, o António Alves, o António Alberto, o António Pinheiro, o José Quirino, o Ilídio Canela, o José Novo, o Cassiano Gonçalves e mais seis bons companheiros do contingente angolano, que omito os nomes, intencionalmente;

- Do meu cuidador, um beirão vaidoso, um bom amigo dos velhos tempos (falecido), que se despiu de preconceitos, na sua guerra de gabinete e de papéis, de quem eu beneficiei da sua confiança e da boa vontade, com ajudas e avisos;

- O Manuel Carvalho (enfermeiro) e a enfermaria, as paixões do meu cão Buda;

- As estafadas viaturas e os milagres que aconteciam na equipa do Furriel Marques… só aquele radiador reconstruido à mão, bastava para acreditar;

- O Furriel Victor, que, com muito pouco, fazia muito para o nosso bem-estar alimentar… aquele pão grande, que, quando sobrava, levava para a mata, ainda hoje lhe sinto o sabor… obrigado;

- A equipa de transmissões sempre atenta aos nossos movimentos no mato e o Furriel Chagas, aquele bom gigante cuja imagem de um não guerrilheiro não pretendo esquecer;

- O Alferes Boavida, um durão… a oferecer “tareias”, mas no fim até dava a camisa;

- O Alferes Monteiro, que nos intervalos da guerra era um trabalhador incansável nas obras… acabou incompreendido, desprezado e atirado para longe… ainda hoje desconheço o porquê de tanta intolerância; e

- Finalmente… todos… que souberam estar ou deixaram as suficientes boas recordações para, agora, passados tantos anos, lembrarmos a saudável, sincera e desinteressada colaboração vivida em momentos de precariedade e de amizade desinteressada.

A todos, a Nzambi e aos Espíritos da mata… devo muito!

Carlos Alberto Santos

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Alto Chicapa (parte 2), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 16.10.20

Férias no Puto

No início de 1973 fui de férias, da guerra até ao “puto” (Portugal), numa longa viagem de 40 dias, 4 dias em Henrique de Carvalho (2 à ida e 2 no regresso), 6 dias em Luanda (3 à ida e 3 no regresso) e 30 dias em Lisboa com a família.

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O descanso, os passeios… os dias de férias passaram rapidamente e muito mais depressa do que eu estava à espera. A vida civil deixou-me sem grande vontade de regressar, mas o dever, de um voluntário à força, chamava-me novamente para o interior de Angola.

A saborosa bica no “Xico Careca” (Pastelaria Restelo, se faz favor!), em breve, seria substituída por outra, que só por dificuldades da máquina, não seria tão boa, mas facilitaria a continuidade de um vício, que muitas vezes era complementado com uma aguardente 1920, em balão aquecido.

No meu regresso à guerra, o pequeno avião, que me transportava da cidade de Luanda para a cidade de Henrique de Carvalho (Saurimo), desviou para a cidade de Silva Porto (Kuito) devido a uma tempestade tropical. Pernoitei no pequeno Hotel Girão. Da cidade… só me lembro o largo junto ao hotel e de uma casa de família, a que chamavam de “Meiaonça”.

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Ao jantar, o empregado, que apoiava o pequeno serviço às mesas, um pouco “abichanado” mas muito simpático, acercou-se de mim e junto ao ouvido, confidenciou:

- Hoje, é a noite das mulheres de fogo! São 50 do “puto”… no melhor sítio e com a minha companhia!

- Obrigado. Amanhã tenho que sair cedo e também já vi disso nos bares em Luanda.

- Não! Não! Esta é uma festa anual, da boa, é dança de preto, mesmo! É seguro!

Pela educação do moço, acabei por aceitar… eramos jovens. Quando chegámos, depois de um pequeno trajeto a pé, reinava um intrigante silêncio, entrecortado a espaços por vários e misteriosos ruídos, sem origem definida, parecendo os fantasmas de um povo residente na selva.

De um lado, havia tocadores de gomas e tchinguvos (tambores), ágeis e fortes nas suas pancadas, e do outro lado, vários tocadores de quissange (instrumento de palhetas) com sons e melodias doces. Ao centro, alguns homens seminus com vozes roucas, em coro forte e ritmado, eram acompanhados por um coro invisível de vozes femininas.

Mais longe, outro grupo de mulheres responde entoando sons parecidos.

Momentaneamente, os tambores começam a tocar muito fortes, as vozes dos homens tornam-se mais claras e precisas e, ao fundo, o outro coro de vozes femininas torna-se empolgante e arrepiante.

Repentinamente, surgem chamas e faúlhas de todos os lados, iluminando a noite, e as mulheres até aqui escondidas, aparecem sem panos, envoltas nos pulsos, nos tornozelos e na cintura com um material herbáceo a arder e a produzir uma chama azulada.

As atitudes, o fogo, os bailados, os sons dos chocalhos e das argolas, dos tchinguvos e dos quissange, formavam uma beleza rítmica impressionante, ao ponto de até o ar parecer fosforescente e fantasmagórico.

As mulheres de fogo, cada vez mais próximas de nós, insistiam nos movimentos sensuais e num bailado a simular o orgasmo, como estivessem a ser possuídas por uma divindade da dança glorificando a nudez sem complexos e a criação da vida.

Num cenário natural, nunca pensei viver momentos de arte, com origens tão primitivas.

De madrugada, noutro avião, maior, rumámos para Henrique de Carvalho, sem sobressaltos.

Como os anteriores, este texto continua a abordar a singeleza da vida, sem esquecer que fui um dos muitos militares milicianos que passaram por Angola sem sonhos de carreira e que a tais memórias me devo dedicar liberto de rancores e com um olhar calmo e enternecido.

As reflexões, deixo-as a outros, mais doutos.

Dizem, que em Portugal, por cada ex-combatente, que morre, uma biblioteca arde.

Cheguei dias depois ao Alto Chicapa por volta da hora do almoço, aproveitando o favor (pago) do desvio de um avião monomotor.

Mal tive tempo para me apresentar ao comando… a sala de refeições, que eu bem conhecia, esperava por mim para o almoço na companhia de personagens da OPVDCA / DGS… as comodidades eram uma mais-valia, que nos faziam sentir bem às refeições e, também naquele complemento, no bar, com café e bebidas… num espaço muito agradável e bem cuidado pelo camarada Sousa.

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Foi sem grandes motivos de alegria, que passei ou passámos o primeiro ano de tropa naquele mundo cheio de mistérios, com outros valores muito primitivos, numa região isolada e muito pobre onde se travava uma luta constante com a natureza, para a sobrevivência. Num raio de 200 km, existiriam, talvez, meia dúzia de europeus civis.

Durante aqueles meses, apercebi-me que o povo sofria em silêncio… com os fantasmas dos feitiços, com a prepotência do chefe de posto e dos seus cipaios e com a ignorância dos colonos e dos militares a cilindrarem tradições e a deslocarem estrategicamente as aldeias.

Temporal

À noite, no meu quarto, enquanto lia A Selva, de Ferreira de Castro, a luz do gerador desapareceu na sequência de um enorme relâmpago.

A seguir, um violento temporal desabou mesmo por cima de nós, numa infernal barulheira sobre as chapas de zinco. Foram horas e horas de chuva e trovoada. Em qualquer cidade seria uma catástrofe.

A meio da manhã, recebemos a informação de que a região continuaria sob o violento temporal.

A área do aquartelamento transformou-se num enorme lamaçal, as picadas próximas ficaram cortadas em vários sítios, as pontes destruídas pela força da água e a pista do avião cheia de sulcos. Um dilúvio, que nos deixou ainda mais pobres e sem o abastecimento semanal dos alimentos frescos.

