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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

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O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Entrevista a um ex-combatente, com histórias, que não quer contar

Alto Chicapa, 29.03.21

Estamos no mês de Março, na Primavera de 2021.

O futuro, uma vez mais, prega-nos partidas... grandes desafios para a medicina, as privações de liberdade e as ameaças de mais pobreza no mundo.

Eu sou o Carlos Alberto Santos, ex-alferes miliciano e ex-combatente na Companhia 3485, do Batalhão 3870.

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Fui militar no exército português, desde Janeiro de 1971 a Junho de 1974, três anos e seis meses. Em Fevereiro de 1972 fui para a Guerra do Ultramar.

A guerra de guerrilha em Angola, aconteceu no período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação, UPA/FNLA, MPLA e UNITA, entre os anos de 1961 e 1975.

A minha ligação ao Exército terminou com a passagem à disponibilidade ou passagem à peluda, como se costumava dizer.

Continuo casado, tenho três filhos e três netos, 72 anos... velhinho! Sou natural de Lisboa, mas com genética minhota, de Melgaço, por parte da mãe, e beirã, de Unhais da Serra / Covilhã, por parte do pai.

O que vão ler a seguir, é apenas e só uma entrevista a um ex-combatente em África.

O que o motivou a entrar no exército português?

Nada, mesmo nada.

Fui obrigado, como voluntário "à força".

Naquela época ia-se a uma inspeção obrigatória no quartel da área de residência... foi um momento agitado, ficámos todos com o "pirilau" à mostra.

Mais tarde, quando menos se esperava, vinha o recrutamento, que só alguns conseguiram adiar ou escapar.

Como estava a estudar na Faculdade de Medicina de Lisboa, solicitava adiamentos anuais de incorporação no exército. Foram dois anos e meio de espera (era o termo usado)... mas, a seguir ao Maio de 68, quando a revolução dos estudantes franceses começou a influenciar as organizações em Portugal, a PIDE atuou sem piedade nas Universidades, com as chamadas rusgas nas faculdades, que terminavam, quase sempre, com pontapés nos "tomates", murros, chapadas e a inevitável prisão dos líderes académicos e dos outros, que estivessem por perto.

O governo, por sua vez, como forma de coação, determinou às reitorias o cancelamento de todos os pedidos de adiamento de incorporação no exército.

No final do primeiro período escolar... uma semana antes do Natal, recebo um postal e uma guia de marcha para me apresentar  no dia 11 de Janeiro de 1971 no Quartel, em Mafra.

Foi um Natal muito sofrido lá em casa.

A minha mãe, andava a fazer tratamentos a um cancro de mama... abraçava-me a chorar... chorava sem fim (terrível).

Depois da experiência, mudava alguma coisa no serviço militar?

Mudava muito. Conforme está hoje, o serviço militar é uma aberração, não serve para nada... é a imagem decadente de quem nos governou e governa.

O Serviço Militar deveria continuar, para homens e mulheres, mas num registo de formação e de envolvimento cívico... sem estragar ou empatar a vida do cidadão.

Fazia bem a todos.

Mesmo só de passagem, a organização militar é uma escola de vida, de disciplina e de valores... no final de um percurso militar, alguém me dizia: quando entrei para a tropa era um "atado", saí de lá um homem.

O modelo israelita, independentemente da visão daquela guerra, poderia servir para uma base de trabalho.

Quantos quartéis e infraestruturas estão subaproveitados?

Porque estão obsoletos os hospitais do exército, da marinha e da força aérea?

O laboratório militar, de onde saíram tantos medicamentos, os LM e outros, até vacinas... porque foi esquecido?

E o centro de estudos epidemiológicos do exército?

A memória pode ser curta (?)... mas há milhares de profissionais formados na Força Aérea, na Marinha e no Exército a trabalhar em empresas civis de diferentes sectores... e hoje?

Gostava de ver os seus netos no serviço militar?

Gostava, mas não na guerra.

A disciplina, a hierarquia, o sentido de organização e o respeito pelas diferenças fazia-lhes bem.

Na guerra não! Porquê?

Andei na guerra em África... sei o que é.

Na guerra não... as guerras são injustas e desnecessárias.

Quando o mais forte ser humano, é tão frágil numa pandemia... guerra para quê?

O que sentiu quando foi chamado para combater em Angola?

Fiquei assustado.

Era um menino!

Não sabia o que era combater, nem estava treinado para tanta responsabilidade... por isso, ouvia-se: carne para canhão.

No Leste de Angola, aquilo não era brincadeira, já era uma guerrilha a sério... quem facilitava, geralmente recebia problemas de volta... os que estavam em fim de comissão "os velhinhos", diziam aos recém chegados, "os maçaricos": se não matares primeiro, és o homem que morre... a estupidez da guerra.

Pensou, alguma vez, que podia não voltar vivo?

Pensei muitas vezes, principalmente durante os trajetos na picada.

Quando andava na mata sentia-me mais tranquilo... as noites e as madrugadas também não eram de confiar, no entanto o meu cão Buda, que parecia nunca dormir, dominava a escuridão, sem ladrar... era a melhor sentinela.

Tínhamos uma vida muito complicada... a mina acontecia e a bala espreitava.

A interajuda desinteressada, entre nós, tornavam tudo mais fácil... quase o único conforto... não me canso de dizer: estou vivo, porque os meus camaradas estavam perto de mim.

O que sentiu quando chegou a uma terra tão diferente de Portugal?

O primeiro choque foi o calor, em Luanda. Parecia uma fornalha.

Depois... as pessoas.

Nos primeiros dias, os pretos pareciam todos iguais... os miúdos também eram muitos, não paravam, estavam sempre a pedir... os brancos (silêncio)... não imaginava que fossem assim tão distantes da realidade e alheios a tudo, exceto às suas vaidades.