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Ao fim de duas semanas os géneros começavam a ser escassos e a ridícula verba disponibilizada pelo estado português não dava para compras extra.

Tínhamos entrado no ano de 1973, com a época das chuvas a causar muitos aborrecimentos. Era o mau estado das picadas, a dificuldade em circular com as viaturas e a falta do abastecimento e do correio. Aliás, o responsável pela gestão dos alimentos já vinha há algum tempo alertando para o facto de estarmos com poucos géneros, com défice orçamental, e com uma verba que não dava para compras extra. As refeições dividiam-se entre feijão guisado, esparguete com água e sal, e atum ou cavalas de lata.

O furriel Vítor, o vago mestre, foi perentório:

- Aqui não se fazem milagres!

- Estou farto de pedir, mas não mandam o que necessitamos!

- Não há viaturas que venham ao Alto Chicapa e o avião não pode aterrar na nossa pista!

- Como o tédio parece abundar e as noites custam a passar, proponho uma caçada na zona para reabastecer as arcas frigoríficas e modificar as magras dietas.

Caça

Éramos quatro num Unimogue a gasolina e quatro G3, uma caixa de ferramentas, uma espingarda mauser, do tempo da segunda guerra mundial, e um farolim. A natureza era generosa… conseguimos a carne que o exército nos deveria fornecer.

Regressámos por volta das duas da madrugada com duas peças de caça, um animal de bom porte, um burro do mato com cerca de 120 quilos, e uma gazela com cerca de 20 quilos.

Nunca gostei de caçadas, mas neste caso, a necessidade falava mais alto e em consciência, foi mesmo apenas o necessário.

Quando chegámos ao quartel, os mais curiosos interromperam o sono para verem o resultado.

No entanto, ainda nos atormentava a falta do correio, que, em condições de bom tempo, a pouco menos de uma hora de voo, vinha uma vez por semana, pela parte da manhã, no pequeno avião desde a base aérea em Henrique de Carvalho.

Apesar dos estragos, e da urgência nas reparações das picadas, nas pontes e na pista do avião, as operações e as patrulhas não podiam parar.

Sorte e Contrariedades

Sem mortes, feridos graves ou acidentados nas nossas 79 operações, ficou para recordar a sorte, que nos acompanhou, e algumas contrariedades, que não foram mais do que isso… soubemos ser disciplinados e prudentes. A todos devo muito.

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A jiboia

Quando iam abastecer os cantis de água, ficaram estáticos a meio do percurso… frente a frente a um monstro de cabeça levantado à altura de um homem.

O Cassiano, era o último do grupo. Voltou atrás a pedir ajuda.

Ficámos à prova, numa situação inédita e que teve que ser tratada com pinças.

Com algum sangue frio, abati o animal com dois tiros na cabeça, um ao lado do outro.

Mais calmos, e passada a surpresa, confrontámo-nos com uma jibóia, com mais de seis metros de comprimento e palmo e meio de largura, um bicho lindo e respeitável, daqueles que só se vêm nos filmes.

Sem o sabermos, a sorte esteve do nosso lado… só não fomos atacados ou mordidos devido ao facto de a cobra estar com uma cabra inteira dentro da barriga, com cornos e tudo.

O Buda ataca

O ataque do meu cão Buda sobre três nativos, que tentavam passar dissimulados.

Estávamos muito afastados do nosso quartel, junto à nascente do rio Chiumbe, numa zona de guerra onde era proibida a circulação de civis.

Num abrir e fechar de olhos, o cão sai disparado sobre os três indivíduos, que ficaram sem reação. Hoje já não me lembro como é que tudo acabou, mas recordo-me… conforme o cão avançava ouviam-se vários gritos, Buda euá, Buda euá, Buda euá … (Buda vai-te embora).

Percebi, que o cão foi reconhecido… não percebi a ausência de tiros e a nossa passividade.

Pensando melhor… o Buda era um cão conhecido e temido pelos nativos… foi bom para nós e para eles, que acabaram por fugir.

Formigas térmitas

O ataque das formigas térmitas, que durante uma noite comeram silenciosamente parte dos panos de tenda, calças, o fundo dos sacos mochila e até os elásticos das cuecas.

Formigas quissonde

Sem sabermos, paramos num território de formigas quissonde… o corpo fino e avermelhado, uma cabeça relativamente grande e duas fortes mandíbulas que se cravam facilmente na nossa pele… lentamente começaram a andar pelo interior das nossas calças e botas… de uma forma telecomandada somos todos mordidos violentamente e quase em simultâneo como uma descarga elétrica.

A aflição instalou-se, foi necessário tirar as roupas para aliviar as dolorosas ferroadas e retirar as formigas, uma a uma… mesmo só com a cabeça e as mandibulas agarradas ao nosso corpo. Pelo que aconteceu, o ser humano ou outros animais em dificuldades, seriam devorados vivos.

A fuga dos carregadores

Num trajeto no rio Chiume apercebi-me que os carregadores andavam nervosos. Faziam de tudo para não continuar, diziam-se doentes, sem forças, e que estavam em lugares de feitiço. Durante a noite, fugiram.

Acabou por ficar o carregador principal, o Sá Moço e mesmo assim com muitas dores de dentes. Devido às fugas, não acreditámos nas suas queixas… para se livrar daquele tormento meteu na boca uma rudimentar faca e arrancou, assim a sangue frio e pela raiz, um grande dente cariado.

Perdidos na mata

Numa das primeiras saídas para a mata, sem saber bem como, em determinado momento deixei de ter locais para referência, o mapa não conseguia ajudar, os carregadores não se entendiam, e não havia meio de se encontrar um trilho ou um simples regato para orientação.

À nossa volta, havia um denso e alto arvoredo e um terreno arenoso sem vegetação. Nunca consegui encontrar uma explicação para todo aquele desatino.

Ao quinto dia já andávamos a comer ração de combate a meias e algumas folhas.

Ao sexto dia, sem comida e com alguns raspanetes do capitão, via rádio, lá conseguimos chegar a um pequeno curso de água que nos orientou e nos permitiu após uma longa caminhada chegar à picada de Luma-Cassai e enviar as coordenadas certas para a recolha do grupo.

Decidiram a recolha para um dia depois (o poder instalado, mandava), deixaram de responder aos nossos contatos via rádio (dividir para reinar) e quando entrámos esfomeados no quartel recebi o reconforto, mais filho da puta, da minha vida: Daqui a três dias volta para a mata!

Andar de roda

O dia, em que estivemos a passar no mesmo sítio, uma vez, duas vezes, e à terceira… ouve-se a voz do furriel Gomes… porra, já passei por aqui!

O Buda perdeu-se

Entre o rio Cuilo e o Luchico, o meu cão Buda desapareceu. Como nunca tinha acontecido, tememos o pior… comido por uma onça, mordido por uma cobra ou preso numa armadilha.

Fizemos de tudo para o encontrar.

Em desespero, retardámos os nossos movimentos, deixámos vários pedaços de roupa e outros materiais, que ele bem conhecia, como por exemplo o líquido fortificante dos enfermeiros esfregado nas folhas ao longo do trajeto.

Íamos para a segunda noite de angústia… o Teixeira, que estava numa sentinela mais avançada deu um sinal de alerta e de perigo. Estavam a rastejar na nossa direção. Movimentamo-nos em auto defesa, mas ato contínuo o Cabo Novo grita: - Calma pessoal… é o Buda, é o Buda. Anda Buda! Logo que ouviu o seu nome levantou-se, avançou e imediatamente demonstrou todo o seu contentamento, entre lambidelas. Parecia muito cansado e magro, mas a sua felicidade parecia maior do que a nossa.

As raízes do Sá Moço

Durante uma pausa, encontrei o Sá Moço a contemplar o horizonte, perdido no tempo e a mascar raízes (já sabíamos, que era um consumidor frequente de afrodisíacos naturais).

- É bom?

- Sim! É remédio para dar força! As mulheres esperam-me!

- As quatro?

- Sim, todas! As mulheres são ciumentas e não se pode adiar a visita conjugal. Pedem para ser contempladas, de igual modo.

Quando o confrontei pelo excesso de afrodisíacos, respondeu-me:

- Tudo o que sirva para estimular o pénis (lukutu) e excitar a vagina (sundji) é bom, porque um homem ou uma mulher sem desejo, são cadáveres vivos.

Matacanha

A meio da manhã, no bar do quartel, entre uma cerveja e uma sempre saborosa sandes de chouriço, comecei a sentir algum desconforto no meu pé direito. Mais tarde, na enfermaria, fiquei a saber que estava com duas matacanhas, uma no calcanhar, quase do tamanho de uma ervilha, e outra muito mais pequena debaixo da unha do dedo grande.

A matacanha é uma espécie de pulga penetrante.

Naquela época, os nativos eram os únicos e os verdadeiros médicos especialistas no tratamento destes parasitas. Um pouco a medo, aceitei a ajuda de um indivíduo da sanzala, que confirmou: - São dois ninhos.

Sujeitei-me a uma pequena “intervenção cirúrgica” com um rudimentar pau muito bem afiado na ponta e desinfetado ao fogo. Com tempo e muito cuidado, tirou uns sacos sem os romper. Continham, o respetivo animal e umas centenas de ovos. No final, encheu os buracos com petróleo e cinza retirada de uma fogueira.

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Sem sangrar, ficaram apenas dois orifícios no pé.

Mais tarde, com a ajuda do enfermeiro Luís, do Dr. Vila Verde e com uns comprimidos (LM), o meu pé recuperou completamente.

Passeio a Henrique de Carvalho

Fui em “passeio” a Henrique de Carvalho. O pouco tempo passado na civilização, de uma pequena cidade, não compensou o desconforto da viagem e um trajeto tão longo.

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No entanto, aproveitei o momento de ócio para rever dois velhos camaradas de Mafra, os Alferes Duro e Saldanha, colocados na sede do batalhão.

Convidaram-me para a cervejaria Bonina(?), junto ao cinema Chicapa(?). Passámos em amena cavaqueira junto ao edifício do governador, aos jardins, à igreja e numa rua ladeada por estabelecimentos comerciais junto à avenida principal.

O petisco era excelente, mas a conversa foi o melhor. Comemos um bife de asas (a sair do prato), muito bem temperado com gindungo e um molho com óleo de palma e leite de coco, acompanhado com muitas batatas fritas, um pão grande acabado de fazer e umas garrafas de vinho verde Gatão (muitas).

- Carlos, então?

- Está tudo ótimo… é de chorar por mais… não há disto no Alto Chicapa.

- A sobremesa… vai ser ali, mais à frente, na pastelaria (?)… onde o chouriço, até vira paio.

Ficámos instalados junto à vitrina dos bolos… sem qualquer pedido feito, fomos logo atendidos, por uma das filhas do patrão... três cafés e duas aguardentes velha antiqua, em balão aquecido.

Eram duas irmãs, com roupas justas a realçar ainda mais os seus corpos, mas não precisavam… eram as rainhas da casa e as delícias dos clientes… vindos do mato tinham tratamento especial… e como elas sabiam ser cúmplices do acréscimo de tesão, que nos percorria o corpo.

Acabei a noite no cinema com outros camaradas. Cheguei atrasado… mesmo no momento em que as luzes se apagavam. Só deu para ver uma sala quase repleta de militares.

A sessão, começou com um noticiário / documentário sobre o império e o mundo e alguns desenhos animados, que ajudaram à boa disposição.

Depois do intervalo, começou o filme, Um Dólar Furado, uma história de cowboys, que agradou a todos e foi certamente o tema das conversas nos dias seguintes. No final, houve uma salva de palmas.

Ainda fomos beber umas cucas... mas com os vapores de Baco já trocavam tudo… até tinham ouvido, à saída do cinema, duas, das muitas pulgas existentes na sala, a decidirem: - Vamos a pé ou num tropa.

Malta! Não podem esquecer… hoje é dia d’ânus… a Teresinha arrumadora está com o período …, ih! ih! ih!

Agora, era o tipo do peido... saíste antes de tempo! Já não vês o filme ….

Irra… não há outra conversa... vai outra rodada?

Abandonei o grupo, para aproveitar algumas horas de sono, antes da partida para o Alto Chicapa. Esperava-me muito asfalto e o grande desconforto da picada.

A nossa coluna era composta por duas viaturas, um Unimogue a gasolina, onde ia o condutor, o capitão, o correio e alguns géneros alimentares, e uma Berliet com um condutor, eu, dois furriéis, três soldados, muitos sacos de cimento e alguns cartões com ovos.

No regresso a casa, o trajeto parecia ser melhor e até o condutor estava com o pé mais pesado… era o desejo de chegar ainda com dia.

Na Vila do Cacolo, antes de entrarmos na picada, petiscámos na Tasca do Mais-Velho. Comi um arroz malandro de bacalhau, único e delicioso, com cerveja gelada. Dei pela ausência do capitão… já sabiam, era assim mesmo nesta altura do percurso, com ou sem petisco, não esperava e continuava para o quartel.

Praticamente no final da nossa viagem, um pouco antes da descida para a sanzala do Cambatchilonda, numa zona reta onde a picada plana convidava para mais velocidade, um troço de areias e lama obrigou à troca para uma mudança mais segura. Sem explicação a viatura vira para o lado e sai da picada. Valeu a travagem e a destreza do condutor. Uma das rodas ficou bloqueada. Não houve estragos na carroceria, nem ferimentos… incluindo os ovos.

Ficou para a história uma reparação fora da picada e uma longa noite passada com os mecânicos Ferreiro, Barradas e Morgado, que tudo fizeram para resolver a avaria com um recuperado material, muito gasto, e não esqueço a ajuda providencial de uma árvore, no lugar certo, para estaca do guincho.

Torneio de Futebol

Com os equipamentos, que tinha trazido de Lisboa, camisola laranja às riscas e calção branco, inaugurámos o campeonato interno de futebol de onze. O nosso primeiro jogo, foi contra a CCS (o pessoal do arame farpado).

Os escorpiões do 1º grupo de combate, estiveram insuperáveis num grande jogo com certeiros remates do Canossa, Gomes, Miguel e Neto, que nos permitiram alcançar uma estrondosa vitória por seis bolas a duas.

O João, era o nosso guarda-redes das grandes defesas, no entanto a esta distância já não consigo reproduzir qualquer momento dos jogos… exceto quando o nosso homem, o das grandes defesas, abandonava o jogo para ir à casa de banho.

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A circuncisão dos rapazes e a iniciação das raparigas

Como, em 1973, o ambiente entre as NT (nossas tropas) e as populações ainda era de mútua confiança, fui convidado a participar na festa da circuncisão dos rapazes, e na iniciação das raparigas.