Num restaurante da ilha, só por estarmos a conviver ou talvez um pouco mais animados, senti(mos) a verdadeira dimensão do desprezo que tinham por nós, militares... uma família marcou-me para sempre... o vosso lugar é no mato, fora daqui... a seguir, veio o empregado: vão ter que terminar e sair.

Com o tempo, fiquei a conhecer melhor aquelas atitudes... uma prática muito comum nas grandes cidades. Por exemplo, em Malange, terra de diamantes, a arrogância era enorme... quando os "senhores" caminhavam no lado direito da estrada o preto sentia-se na obrigação de passar para o outro lado.

Para quem acabava de chegar, de Portugal, para combater e para ajudar as populações, estas atitudes eram impensáveis.

A vida no interior de Angola era diferente... era mais pura.

Viviam de uma forma rudimentar... praticamente só tinham o que a natureza lhes dava, isto é, se não fossem espoliados pela guerrilha.

Apesar da guerra e de vivermos paredes meias com o "inimigo", era, apesar de tudo, um ambiente fascinante e culturalmente rico.

As pessoas eram boas e sem maldade... quando gostavam, eram amigas. Mas, também os havia, os de dupla pátria e os malandros.

Não contando com os militares, num raio de 100 /150 kms só existia um ou outro branco, geralmente comerciante ou o chamado chefe de posto.

Viver no interior, com a natureza e com pessoas muito cultas, à sua maneira, marcou-me muito. Foi um fascínio, que perdura, meio século depois.

Como resolvia os momentos de maior aflição?

Não sou de grandes aflições.

Nesses momentos sou frio. É preciso resolver... resolve-se sem nervos, sem medos e com a consciência de que pode correr bem ou não.

No dia seguinte, vem o pior, os meus intestinos desfazem-se... na escola, depois dos exames, acontecia-me o mesmo.

Em conflitos, com armas na mão, uma indecisão era fatal.

Com a experiência a maioria ficou pronta para tudo e ia sempre em frente, como se nada fosse... quase sem a perceção do risco.

Tem alguma imagem marcante de mortes?

Não houve mortes na Companhia 3485... apenas feridos em acidentes.

Só tenho uma situação marcante com a morte. O assassinato de um homem, que violou a mais nova de quatro mulheres de uma família na aldeia de António Cavula.

As quatro mulheres, unidas pela natureza de um casamento polígamo, decidiram fazer justiça... envenenaram e enterraram o agressor, ainda vivo.

Quando o chefe de posto foi informado daquela morte exigiu a retirada do corpo da improvisada sepultura. À medida que o corpo ia sendo retirado o povo fugia com medo do feitiço dos espíritos... a força do veneno criou um monstro.

Semanas depois, quando me encontrei com o Chefe de Posto perguntei-lhe como tinha ficado o caso do monstro de António Cavula... respondeu: O Soba, depois de consultar os Mais Velhos, concordou com o julgamento dos espíritos, o homem deixou de ser homem... quando decidem assim e não há conflitos, o Chefe de Posto não se envolve.

Como entendeu a guerra colonial?

Como todas as outras... não há guerras sem interesses paralelos, políticos e económicos.

Em Angola não fugiram à regra... o povo acabou por ser o principal sofredor... continuam subjugados ao colonialismo geopolítico... ao poder económico, ao consumismo e à dívida.

Quais eram os momentos de descontração?

Descontrair sem controlo era perder o foco da guerra... era perigoso e podia pagar-se com vidas.

Efetivamente havia momentos assim, para esquecer... entre petiscos, jogos e conversas.

No meu caso, também juntava a esses momentos um diário e alguns livros... lia muito.

Havia militares com problemas traumáticos?

Traumas... acho que não.

Só algumas "pancadas" leves, talvez isso! Eram apenas situações comportamentais, de uma dezena de militares mais problemáticos... quase sempre à volta da violência sexual, das drogas leves e da negação das regras.

A ditadura e a rigidez de comando também ajudavam à indisciplina dos "revoltados", que se manifestavam, depois, fora de portas, com comportamentos extremados.

Sem querer particularizar... hoje sim, há gente com problemas traumáticos, como por exemplo: os que não querem ouvir falar dos camaradas ou da tropa, os que só querem distância dos temas... mesmo que a mente sofra ou as "dores" de consciência, reais ou não, atormentem os dias.

Quando soube que a missão em Angola estava a chegar ao fim, o que pensou?

Sinceramente, não pensei em nada... mas tinha, desde o final do ano de 1973, um duplo sentimento amargo: os anos de juventude perdidos, para nada, e a hipocrisia daqueles, que nos foram buscar para combater e no final fizeram tudo para nos esquecer.

Este sentimento exacerbou-se, entre o quarto trimestre de 1973 e o primeiro trimestre de 1974, na sequência das alterações impostas pela paupérrima gestão do Sr. General Hipólito.

Os erros de estratégia, como o "rasgar" de acordos e a retirada de militares influentes e importantes nas pontes entre o IN e as NT, acabaram por ser fatais para centenas de camaradas, numa guerra que parecia ganha.

A falta de diplomacia e o desprezo  pela nova UNITA, deram força para ataques quase em simultâneo com o MPLA. Houve perdas, sem precedentes, de muitas vidas de civis, de militares e a destruição de muito material nas NT... armas, viaturas, equipamento de comunicações e até infraestruturas.

O que sentiu quando regressou da guerra?

Foi, sem dúvida, uma explosão de emoções, entre sensações estranhas e de alegria.

Senti o conforto da casa e da família e a urgência de recomeçar a vida em Portugal.