A circuncisão dos rapazes

A circuncisão dos rapazes, acontecia aos catorze anos na “mukanda”, onde lhes eram, também, ministrados todos os ensinamentos.

Durante alguns dias haverá uma enorme atividade que gira em redor do rapaz, dos pais, do operador, do ajudante e do professor. No final do serviço, há sempre um pagamento obrigatório, geralmente feito em animais domésticos, bebidas, ou outros bens.

Tudo acontece num cercado redondo com uma única entrada que fica virada para a aldeia, a “tchifwa”. Lá dentro, existe uma pequena palhota destinada à mulher mais idosa da aldeia (uma mulher pura sem relações sexuais) a quem compete a preparação das refeições para que os circuncisados não emagreçam, não adoeçam ou morram.

Na véspera da entrada dos rapazes, logo que anoitece, todos os casais da aldeia e outros estranhos convidados vão para dentro do cercado onde acendem varias fogueiras, junto das quais se sentam, dançam, gozam a vida, comem e bebem.

Quando se ouvem os sons do batuque, começa a dança da circuncisão, a “tchisela”, a noite propiciatória e licenciosa, como diziam. Era o início de todas as liberdades, onde todas as brincadeiras são permitidas. Nesta noite, não há casais, não há adultério, apenas homens e mulheres. É a noite dos amantes, em que a todos é permitido divertirem-se com a sua mulher ou com outras. Para que não haja dúvidas, o chefe da aldeia informa todos… ninguém pode provocar desordens ou estragar a alegria… se não concordarem saiam. As relações sexuais consentidas, procuradas ou toleradas, nesta noite, são todas praticadas fora do cercado, e só, até ao nascer do dia, quando acaba a dança da circuncisão.

Logo que nasce o sol, o chefe da aldeia, acompanhado de todos, rezam aos espíritos dos seus antepassados para que tudo corra bem e livre os circuncisados de toda e qualquer doença, feitiço ou mal.

Depois, os operadores, os seus ajudantes e o “mukiche” (mascarado), abrem outra saída no cercado, no lado oposto à única existente, por onde vão sair a fim de procederem ao corte dos prepúcios. Com os braços prendem-nos, e a cabeça é virada para o lado para não verem a operação, que é feita sem anestesia ou outros cuidados anti-inflamatórios. O “mukiche” guarda o local da operação, para evitar que profanem o recinto da circuncisão.

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Depois de operados, ficam em fila virados para nascente completamente nus com o pénis a sangrar.

Para acalmar a agitação, o medo e a dor, colocam na cabeça argila branca bem molhada e para parar o sangue, põem sobre o golpe, um pouco de pó proveniente de plantas.

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Por fim, os iniciados dormem três noites ao ar livre junto de uma fogueira, e depois dentro de umas palhotas, que construíram. Assistem ao nascer do Sol e pedem para que lhes dê fecundidade e potência sexual.

A partir da data da circuncisão, passam a ser considerados homens e adquirem o nome definitivo.

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Iniciação das raparigas

Ao contrário do que aconteceu com os rapazes, em que tive muita liberdade para participar, a iniciação das raparigas, depois de me informarem o que costumava acontecer, disseram-me que apenas estava convidado para a parte final.

Contam: Tudo acontece quando a adolescente tem a primeira menstruação e foge para o mato longe da vista dos homens. Uma das mulheres adultas da aldeia, a que chamavam de mestra, procura a jovem e leva-a para junto de uma árvore e aí mantêm-na acocorada. Dá-lhe umas raízes a comer e leva-a tapada para a casa das menstruadas, fora da aldeia. A iniciação dura uma semana, na companhia da mestra e de uma virgem, com quem dorme. A mestra ensina e exemplificava o verdadeiro comportamento nas relações sexuais, a prática dos movimentos da vagina e as técnicas para a obtenção do máximo prazer. Cada lição de aprendizagem só termina quando a aluna atinge o orgasmo. No corpo da iniciada, também são feitos alguns golpes transversais, acima da púbis, nas costas, cintura e rins. Estas linhas, têm finalidades eróticas, excitantes e indicam onde o homem deve colocar a mão esquerda durante o ato sexual.

A parte visível, só acontece quando termina o fluxo menstrual. A iniciada é lavada no rio e pintada de branco. É levada para a casa da família ou do marido, onde lhe dão o nome definitivo. Nesta altura passa a dormir com o marido, mas só na terceira noite lhes é permitido ter relações sexuais.

Independentemente da anterior vida da jovem, com ou sem relações sexuais, o que contava para a mulher era o dia da menstruação e efetivamente o inicio da sua verdadeira vida de casada.

Visita à aldeia de António Cavula

Enquanto se preparavam as infraestruturas para a instalação do novo destacamento em António Cavula, fiz uma visita à aldeia. A meu pedido, esta foi previamente preparada pelo professor. Fui conhecer em pormenor os limites da aldeia, as entradas, o soba, alguns dos mais velhos e o adivinho ou “tchimbanda”.

Foi uma visita estranha num ambiente aparentemente sem população à vista e cheio de ambiguidades… o soba e o filho, pareciam duas marionetas dos seus familiares, sempre indecisos entre os, que ainda estavam na aldeia e os, que já andavam na guerrilha.

No conselho dos mais velhos, foi tudo mais fácil, mesmo sem falarem, demonstraram por gestos a sua aceitação para a instalação do destacamento militar.

Quando chegámos perto do adivinho os meus olhos faiscaram nele… talvez devido às diferenças culturais ou à minha formação.

Apesar de tudo, quis saber mais e vê-lo em ação, quando fosse possível.

O momento aconteceu no tratamento de um homem doente. Começou o tratamento invocando os ídolos e os espíritos dos antepassados. No fim informou: Está enfeitiçado, deve fazer rezas, pagar com uma cabra e tomar o remédio (?), que encontra na mata.cestoadvinhação

Contaram-me:

- Quando a doença era mais pequena, o “roubo” era maior. Chamava-lhe uma “mahamba”. Neste caso o tratamento era feito por exorcismo com batuque e cânticos onde o “tchimbanda” e o assistente hipnotizam o doente. Mais tarde, indicam-lhe o pagamento que é necessário para acalmar os espíritos.

- Por exemplo, quando alguém tinha dores nos braços, nas pernas ou reumático, dizia que eram provocadas pelos espíritos dos brancos… só passa após o pagamento para contato com o espírito.

A minha conclusão foi simples… quem mandava na aldeia era o adivinho ou “tchimbanda”. O povo tinha muito medo dele. Nesta aldeia, o único que conheci, era considerado como um deus. Dizia, que conhecia todos os segredos da natureza e da vida do sobrenatural a quem os espíritos obedeciam.

Os meus olhos faiscaram porque me apercebi do negócio… este adivinho e o assistente eram pessoas sem escrúpulos, a quem toda a gente era obrigada a venerar, pagar e acreditar… de tal forma, que nenhuma decisão era tomada por alguém sem que fosse consultado o adivinhador… só ele podia resolver depois de entrar em contato com os espíritos dos antepassados.

Carlos Alberto Santos

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Alto Chicapa (parte 1), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 04.10.20

Ordem de rotação

O último trimestre de 1972 trouxe-nos uma inesperada notícia. A ordem de rotação do comando do Batalhão 3870 para a cidade de Henrique de Carvalho (Saurimo), na Lunda.

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Na sequência desta reorganização militar, em Angola, a rendição das quatro Companhias foi o movimento seguinte.

Nunca houve uma explicação para esta mudança tão repentina… do Moxico, no Leste, para o Alto Chicapa, na Lunda Sul.