Encontrei o meu país, em pós revolução de 25 de Abril, com convulsões sociais, manifestações e muitas greves.

Sem contar, fiquei envolvido numa nova "guerra"... procurar trabalho.

Uma curiosidade... durante as primeiras noites em Portugal, não conseguia adormecer na cama, apoderava-se, de mim, uma agitação inexplicável.

Parecia que faltava o ar... dormi várias semanas deitado no tapete e de janela aberta.

Faziam-lhe muitas perguntas sobre a guerra?

Nos anos a seguir ao 25 de Abril, as conversas sobre a guerra colonial eram evitadas... praticamente, não perguntavam.

Havia um sentimento de culpa na sociedade portuguesa, até porque havia os colonos regressados e os que tinham fugido das retaliações ou da guerra civil em Angola.

A guerra foi marcante, para quem a viveu... mas, também havia grandes momentos de amizade.

Como compara a guerra colonial com as guerras de hoje?

De uma maneira ou de outra, guerra é sempre guerra... há mortes, feridos e destruição.

Atualmente, a guerra acontece com mais tecnologia, armas sofisticadas e até visão noturna... é diferente. Usam a espionagem dos satélites e a robótica de precisão... atacam onde querem.

Acho que não há comparação possível... passou-se da armadilha e da flagelação aos drones e à robótica.

Há alguma história que queira contar?

Há muitas histórias simpáticas, que se poderiam contar aqui, resumidamente... mas iam desvirtuar a finalidade desta entrevista.

No entanto, no site da Companhia 3485 (www.cc3485.pt), podem ler histórias com momentos daquela época... se não estão mais, foi porque não as quiseram contar ou então, são para esquecer, mesmo!

Também há outras histórias, que de tão íntimas... só as queremos guardar para nós.

Os dois anos e meio de guerra, o ambiente hostil e o que passámos... essa sim, é a nossa história (silêncio).

Parece desiludido, pela minha decisão...!

Como não quero desiludir, conto então uma história real, passada numa terra de lindas mulheres, Chaves em Portugal.

Já não me lembro como tudo começou, mas decidiram que tinha de dar aulas regimentais de preparação para o exame da quarta classe.

Dava aulas duas vezes por semana, numa sala na Câmara Municipal.

Depois, no quartel, durante a tarde de quinta-feira, respondiam a um teste livre com a matéria da semana... três perguntas e uma cópia de um pequeníssimo texto.

Entretanto, espalhou-se um boato (intencional)... as perguntas e os textos, que se repetiam nos testes de aprendizagem semanal, saíam no exame final.

Ao princípio, demonstravam falta de empenho e eram pouco cuidadosos... gordura, sujidade... iam à escola por obrigação.

Na terceira semana de aulas, mais ou menos a meio, informei-os: vocês ainda não sabem... quem vai avaliar o vosso exame é a professora que tem estado a corrigir as vossas provas semanais.

Se a quiserem conhecer... janta quase todos os dias na messe de oficiais... juntem-se, e vão até lá, eu faço o resto.

Apresento-vos a minha mulher...

Como por magia, tudo mudou a partir desse momento. Mais empenho, letras cuidadas, corações desenhados, papel perfumado e um exame da quarta classe inesquecível... momentos únicos, que nos acompanham pela vida fora.

Consegue comparar a atual pandemia Covid 19, com as doenças, que existiam durante a guerra colonial, em Angola?

Não consigo fazer essa comparação... não tenho conhecimentos e as épocas também são distintas.

Mesmo assim, há algo em comum: hoje, ainda não temos os tratamentos a 100% para o coronavírus Covid 19 e no passado só havia a penicilina para anular infeções provocadas por bactérias, mas, apesar de tudo, havia a vantagem  de não haver mobilidade fácil e grandes concentrações de pessoas.

Durante a guerra, a Sífilis e a Gonorreia, transmitidas através da relação sexual, eram as doenças mais complicadas de tratar.

Havia também a Lepra e doenças hemorrágicas muito letais.

Finalmente a Malária ou Paludismo, que meio século depois, ainda é uma doença endémica em África.

É uma infeção dos glóbulos vermelhos, causada pela picada do mosquito Anopheles fêmea infectado.

Atacou muitos militares na Companhia 3485.

A minha experiência com a doença não foi nada boa. Febre acima de 40º C, suores frios, uma contínua dor de cabeça, falta de força para sair da cama e não conseguia raciocinar. Só ao fim de 4 dias é que tive a verdadeira noção do que estava a acontecer.

Não gostei de terminar a minha entrevista assim... mas, como é óbvio, a vida também é vivida em luta contra as doenças.

Um abraço do tamanho do Chicapa.

Carlos Alberto Santos

 
 
 
 
 

Alto Chicapa (parte 3), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 13.11.20

Colonizadores Especiais ou Ditadura

Depois de Salazar, Marcelo ainda insistia na mensagem de que eramos um povo de brandos costumes e de colonizadores especiais… mas um Imperio, que durou séculos, não se constrói com brandura!

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Foi com violência… até nos anos 70, na nossa companhia, a 3485, e em redor dela, em espaços civis, a violência psicológica e física, eram sempre a primeira opção, de tal forma, que ainda hoje a sociedade prefere o medo a falar e ignora o óbvio dos traumas do passado ou trazidos da guerra… compreendido só por alguns ou pelos camaradas, que estiveram lá.

Apesar do nosso colonialismo retrógrado, de anos, e da guerrilha dos movimentos de libertação, a soldo de outros interesses, americanos, russos e chineses, Angola estava diferente e mostrava-se ao mundo, com uma nova geração de jovens e de quadros técnicos, saídos das escolas e das universidades locais, aptos para trabalhar na saúde pública ou privada, indústrias, comercio, agricultura, pescas e minérios… enfim quase tudo o que uma nação pode ambicionar.

As deslocações, que realizei entre Luanda, Nova Lisboa, Malange, Silva Porto, Henrique de Carvalho e Sá da Bandeira, deixaram-me boas recordações.

Naquelas cidades, a classe média e média alta de angolanos de todas as origens já eram os funcionários maioritários nas empresas, no comércio e nas funções de estado. Ouvi muitas vezes tratar por africanos tanto pretos como brancos… evidentemente, nós os europeus, não pertencíamos a essa elite.

A própria guerra, onde fui envolvido, e o dinheiro que chegava, não foram elementos de destruição… foram mais-valias de progresso e construção, que incrementaram uma nova qualidade de vida. Os próprios militares milicianos, retirados das faculdades ou dos locais de trabalho em Portugal também contribuíram para a grande transformação de mentalidades.

A evolução do nosso quartel:

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Muito longe das cidades ou das vilas, no interior de Angola, onde estávamos, a realidade era outra. A felicidade não se encontrava nos bens materiais, mas sim dentro das pessoas.

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Diziam: - Os antepassados governam, as divindades ajudam, as magias completam e as superstições previnem. Nzambi (Deus) está no Céu, criou o mundo e os homens e entregou o seu governo aos espíritos, a quem cabe o maior papel… mas isto não queria dizer, que estivéssemos no paraíso.

Hoje, a postura na governação contínua inqualificável:

- Cheguei como tropa a uma colónia portuguesa (Angola), governada por ditadores;

- Como militar miliciano, deixei Angola num processo de bastidores e de interesses internacionais, que transformaram os Movimentos de Libertação em Movimentos de Destruição; e

- Como acompanho a evolução do país… lastimo a governação entre ditaduras sucessivas e entre aduladores dependentes das vaidades e dos luxos desmedidos, num retrocesso ao estilo de vida das antigas elites coloniais.

Paludismo / Malária

Apesar de a UNITA estar a poucos quilómetros do nosso quartel e com familiares nas sanzalas próximas, como António Cavula e Muaxiteca, o ambiente com as populações continuava em confiança e em descontração mútua… até nos momentos em que se ia dar uns mergulhos no rio, muitas vezes, lado a lado, com mulheres nativas a lavar roupa.

Depois de uma dessas idas ao rio, à noite comecei a sentir-me debilitado e sem forças para me movimentar. Durante uma semana o paludismo tomou conta de mim numa cama. Foram momentos difíceis. As alucinações misturavam-se com o frio e as febres altas transformaram-me num farrapo humano… ausentei-me completamente de tudo, durante dias.

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O enfermeiro Carvalho e, mais tarde, o Dr. Vilaverde devolveram-me a vontade de viver com a ajuda de algumas injeções, uns fortificantes e nos 14 dias finais com comprimidos de Resoquina, que evitavam o regresso das febres da malária.

Adultério

Ainda em recuperação, fui aconselhado a dar uns pequenos passeios pelo quartel.

Depois do jantar atravessei-me, sem querer, no caminho do camarada Cxx, um transmontano de gema, como se costuma dizer.

- Então Cxx… que grande “cadela”!

- Foda-se, só me faltava este… não quero conversa!

- Por ali… toma um banho!

- Tire a mão, sei o caminho… cabrão… és igual aos outros!

- Vai dormir!

- Não quero conversas com a “chicalhada”… só falo com a minha mãe! Quem vem lá... lááá?

- Afastei-me… deixei-o à vontade e a cambalear.

Continuou de mal com a vida e com todos… até com o quico.

Passado uns dias cheguei à fala com ele… um rapaz educado.

- Foi um momento de revolta, que me deixou mais fraco.

Dei-lhe alguma razão… percebeu a parte negativa e a conversa fluiu.

- Vim do Cambatxilonda. O homem é duro… se um tipo escorrega, leva logo uma “piçada”.

- Sabe! Andava de pau feito, até doía… deram-me alguma porra! Gostava de saber, quem foi o filho da puta.

- À noite, fui à aldeia. A determinada altura fiquei a olhar. Era ela… não era a primeira vez, que estávamos juntos… o meu olhar estava perdido e o pau já arqueava… imaginei-a à minha espera… beleza, não te assustes!

- Já percebi! Assustou-se… deu merda!

- Sim, deu merda, mas não se assustou… foi até de manhã. Era uma doida a foder, de lado. Só que… no fim… quis mais dinheiro e comida.

- Acabei castigado.

- Agora, que está tudo mais calmo, digo-te que foi bom vires por uns tempos para o quartel… um tipo morto a caminho do puto de pau feito, não era boa ideia.

- Alferes… foooda-se… era uma vergonha (tinhamos 20 /24 anos)!

À época, o adultério, em certas condições, até era bem tolerado, porque era, muitas vezes, o próprio marido que contribuía para a mulher se tornar adúltera, não só por algum abandono declarado mas também pelo proveito material que podia tirar disso.

Havia casos, em que homens idosos, rodeados por várias mulheres e mais duas ou três muito novas, longe de ser a figura do marido ultrajado, aproveitava-se da situação para aumentar os seus proveitos, naturalmente, oriundo, delas seduzirem ou deixarem-se seduzir.

A sedução na mulher, quando gostava, era natural e desejo, frequente e banalizada, mas não se pense que a moralidade estava ausente, pelo contrário haviam muitos valores de vida, impossíveis de ser avaliados à luz do pensamento e da mentalidade europeia.

Na região do Alto Chicapa, para além de um ou outro caso sazonal vindo de fora, não havia comércio sexual, como em Luanda ou em Henrique de Carvalho, havia sim a tal sedução ou uma troca material pela utilização do corpo da mulher e até do homem.