Fomos dos últimos a partir, porque ainda nos restavam algumas missões… a defesa e a segurança do aquartelamento na Vila do Lucusse e o acompanhamento dos trabalhos na região de Lungué-Bungo, junto ao destacamento dos Fuzileiros Especiais nº 6… onde, uma vez por semana, via helicóptero, havia sardinhas para assar, marisco e muitas grades de cerveja.

Longe de tudo

Sem conseguir precisar, mesmo nos meus apontamentos, o verdadeiro momento do Adeus a Sacassange… fomos em velhas viaturas civis, como gado vacum entre taipais, pelo itinerário Luso, Luma-Cassai, Alto Chicapa, para terras de quiocos (tutchokwe) e minungos (tuminungu) de dialeto tchokwe.

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Foi uma longa jornada de 200 km com uma pequena paragem para almoço no quartel de Luma Cassai.

Messe de Sacassange

Continuámos em picadas com muita areia, abandonadas ao tempo, ao capim e à invasão da densa vegetação. Atravessámos pontes em elevado estado de degradação e percorremos terras e lugares desabitados… perdidos no mapa… restou a esperança, a interajuda e a nossa camaradagem.

Fomos render a Companhia 2697 do Batalhão 2911, no Alto Chicapa… novamente sozinhos entre nativos e agora mais longe de tudo, a mais de 8 horas de viagem nas nossas viaturas militares, condicionados pelas avarias e chuvas… 240 km separavam-nos da pequena cidade de Henrique de Carvalho e do comando do Batalhão.

Embora mais experientes, estávamos numa terra hostil… entre muitos residentes simpatizantes ou dissidentes da FNLA.

No entanto, tínhamos a nosso favor: - O enfraquecimento geral da guerrilha, a fuga dos seus líderes, as desavenças internas e as diferenças ideológicas entre os movimentos de libertação.

Posto administrativo do Alto Chicapa

Naquele Alto Chicapa, à época (1972), além de nós, militares, maioritariamente milicianos, havia um administrador de posto, ainda muito jovem “de borbulhas na cara”, os Cipaios, a chamada polícia da Administração de Posto, recrutados entre a população local, os funcionários da OPDVCA / DGS (Pide), que raramente se viam e ainda dois comerciantes, um o Sr. Capela… inesquecível… o frango picante e a grade de cervejas ao lado, no banco.

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Em torno deste núcleo social havia uma pequena aldeia junto ao posto. No lado oposto era a aldeia do grupo 305 e 306 de GES (Grupo Especial) e da família… foi a tentativa falhada de criar a tropa profissional local. Não tinham preparação militar, estavam mal equipados e até usavam camuflados rotos ou outra roupa diversa. Ocasionalmente, também apareciam na aldeia alguns “guerrilheiros” de um grupo de flechas (militares, que atuavam sob o comando da Pide / DGS).

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O posto administrativo estava estrategicamente situado entre as aldeias… Samunge, Samuchima, Cambatxilonda, António Cavula, Nandonge, Muaxiteca, Muachiava, Muambumba e Samuange.

Finalmente os Sobas… personagens nem sempre credíveis à época, independentemente do partido que tomavam… eram os intermediários entre os seus na sanzala e a administração do posto.

A nossa vida no Alto Chicapa melhorou substancialmente, com mais meios e melhores instalações, apesar do enorme isolamento. Estávamos, a 1240 metros acima do nível do mar, rodeados por muito verde, bastante água e com amplos horizontes. Os grupos de combate, tinham a missão de executar alguns trabalhos de manutenção e de melhoramentos no quartel, obras em infraestruturas de apoio às populações, patrulhas e operações regulares alternadas de 5 a 6 dias na mata ou a permanência num destacamento.

Um pequeno avião mono motor abastecia-nos semanalmente de correio e de alimentos, os chamados frescos. Os restantes géneros chegavam com outra cadência numa viatura civil ou nas nossas viaturas militares.

Naquela região com clima de planalto, o anoitecer acontecia prematuro e rápido e em simultâneo com o despertar de um mundo incrível de vida animal numa sinfonia, com pronuncio de segurança, debaixo de um vasto manto escuro manchado de estrelas... de longe, chegavam os mais variados ruídos da selva.

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Sempre que podia, caminhava à noite entre estes momentos, que me proporcionavam prazer e equilíbrio… numa terapia imperdível, que juntava aos ensinamentos da guerrilha… nunca passar, duas vezes, à mesma hora, no mesmo local.

Duas portas de armas

O aquartelamento era funcional, com duas portas de armas, uma virada a leste e a outra a oeste num amplo espaço, geralmente muito limpo.

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Do lado esquerdo, havia uma casa com os quartos dos dois sargentos do quadro, o bar, um acanhado posto de transmissões, um forno de padeiro, a casa com os quartos dos oficiais, a casa das refeições dos graduados, uma cozinha rudimentar a precisar de grandes melhorias, o refeitório dos soldados, que merecia ter mais conforto do que apenas os toscos bancos / mesa e as gordurosas chapas de zinco a servir de teto, o depósito dos géneros alimentares com frigoríficos a funcionar a petróleo, uma cantina, uma caserna pré-fabricada, dormitório dos soldados, uma casa coberta de colmo que servia para trabalhos diversos, um gerador de eletricidade, a oficina auto e o parque das viaturas, um paiol carregado de munições e explosivos… de má memória para os camaradas que lá estiveram presos… perigoso pela irresponsabilidade na decisão de usar este local para castigo… os depósitos de gasolina para os helicópteros, um posto de enfermagem, sempre muito movimentado e um posto de vigia, bem lá no alto.

No lado direito, havia um outro posto de vigia de amplos horizontes, diametralmente oposto ao primeiro, a secretaria, um pré-fabricado, dormitório dos furriéis, outro pré-fabricado, dormitório de soldados e as casas de banho.

Para além destes equipamentos, ainda tínhamos uma pista, em terra batida, para pequenos aviões, um campo de futebol, um campo de voleibol, uma plantação de abacaxis e, um pouco mais tarde, uma piscina.

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Fora do quartel havia pormenores a lembrar a época colonial dos anos 30 / 50, como a antiga casa do administrador de posto, uma construção com planta quadrada e uma boa área coberta, que a protegia das fortes chuvadas ou proporcionava um bom local de permanência, nas horas de calor. Nas traseiras havia um grande cercado com duas frondosas mangueiras.

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Naquela época, em pleno interior de África, sem estradas ou outros meios de comunicação, o local era um oásis de luxo, que muito poucos tiveram oportunidade de usufruir.

A paz inesperada

Apesar de a região ser muito diferente da anterior, continuámos numa paz inesperada, devida ao trabalho desenvolvido, no segundo trimestre de 1972, pela operação Rojão IH e pelo êxito do agrupamento de Comandos, Raio (companhias 31, 33 e 37), na destruição dos movimentos de libertação. A FNLA depois de muito castigada enfrentou uma amotinação na base de Kinkuso e uma dura intervenção das tropas do Zaire, o MPLA, que também não foi poupado nos confrontos, envolveu-se em revoltas internas e a UNITA, mantida fora das hostilidades, pelo pacto de não-agressão, que lhe foi oferecido com a garantia (cínica) do controlo do Leste de Angola.

A desorganização dos movimentos de libertação agravou-se, ainda mais, devido às divergências entre os seus líderes.

Apesar de tudo, as nossas operações de patrulha e de reconhecimento continuaram com a mesma seriedade e cadência de 5 ou 6 dias / grupo de combate.

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Nos dias que antecediam uma qualquer operação, tinha por hábito reler os manuscritos do meu “cuidador”, ler a documentação oficial, que só raras vezes estava disponível e estudar o itinerário numa carta topográfica.

Na normal atividade de reconhecimento de zonas remotas na mata, desta vez, foram programados seis dias para a operação “Pato 7212”.

Foi-me proposto:

- Patrulhamento ofensivo, de identificação, deteção ou divulgação de grupos IN e destruição dos seus meios de vida.

- Largada na picada, Alto Chicapa / Luma-Cassai, junto ao rio Cassai.

- Recolha na picada, Alto Chicapa / Cuango, junto ao rio Cuango.

- Reconhecimento da margem esquerda do rio Cassai até à sua nascente e margem direita do rio Cuango desde a sua nascente até ao cruzamento com a picada (ponto de recolha).

- Permanência desde o dia 04 de Dezembro de 1972, antes do sol nascer, até ao dia 09.

- Grupo de combate com 17 homens, armas G3 e 100 munições / homem, granadas defensivas e três carregadores nativos da aldeia de Samuge.

- Um percurso de 46 quilómetros (ponto de largada / ponto de recolha).

Depois do jantar, fui questionado sobre a saída de seis dias para a região do rio Cassai… até um condutor abordou a deslocação: – Então alferes, amanhã lá vão dar um passeio até ao Cassai!

Falei com o comandante da companhia sobre a confidencialidade… garantiu-me: - Ninguém conhece a operação e o que dizem não me tira o sono… encolhi os ombros.

Durante a noite, choveu muito e trovejou violentamente.

No início da operação o cheiro a terra molhada era muito agradável… apesar de as chuvas continuarem, embora mais concentradas a norte da nossa área de ação.

Tal como previra, a zona por onde andámos, durante os seis dias… mata densa e locais de difícil acesso, junto aos rios Cassai e Cuango ficava na vizinhança do acantonamento da UNITA, que estava em pacto de não-agressão, e num corredor de passagem, para norte, do MPLA e FNLA… que nesta data já tinham regressado às suas bases na Zâmbia e no Zaire.

Dizia-me um soldado: - Alferes, a mata é muito agradável mas transmite medo. Não se houve nada à nossa passagem… um ronco de um animal ou o piar dos pássaros.

Depois de um breve reconhecimento do local de partida, seguimos em coluna por um antigo trilho, na direção do primeiro objetivo. À frente, ia o meu cão pastor alemão, muito desejado por todos, o Buda… o melhor pisteiro, num frenético vai e vem. Logo a seguir, com distâncias milimetricamente interiorizadas, ia o Freitas ou o Nuno, quase sempre os primeiros, seguidos por mim e pelo restante pessoal em secções sob o comando do respetivo furriel.

Os três carregadores, pagos pelo exército, eram espalhados aleatoriamente ao longo da coluna.

Numa área próxima da nascente do rio Cassai assinalada como de provável “contato iminente” saímos do trilho e passámos a caminhar em zonas de vegetação, com alguns movimentos de despiste de perseguições ou de emboscadas. Estávamos nas proximidades dos antigos acampamentos de 70 guerrilheiros do 3º batalhão da FNLA. Quando nos aproximámos destes locais, onde a probabilidade de contato era maior, os carregadores ficavam muito nervosos… os medrosos e os mais comprometidos com as causas… geralmente, fugiam durante a noite, como nos aconteceu, noutra operação, junto à nascente do rio Chiume.

Parámos a meio da tarde, para recuperar forças e para pernoitar, numa zona protegida, sem vestígios de presença humana e com uma linha de água (pequeno rio) por perto.

Apesar de tudo, chamei o carregador mais velho, o Sá Moço, para saber a sua opinião sobre o local.

Respondeu-me: - Não tem turra!

Este homem, saudoso das suas quatro mulheres, falava muito pouco na nossa língua… percebia quase tudo o que se dizia… mas, entre gestos e meias palavras até conseguia contar histórias inacreditáveis.

Era de confiança, muito respeitador e uma força da natureza, que admirei muito… um sobrevivente.

Com naturalidade, não precisava:

- Os fósforos ou o isqueiro eram substituídos por uns pauzinhos em fricção sobre alguns filamentos de raízes, como a estopa do linho;

- As cordas, encontrava-as em lianas e cascas de árvores;

- A tenda, criava-a com os materiais existentes no local;

- Os remédios, encontrava-os entre folhas, raízes e cascas de árvore;

- O sabão, substituía-o por folhas e uma espécie de argila;

- A escova de dentes, era um pequeno pau, filamentoso numa ponta e aguçado na outra (os dentes bem cuidados e brancos faziam inveja);

- A ração de combate, era o que havia na natureza, folhas, frutos, cogumelos, cágados, cobras, ratos, gafanhotos, formigas; e

- A orientação, conseguia-a com quase tudo, inclusive com a estrutura do solo ou com o voo de alguns pássaros.

Montámos um pequeno acampamento com os panos de tenda onde as sentinelas se revezavam por períodos curtos. Acordámos não fazer fogo e não falar ou chamar o Buda.

Depois do que passei numa operação com os catangueses… hoje estou convencido… se houvesse guerrilheiros nas redondezas, viriam para jantar… o cheiro a comida, das nossas latas da ração de combate, espalhou-se, certamente, por uma vasta área.

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De manhã, decidimos percorrer a margem direita em círculo e mudar para lá o acampamento. Ficámos mais um dia, mas muito atentos para algum movimento no anterior local. No final de um dia agitado e nervoso, antigo refúgio de muitos guerrilheiros da FNLA, consegui, apesar do frio e do chão a tremer com os longos rugidos dos leões, descansar sobre um montão de folhas secas e na companhia de um cão, que parecia nunca dormir.

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O Hamilton, o nosso homem das transmissões, que não se esquecia das suas obrigações com competência, no entanto perdia-se nervoso e a gaguejar quando apanhava em linha o capitão e a sua liderança pelo medo… nem a cantar conseguia falar.

No terceiro dia, quando começou a clarear, progredimos uns bons quilómetros em direção à margem esquerda do rio Cuango, em vez da direita. Lembro-me que contrariei o plano da operação… hoje, já não sei quais foram os verdadeiros motivos… talvez por estratégia.

Durante o percurso, tivemos o cuidado de estar atentos aos vestígios… lavras abandonadas, ausência de população e trilhos que não eram usados. Mesmo assim, estivemos à vista de uma conhecida e consentida zona avançada do acantonamento da UNITA na nascente do rio Lungué-Bungo, esta localizada entre o Cassai e a região da Vila do Munhango.

O quarto e o quinto dias, entre vegetação muito densa, e com travessias refrescantes, nos pequenos afluentes do rio Cuango, foram de um sossego absoluto e com locais excelentes para recuperar as forças e passar a noite.

Se não estivéssemos em guerra, diria que foi um passeio numa região idílica, cheia de belezas naturais, onde os meus olhos viram as melhores imagens da selva africana, que nenhuma máquina fotográfica, daquela época, poderia mostrar completamente.

Num local, onde o caudal do rio aumentava e o manso murmúrio da água corrente contrastava com umas impressionantes quedas de água, vi plantas nunca vistas, árvores de grande porte, frutos desconhecidos e muita vegetação a transformar o chão num imenso e garrido tapete verde. Os peixes maiores bem junto à margem e sem medo, andavam entre numerosos peixinhos coloridos, como num aquário.