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Mudança no comando da Zona Militar Leste

A vida mantinha-se calma no quartel e a na região à nossa responsabilidade. Continuávamos sem vestígios de movimentos hostis graças ao equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.

No entanto, a mudança do comando da Z.M.L. (Zona Militar Leste) motivou uma visita ao nosso aquartelamento por altas patentes militares e pelo General Hipólito, o novo responsável pela Z.M.L.

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Os preparativos foram levados ao extremo e de tal forma que até os soldados passaram a usar lençóis na cama… apenas um… para fazerem a cama à espanhola… só para General ver.

De acordo com as normas militares, reuniram na “parada” os presentes e outras individualidades vindas da cidade do Luso. Depois de prestadas as honras, o General Abel Barbosa Hipólito tomou a palavra… entre opções inconclusivas, acabou por deixar a ideia de que seria reavaliado o equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.

Por meias palavras, deixou algumas ideias para a resolução do conflito à imagem da sua visão militarista posta em prática, com resultados positivos, em Moçambique. Entendia, que todos os “terroristas” deviam ser tratados da mesma maneira… pactuar com o inimigo era contrário aos princípios da honra e da ética militar.

Nos momentos seguintes, de convívio informal, perguntei a alguns camaradas, o que pensavam desta encenação de meias palavras. Foi só conversa. Valeu o rancho melhorado.

Depois de outros discursos, provavelmente com as mesmas ideias ouvidas no Alto Chicapa, as consequências não se fizeram esperar… o MPLA e a FNLA começaram a aparecer junto à fronteira com um elevado potencial de fogo em ações traiçoeiras e muito violentas… por exemplo, no itinerário Luvuei / Lutembo, uma emboscada, causou 5 mortos e 32 feridos.

Três crianças num quartel

Apesar de tudo, no mês de Agosto de 1973 a população do quartel transformou-se para melhor com a presença das esposas do Capitão Perdigão, do Alferes Coelho, da minha e ainda de três crianças, o João Miguel, a Catarina e o João Carlos.

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Foram dias felizes, que se escoaram ligeiros como é próprio dos bons momentos e das coisas boas. A minha mulher trazia na bagagem o que me faltava, o carinho, o amor, a alegria, e a ternura.

Viver no Alto Chicapa com a família, significou viver em território africano a um ritmo calmo, onde há sempre muito para ver e fazer. A magia de África, que se fazia sentir em cada momento, levava-nos a realizar alguns passeios numa natureza diferente e debaixo de um céu em azul intenso com tonalidades violeta, típico das altitudes (estávamos a 1320 metros acima do nível do mar).

A minha vida também animou, noutra dimensão, com a presença do meu filho. Gostava de o ver a correr despreocupado por todo o lado com um ar doce e atrevido. Caía, levantava-se, sem ajudas, e raramente chorava. Os soldados chamavam-lhe “O Fufuta”, nome de um guerrilheiro.

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O Destacamento

António Cavula, era uma aldeia, a doze quilómetros do Alto Chicapa.

O mais recente destacamento da nossa companhia foi ali construído, um pouco antes da entrada Oeste da povoação e junto da picada.

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A população, influenciada pelo soba e pelas decisões do adivinhador, nunca se mostrou amistosa ou agradada com a nossa presença. Sabia-se, que tinham ligações à FNLA entre Os Mais Velhos e outros à UNITA.

O professor apesar de ser um simpatizante do MPLA, foi mais racional e estratega durante a nossa estadia. Aceitava a nossa presença, interagia e ansiava pelas benfeitorias, que nos propusemos realizar.

Durante meses, construíram-se casas, fizeram-se obras de manutenção e recuperou-se o abastecimento de água.

Contra a vontade do adivinho ou “tchimbanda”, o enfermeiro Luís e o Dr. Vilaverde juntaram-se à população para ajudarem no controlo de doenças e de algumas mazelas existentes.

A presença do Capelão Bernardo, também não foi bem aceite.

Meses depois, a nossa missão estava terminada. Os resultados estavam à vista, casas novas entre outras melhoradas, caminhos restaurados, o depósito de água a funcionar e a escola com as novas infraestruturas.

A operação Castor, com a elite dos militares portugueses, atuou sob a ordem “Rapidamente e em força em cima de Savimbi”. Foi devastadora. Com bombas de napalm e de fosforo queimaram as sementeiras e destruíram com químicos os terrenos usados para cultivo. Os acampamentos da UNITA, que eram conhecidos e consentidos pelas autoridades portuguesas, foram atacados e arrasados em conjunto com muitas mortes e guerrilheiros em fuga… mas o principal objetivo era a aniquilação da Direção.

Savimbi, avisado por um madeireiro das intenções do novo comando da ZML, acabou por escapar para a Zâmbia.

Em simultâneo com o desenrolar da Operação Castor, o “meu cuidador” teve a arte e o engenho de me alertar de imediato. A retaliação iria surgir de várias formas na nossa área e a qualquer momento, com ataques á tropa portuguesa e, na região, às aldeias hostis à UNITA. Acrescentou: - A norte, descarregaram um barco com muito material bélico, incluindo tanques de combate… presume-se, que o material veio da União Soviética e que foi entregue ao MPLA.

Como era expetável, entre Dezembro de 1973 e Janeiro de 1974, a UNITA, sem aviso prévio, primeiro ataca violentamente as tropas portuguesas, provocando muitas mortes, e de seguida as populações que eram mais hostis, como por exemplo, a destruição da localidade de Sarieza no Bié e o corte de 36 cabeças, de homens, mulheres e crianças, na população de Sautar a cerca de 60 quilómetros do Alto Chicapa.