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Depois do rugido dos leões, fomos contemplados com a passagem lenta de três elefantes, com a fuga de uma onça, por uma grande família de javalis, bandos de agressivos macacos cão, grandes cágados, ratos voadores com uma membrana da pata dianteira à traseira, que lhes dava a capacidade de planarem do topo das árvores até à base de outra… sucessivamente, voltavam a trepar e a planar… uma grande cobra e inúmeras cabras do mato, muito abundantes na região.

Antes do nascer do sol desmontámos os panos das tendas, arrumámos os sacos mochilas e disfarçámos os vestígios da nossa presença. No entanto, era praticamente impossível repor o aspeto do local e as clareiras abertas pelo nosso calcar na vegetação… isto, sem falar nas latas vazias e no lixo, que era colocado num buraco coberto com terra e folhas.

Ao sexto dia, como combinado, estávamos no ponto de recolha numa zona plana com vegetação diferente e dispersa. Depois de um breve controlo à área envolvente, decidimos avançar ao longo da picada. Para mim, a deslocação em viatura era o momento que mais temia… o meu sistema nervoso alterava-se de uma forma inexplicável.

Os cinco ou seis dias passados na mata transformava por completo a nossas aparências… mal cheirosos, cansados, mal alimentados e carentes de um sono sem sobressaltos, numa cama… a degradação progressiva da nossa imagem, que só dávamos conta no regresso ao quartel quando íamos a um espelho.

Passaporte para a mata

No dia seguinte, aproveitei o descanso da manhã para dar um passeio no exterior do quartel. Na proximidade do novo edifício do posto, cruzei-me com um jovem, bem vestido, talvez acima do que era normal naquele meio. Estava na posse de um papel, “passaporte”, com uma autorização temporária para poder transitar na mata. Como estávamos sozinhos trocámos breves cumprimentos com os tradicionais batimentos com a mão no peito… a minha apresentação à moda do “puto” transmitiu-lhe confiança e até me pareceu que se esbateram algumas barreiras culturais. Ficou mais solto e comunicativo… falava o português, bem melhor do que eu estava à espera.

Contou-me:

- os motivos do passaporte… uma visita a familiares na sanzala do Cucumbi;

- a sua função de professor / monitor na nossa região, pago pelo estado português; e

- a sua descendência.

Num sábado, ao fim da tarde, na loja do Sr. Capela bebemos umas cervejas e estivemos à conversa. Nunca me questionou sobre a nossa atividade militar, mas senti que gostava de saber coisas da minha vida em Lisboa. Contei-lhe como vivia, quase sem omissões e até a minha posição perante a política e a guerra. Inesperadamente, talvez com a ajuda da meia dúzia de cervejas bebidas, “disparou”: - Tenho um grande sonho! Ir para Portugal e perder-me de amores por uma branca peluda... faltou-me coragem para perguntar em que zona do corpo. Confidenciou-me, que as populações eram maioritariamente apoiantes da UNITA ou da FNLA, entre os mais velhos, e que havia alguns com familiares guerrilheiros… apercebi-me, que era um dos poucos simpatizantes do MPLA.

Mais tarde, encontrei-o em plenas funções, na sua escola, na Sanzala do Camachilonda. Pediu-me para contar algum momento interessante sobre a história de Portugal… falei sobre a padeira de Aljubarrota… adoraram… uns meses depois em António Cavula, onde estava um primo com a categoria de monitor, voltei a repetir a história.

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Ele e o primo, foram amigos, que deixei e não voltei a ver… no entanto hoje aparecem assim: - Acidentalmente tirados do fundo de uma qualquer gaveta ou da minha memória onde estão arquivados, à luz do mais genuíno e feliz dos meus dias nas relações entre as pessoas.

Foram eles, que em 1974, de uma forma muito astuta e em antecipação, me incentivaram à saída breve do destacamento em António Cavula… que contarei no momento certo.

As sentinelas

Voltando às minhas deambulações nas noites escuras, entre arame farpado e momentos fortes… hoje agradeço todas as mais-valia de ter vivido aquelas situações, boas ou menos boas, na camaradagem saudável dos soldados sempre voluntários, apesar de viverem em condições subalternas e com pouco dinheiro.

Puxando “a fita” um pouco atrás:

- Numa noite, a alguma distância, vi a cara da sentinela no alto da vigia enquanto puxava uma fumaça… Bxx, queres ir encaixotado para Trás-os-Montes? Abrem-te dois buracos na cabeça, um à frente e outro atrás! Sabes perfeitamente que estão todos a confiar em ti! No dia seguinte estava muito ofendido e já era uma vítima… para o alferes de serviço.

- Noutra… num ruidoso jogo de cartas, que acabou sensatamente sem vencedores ou vencidos, menos para as cartas;

- Ainda, numa outra vez… enquanto o moço dormia profundamente e na paz dos anjos, levei-lhe a arma para o meu quarto. Acabei por me arrepender… a minha obrigação deveria ter sido outra… falámos de manhã, sentados na minha cama… em compreensão mútua esquecemos o que aconteceu. Recebi provas de um grande carácter e uma grande lição de humildade, que me ajudaram a crescer; e

- Finalmente, outra anormalidade, esta por volta das 4 horas da manhã, quase dia em África. Estava de serviço, com os elementos do meu grupo de combate. Então Axx, que se passa? Alferes não diga nada ao Capitão, só estava a esgalhar uma… à maneira. Eu vi essa parte… os outros capavam-te. Oh meu alferes, peço desculpa, estava a olhar para a loiraça do calendário e comecei a lembrar-me da miúda do cinema em Henrique de Carvalho, moreninha, calças justas, um valente papo e um par de mamas a quererem saltar para fora da camiseta. Dava-lhe uma martelada… bem enterrada até aos tomates… ia pedir mais, de certeza. Repara Axx, o capitão não é para aqui chamado, só estamos nós os dois... percebi o motivo do teu desatino, mas podemos ficar em perigo se não estiveres atento e compreende, estávamos todos a confiar em ti. Alferes, tem toda a razão, somos amigos e não acontece mais, juro! Mas, acredite… aquela miúda é toda tesão!

O que acabei de relatar, foram casos isolados e não aconteciam com a frequência, como eventualmente poderá parecer nesta narrativa. Pelo contrário, devido à nossa velhice na guerra, ao isolamento dos postos de vigilância e a alguns sustos à mistura, as sentinelas iam ficando mais “profissionais” e engenhosas nas armadilhas e nos pontos de diversão para tornar o intruso num alvo fácil… e já usavam a interajuda de um amigo, não escalado, para colaborar no serviço.

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Missão humanitária

A minha primeira saída para uma missão humanitária aconteceu depois de um pedido de ajuda urgente ao comandante de companhia, para socorrer uma mulher da aldeia de Samuchima, que estava em trabalho de parto há demasiado tempo, no meio de grande sofrimento e de preocupação dos seus familiares.

Fui num velhinho jipe Williams, na companhia de um condutor e do enfermeiro Luís.

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Pelo caminho o enfermeiro dizia: - Nunca ajudei num parto, nem tenho material apropriado.

Perguntei-lhe: - E porquê um alferes miliciano especialista em minas e armadilhas?

Quando chegámos, já era noite. O ambiente não parecia pacífico e as condições de higiene eram as piores. Mesmo assim, sentimos a obrigação de ajudar.

Tudo estava a acontecer numa palhota pequena de chão térreo, em cima de uma esteira, à luz de um escuro candeeiro de petróleo e com algumas mulheres em grande ladainha.

O pai da criança, que tinha pedido o socorro, fugiu com medo dos familiares da mulher.