Corria o mês de Janeiro de 1974… quinta-feira… um dia que não consigo precisar… recebo, em mão, uma mensagem escrita num pedaço de cartão “o destacamento precisa de mais tropa, olhar a zona sul durante a noite, precisamos de falar”.

No próprio dia, ainda consegui falar com o primo do professor (tinha as funções de monitor na escola).

Quando cheguei, saudou-me meio atrapalhado. Pediu desculpa pelo saco na entrada. Estou de saída para o Cucumbi.

-Já? Hoje?

- Parto antes do dia nascer. Vou estar uns dias com a minha família.

- Estou autorizado a fechar a escola… foi o Chefe do Posto.

- Pareces abatido!

- Estou assustado! É melhor falarmos longe daqui… preferia no acesso da água ao depósito... importa-se, que vá à frente?

Ao longo da conduta de água, na zona desabitada… perguntou: Entendeu a mensagem?

- Sim, talvez… pelo menos vou aumentar a segurança a sul… se puderes acrescentar mais alguma informação, “fico em dívida…”!

- Esta semana, chegaram dois (?) guerrilheiros da UNITA para viver com a família. Estão desarmados, mas não acredite. Enterraram as armas à entrada da aldeia.

- Apesar de andarem durante todo o dia por fora, estão bem informados sobre os vossos movimentos na aldeia e no acampamento.

- Consta que pertencem a um grupo de mais sete guerrilheiros, que ainda estão a caminho de António Cavula, também para visitar familiares.

- É normal… haver tantos guerrilheiros com familiares na aldeia?

- Conta-me o que sabes!

- Não posso falar! Se o soba desconfia, amanhã estou morto.

- Os Mais Velhos não aprovaram as visitas.

- Olha! Como eu não consigo falar com os Mais Velhos, vamos combinar… hoje saio um pouco mais cedo para o quartel. Apanho-te na picada, longe do soba e da aldeia. Depois, vou deixar-te a meio caminho do Cucumbi, mas pelo caminho vais fazer o favor de me contar tudo o que sabes e eu prometo nunca falar no teu nome… concordas?

- Então? Como vai ser?

- Apareço na picada, onde há mais areia.

Quando subiu para o Unimog… de imediato agradeci a atitude e afirmei: - Nunca vou falar no teu nome.

- A mensagem não é minha…

- Eu sei quem enviou, não te preocupes… fala!

- Só sei o que está ser preparado com a condescendência do soba e sob o pretexto de uma visita a familiares… mas fala-se, que vão atacar, de surpresa, as vossas instalações, talvez no sábado, dia da Lua Escura, antes do dia nascer e enquanto estiverem a dormir. Se as sentinelas estiverem desatentas, vai haver mortos e feridos. A seguir às flagelações o grupo disperso junta-se na picada para montar uma emboscada.

- Agora, que já sabe tudo, o que sei, espero, que cumpra a sua palavra… quero ficar no cruzamento das picadas.

- Ficas longe do Cucumbi e é quase noite! Não é perigoso?

- Assim é melhor, ninguém nos vê. Não se preocupe…tenho autorização para circular, família no caminho e uma arma para me defender.

- Obrigado… és um homem… grande!

Tive uma noite em claro, cheia de pensamentos e de emoções, mesmo depois da conversa com o Furriel Marques, que me garantiu duas viaturas, uma Berliet e um Unimog, para o nosso regresso durante a manhã… à tarde o Unimog era preciso para uma recolha na mata.

No destacamento, sem que alguém se apercebesse, falei com os furriéis Santos, Gomes e Canossa sobre o regresso ao quartel.

Abordei superficialmente:

- A situação dos guerrilheiros, que vinham a caminho para visitar familiares;

- As benfeitorias terminadas há semanas.

Desconhecemos a verdadeira intenção dos visitantes e como não temos nada de nosso aqui, a prudência diz-me que é o momento certo para partirmos… antes que alguém se aleije ou fique entregue à sua sorte.

Portanto, vamos agir com naturalidade… deixar, que todos terminem o pequeno-almoço e, como é o costume, entregar aos miúdos o café com leite e o pão para levarem para a cubata.

Quando o destacamento estiver livre de estranhos falem com os vossos. Digam-lhes apenas, que vamos regressar ao quartel e que ninguém está autorizado a sair daqui.

Quando os soldados souberam que íamos regressar, a azáfama instalou-se… antes das nove horas os pertences individuais já estavam nos sacos e os apetrechos empilhados na Berliet.

- Alferes, como é agora

- Diz, Vieira!

- Tenho tudo arrumado… posso ir despedir-me da namorada? Sou rápido!

- É preciso calma! Oiçam novamente… ninguém sai daqui para despedidas na aldeia ou noutro lugar qualquer!

- Mas alferes ….

- É uma ordem, depois falamos no quartel!

- Furriel! - Furriel Gomes, meta aí uma cunha.

- Parece-me, que não ouviste bem!

- Não olhes assim para mim… não me metes medo… se alguém sai, vai tudo “cu’caralho”… perceberam!?

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Chegámos ao quartel antes da hora de almoço, depois de uma viagem rápida e silenciosa.

Operação Perseguição

À noite, quando o comandante de companhia chegou de uma reunião com a OPVDCA / DGS no Cacolo, transmiti-lhe o que estava a acontecer na aldeia e a flagelação que, eventualmente, estaria preparada para o destacamento. Ficou muito desorientado com as informações e furioso pela nossa saída, que, diga-se, já estava combinada para aquele fim-de-semana.

Quando a vida não corria de feição ao capitão Perdigão, o indesejável companheiro de muitos, destilava ódio, castigava e, mais tarde ou mais cedo, o seu caráter ainda desencadeava uma vingança.

Apesar de estarmos a viver na mesma casa, nessa noite ouvi os maiores desaforos e a segunda ameaça de cinco dias de prisão, que voltei a recusar, por achar, que era um erro. Desta vez ultrapassou todos os limites na presença das senhoras e do meu filho… hoje, nada disto tem importância na minha vida, mas foi uma experiencia única e humilhante para um jovem com a personalidade em formação.

Por impulso, no dia seguinte, ao nascer do dia, o desorientado capitão dirigiu-se a António Cavula.

A imprudência, que substituiu o planeamento e a estratégia, podia ter sido fatal. Arrastou, consigo, alguns camaradas da sua confiança e outros… mais candidatos a heróis.

Com sorte, não houve a tal emboscada na picada, mas acabaram por ser recebidos a rajadas de kalashnikov.

Felizmente, regressaram ao quartel sem qualquer ferimento, mas muito “desasados”.

Salvaguardando a sua ambição de uma carreira militar e a patente… se ao respeito, entre camaradas, e à confiança, com quem se convivia diariamente, lhe juntasse o planeamento, a estratégia, a experiencia de quem andava semanalmente na mata e uma equipa musculada, aqueles indivíduos teriam sido apanhados à mão, naquele sábado.

O meu avô costumava dizer: Se quiseres conhecer alguém, dá-lhe poder.

Acabei por ser o “bombo” daquela frustração… e o motivo da inevitável vingança com mais um costumeiro castigo.

Mandou-me, escolher 10 homens, metade do grupo de combate e sair Domingo de manhã para a área de flagelação, durante quatro dias.

Parti com 10 voluntários, os do costume, pessoal fixe, e um cão. Fomos, sem euforias, para uma zona de mata, que eu conhecia muito bem e onde me sentia confortável… gostava daquela liberdade. Sem grande pressão procurámos vestígios, que confirmassem a retirada ou a presença dos guerrilheiros na região… não foi preciso procurar muito.

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Mesmo assim, como o contacto com os guerrilheiros poderia acontecer em qualquer momento, ajustei às circunstâncias o que aprendi com o grupo catanguês… principalmente a disciplina e o silêncio.

Também, para ajudar à nossa segurança, embora contra a vontade do camarada Hamilton, mandei silenciar, até ao último dia, a ligações via rádio.

No meu relatório, da operação perseguição, escrevi, que só havia, para assinalar, um rasto de sete indivíduos ao longo da picada, na direção da povoação de Cazoa. As marcas do calçado diverso e de botas eram evidentes.

Acrescentei:

- O ambiente na aldeia está calmo apesar de haver uma divisão de opiniões sobre os acontecimentos.

- Na versão da população, que gostava da nossa presença, os sete guerrilheiros, que chegaram no sábado vieram para fazer (maka) confusão. Os dois elementos desarmados, que já estavam na aldeia, há alguns dias, fugiram na direção do Dala quando ouviram os primeiros tiros.

- Na versão do soba, os guerrilheiros tinham vindo para visitar os familiares e ver as melhorias na sanzala.

- Numa terceira versão, a da população mais próxima dos Mais Velhos, dizem que estava tudo combinado para acontecer sangue no destacamento. Os chefes estavam instalados na aldeia há algum tempo. Do grupo, de nove guerrilheiros da UNITA, só cinco avançaram contra os do quartel. Depois dos tiros, dispersaram… são todos de povoações próximas do Dala, Ponte do Cassai e Cazoa.

Ao fim de tantos anos, ainda não consigo esquecer estes acontecimentos e a atitude miserável do soba. Depois de tantos sacrifícios para deixarmos a aldeia restaurada, com bons acessos, água potável e uma escola nova… merecíamos melhor.

Apesar de tudo, a todos devo muito… para o professor e o primo, não me canso de enviar a minha eterna gratidão.

A minha família regressa a Portugal

Depois das mudanças na ZML, dos últimos acontecimentos no destacamento e do ressurgir da guerrilha na região às mãos de uma UNITA transformada, a minha família regressa a Portugal.

As retaliações do movimento de Savimbi, que reuniu todo o seu arsenal militar contra posições portuguesas, eram indiscriminadamente mortíferas, como por exemplo o ataque em Dueja e Kuete, onde matam 19 militares, queimam sete viaturas, recolhem material de guerra e de comunicação… um dos mais violentos ataques de que não havia memória.

Quis o destino, que o avião, que nos levaria do Alto Chicapa a Henrique de Carvalho, fosse abatido antes de chegar… logo após a saída da localidade do Lumege.

Sem transporte, para chegarmos ao voo de ligação entre Henrique de Carvalho e Luanda, valeu-nos a amabilidade do Sr. Capela, o comerciante local, que nos facilitou o aluguer do seu idoso Land-Rover de caixa aberta e a disponibilidade do comandante Perdigão para emprestar um bidão com 100 litros de gasolina.

Tinha informações e provas de que a guerra andava por ali, cada vez mais ativa e com grupos de guerrilheiros nas proximidades, prontos a matar.

Achei, mesmo assim, que alguma informalidade na partida e muita concentração no percurso seriam suficientes.

Aos camaradas Alberto, Teixeira e Canelas, que se prontificaram a ajudar-me durante a viagem, solicitei-lhes o máximo sigilo… até com os amigos.

Saímos, ao anoitecer. Embora armados até aos dentes, o nervoso esteve sempre presente num ambiente noturno e misterioso com neblinas muito baixas, que pareciam encomendadas.

O nevoeiro denso acabou por ser a nossa maior dificuldade nas picadas de terra batida…quando se adivinhava um buraco já lá estava outro.