- Luís, acho que só fomos chamados para aqui em desespero de causa.

- Bem, temos que fazer alguma coisa para melhorar isto!

- Vou pedir para estas mulheres saírem e com os faróis do Jipe, junto à porta, vai haver mais luz lá para dentro.

O Luís quando se aproximou da jovem não aceitou a situação dos rituais, que estavam a acontecer: - A cinza espalhada no corpo e o excremento de cabra no chão. Solicitou a duas mulheres a rápida limpeza do local. Em seguida desinfetou-lhe o corpo.

Com as mãos (não havia luvas) e com muita coragem daquela mãe, tentámos tudo para facilitar o nascimento da criança. Mas tudo correu mal, mesmo.

Aquele filho, não queria nascer.

- Luís, na faculdade falou-se em partos provocados.

- Só temos soro… mesmo assim devíamos tentar!

- Pela manhã logo se via o resultado!

Informei o chefe da aldeia e as mulheres da família do nosso regresso ao quartel e o que se tinha feito. Voltávamos de manhã. Pedi para lhe estimularem os seios e ajudarem quando a criança estivesse mesmo para nascer.

No povo quioco, logo que uma mulher sente os primeiros sintomas do parto, pede à mãe ou a outra mulher da família que chame a tchifungudji (parteira) e todas as mulheres que já tiveram filhos, para que auxiliem em tudo o que for necessário.

Os homens, as crianças e ainda as mulheres que tiveram relações sexuais no dia anterior não podem assistir ao parto.

A futura mãe senta-se numa esteira costas com costas com uma outra mulher, a ajudante, que lhe entrelaça os braços prendendo-a contra si. A parteira fica sentada em frente a dar instruções.

Conforme me contaram, depois do nascimento, mais ninguém pode mexer na criança, só a ajudante e a parteira. Cortam e atam o cordão umbilical, lavam-na em água morna e entregam-na definitivamente à mãe. Esta recebe um copo de água para beber e borrifar o filho, dizendo, mais ou menos isto, para que fiques bonita(o) e forte.

No dia seguinte, há uma espécie de batismo imunizante, que é feito por todas as crianças da aldeia com raízes, que esfregam na criança, afastando assim todos os feitiços e os males. É a partir deste momento que qualquer outra mulher poderá pegar, mas continuam a ficar de fora as mulheres impuras, com relações sexuais no dia anterior.

Ao terceiro dia, é feriado na aldeia e dia de festa. A parturiente lava-se no rio, na altura mais quente do dia, pedindo à água que lhe dê forças e frescura. É neste dia que o pai dá um nome ao filho. O nome pode ser o de um seu antepassado, de um amigo ainda vivo, ou de um acontecimento importante que se tenha passado no dia do nascimento.

No entanto, só no ato da circuncisão, nos rapazes, ou da iniciação, nas raparigas, é que o verdadeiro nome será escolhido.

De manhã, quando chegámos à aldeia a criança já estava lavada e ao colo da mãe com o cordão umbilical cuidado pela parteira. Era um rapaz. Ficámos contentes com o final feliz daquela mãe. O miúdo ficou a chamar-se Carlos, temporariamente.

Éramos jovens e culturalmente muito diferentes daquele povo, mas iguais perante o sentimento simples de ver nascer uma criança. Aprendi muito, nascemos iguais e até com a mesma cor e a aflição geral num parto basta para esquecer ódios de morte.

Acerca do pai… não me recordo ou não dei a devida importância à situação… certamente regressou à aldeia.

Capinar

A vida no quartel, entre arame farpado, mantinha-se sempre igual e rotineira, mas era exigente e com demasiada disciplina, incluindo o vestuário e os horários.

Entre o capinar e a plantação de abacaxis, havia sempre trabalhos de manutenção ao quartel e obras nas sanzalas.

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O dia em que estava de fiscal (ridículo) aos soldados que capinavam o quartel, uma tarefa importante para garantir a limpeza e a higiene da nossa pequena cidade, era um frete para mim e do desagrado de todos… entendiam-no como um castigo… acabava em fugas, baldas e desentendimentos.

Numa das minhas passagens, encontrei-os sentados em amena cavaqueira.

Perguntei:

- Então Cxx, o que estão a fazer?

- Estamos a capinar meu alferes.

- O que vejo é só conversa e num sítio onde nem sequer há capim.

- Alferes, a velhice é um posto… se continuarmos aqui o capim não cresce mais, como está a ver.

Primeiro Natal em Angola

Como era o último fim-de-semana antes do Natal, fui assistir ao habitual mercado desta época. Era muito concorrido e animado entre as gentes das sanzalas. Vendiam farinha de mandioca, bem como algum feijão e outros produtos proveniente das lavras. As trocas criativas por peixe seco, carne seca, óleo de palma e panos eram os momentos mais esperados e o centro de todas as atenções.

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O primeiro Natal em África estava por horas.

Já não me lembro dos pormenores da consoada, da árvore de Natal, da música alusiva à época, se a houve, do bacalhau com batatas ou do bolo-rei. Porém, a calma nas tarefas era evidente e o ambiente geral de boa disposição era contagioso.

Quando anoiteceu passei pelas sentinelas e pelas casernas com uma mensagem de amizade… afinal eram eles a minha família, mais próxima.

Demorei-me um pouco mais na caserna do meu grupo de combate, onde, no meio de um grupo de soldados a jogarem à lerpa e outros a conversarem e a rirem, improvisaram uma mesa com chouriço, presunto, queijo, bolos secos, pinhões e uma garrafa de espumante, tudo do puto.

O Cassiano, mais distante da noite festiva, estava a reler aerogramas, outros mais cansados, recuperavam de uma semana na mata com roncos surdos. Ao fundo, a um canto, estava o Alves, que sem dar pela minha presença mostrava um ar calmo e feliz, provavelmente a reviver os amigos ou a namorada.

- Então Alves?

- Um bom Natal!

- Desculpe meu Alferes, estava distraído a sonhar com a consoada junto da família, com a Missa do Galo e com a fogueira no adro da igreja.

A minha noite de Natal continuou no bar de oficiais entre espumante e petiscos, uma animada conversa, dois whiskies e algumas anedotas alusivas à época… restava o momento das ofertas do Movimento Nacional Feminino. Pelo meu lado, recebi um número do Cavaleiro Andante de 1966, um número antigo da revista Flama e um estojo com uma “Gillette”, um pacote de cinco lâminas quase ferrugentas e um pincel para espalhar o sabão.

Na manhã seguinte, Dia de Natal, fui dar um passeio no exterior do quartel na companhia do meu cão Buda. Andava descontraído, em calções, camisola branca de manga curta e desarmado… respeitando o dia.

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Cruzei-me com dois Cipaios e até… a Benita andava por ali, junto ao arame farpado.

Quando passei junto ao depósito da água, ouviam-se gritos e mais gritos, sem parar… alguém estava a ser interrogado e provavelmente não queria falar… meio século depois ainda sinto aqueles gritos.

A vida no Alto Chicapa, nem sempre era tão cor-de-rosa como a gostam de pintar. Num outro caso, que presenciei numa tarde junto ao posto, era uma tentativa miserável de obrigarem a falar um homem deitado no chão de mãos amarradas, com uma roda do jipe encostada à cabeça e com o motor em aceleração, … assustadora.

Nunca consegui saber mais do que aquilo que presenciava, por mera casualidade… e quando quis saber mais... com maus modos contaram-me: - Os procedimentos habituais é entrega-los à DGS / PIDE (quem?).

Carlos Alberto Santos

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