Naquela época, sem luz nas localidades, sem mapas, placas de referência, marcações e um nevoeiro intenso, o instinto era o nosso GPS. Como a estrada de alcatrão tardava, parei para reconhecer a zona. Quando saí daquela viatura, estremeci e não queria acreditar… tinha acabado de atravessar a estrada de alcatrão… na minha frente havia um imenso abismo.

Ultrapassadas as primeiras complicações, a bênção do nevoeiro, que camuflou todo o nosso trajeto, em tempos de guerra, foi a ajuda inesperada para um regresso seguro, da minha mulher e do meu filho, a Lisboa.

Fim da Comissão

Quando se entrou no período próximo do fim da comissão o pessoal começou a acreditar, que ia chegar inteiro ao “Puto”.

Começava a procura de recordações… uns panos estampados (quitenges), imagens esculpidas em madeira, garrafas de whisky, tabaco… e o grande frenesim dos caixotes, para o Silva, o nosso carpinteiro, os fazer.

Porem, o final não ia ser fácil. As últimas informações do meu “cuidador”, em Março (1974), já deixavam entender um provável adiamento da nossa rendição devido à instabilidade política em Portugal, confirmada mais tarde com a revolução de 25 de Abril e pela mudança de regime na governação portuguesa.

Num sítio longe dos centros de decisão e com comunicações limitadas, obrigou muitos de nós a repensarem o futuro das suas vidas.

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Em fins de Maio, chegou o dia, o grande dia da rendição e de rumar até Luanda.

Parecia um sonho tornado realidade… estávamos vivos, mais velhos e cansados.

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No meu imaginário já revia Luanda… contava com um pequeno e merecido descanso… a tal cidade que ainda fervia de vida, com as suas praias, os restaurantes da ilha, os cinemas ao ar livre, como o Miramar, e um ambiente frenético, onde todos se alheavam completamente, que a umas centenas de quilómetros havia ainda uma luta armada e que estavam a germinar os primeiros focos de uma guerra civil.

Sá da Bandeira

Com alguma surpresa, a minha “missão” e a do furriel Coimbra, em Angola, ainda não estava terminada.

Fomos eleitos para percorrer em velhas camionetas de carga uns adicionais e longos 2.000 quilómetros (ir e vir) e entregar no Regimento de Infantaria, em Sá da Bandeira, os soldados do contingente de Angola.

Sá da Bandeira era uma cidade situada num planalto, que me impressionou muito. A zona antiga, que visitei à noite, estendia-se desde o Palácio do Governador e do Banco de Angola até ao quartel, passando pela câmara municipal, a igreja da Sé, o parque infantil (com um zoo em miniatura) e um jardim, com lagos onde ao anoitecer se passeava para lá e para cá.

Havia muita população de brancos por toda a cidade.

Uma cidade quase perfeita para a época com um Liceu Nacional, o de Diogo Cão, a Escola Industrial e Comercial, o Grande Hotel da Huíla ao estilo colonial e um Hospital.

O parque da Senhora do Monte, com jardins, um lago, que era mais uma piscina ou praia, um casino, onde assisti a um espetáculo, numa noite de riso, com o madeirense Max e a sua Mula da Cooperativa. Na encosta vizinha, lá estava a Capelinha da Senhora do Monte.

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O Daniel Velosa, um camarada de armas do contingente angolano, a residir na cidade, foi o meu guia, o melhor de sempre... num cansado VW carocha alugado "voámos" por tudo o que era aldeias, arredores e por rios sem pontes... a Humpata, a fenda da Tundavala, com 700 metros de fundura, a Serra da Leba a 1800 metros acima do nível do mar, com a sua estrada em serpente...

Cheira bem, cheira a Lisboa

Com a nossa chegada de Sá da Bandeira, a Companhia ficou completa e reunida no Campo Militar do Grafanil em Luanda.

No dia 05 de Junho meteram-nos num avião, fretado à TAP.

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Regressámos a Lisboa.

O comandante com outros camaradas, ainda ficaram mais uns dias para tratar da chamada liquidatária da Companhia e do fecho das contas nos Serviços de Contabilidade e Administração.

Durante a viagem, meditei sobre os dois anos e meio de vida militar, da estranha guerra de guerrilhas em Angola, o tempo perdido, os locais por onde andei e a liberdade, que sentia nas matas.

Naquele avião, terminava uma guerra e começava outra… para outros ritmos e outros hábitos… procurar trabalho, cumprir horários e ganhar a minha independência.

Ficaram as memórias dos momentos de felicidade a contrastarem com as passagens negras onde, mesmo assim, houve uma saudável, sincera e desinteressada colaboração… momentos, que enriqueceram as nossas vidas e nos deram mais força para continuar.

Ao sobrevoar Portugal, ainda me arrepiei quando se cantou até chegarmos à pista de aterragem, em Figo Maduro / Lisboa, a canção "Cheira bem, cheira a Lisboa...".

Quando saí do quartel RALIS, tinha terminado a minha odisseia.

Já à civil, tudo parecia ainda um sonho… estar em Lisboa, o cheiro a mar, o brilho do sol, o Verão, os jornais, os cinemas…

Passados estes anos, ainda tenho consciência, que, quando regressei, não era o mesmo… a vida deu-me luta, obrigou-me a desafios e aprendi a saber o que não quero.

Restam 150 euros do Império… e não só

Termino estes quatro capítulos entre sentimentos de saudade e revolta, contrastando com a minha vontade de voltar atrás, viajar no tempo, numa espécie de regresso ao passado, para poder abraçar os que comigo partilharam os momentos em que estivemos envolvidos, maioritariamente como voluntários à força.

Falem, contem ou escrevam sobre o ocorrido, porque só assim se mantêm vivas as memórias de um tempo que não pode ser ocultado nem, sobretudo, ser negada, a parte dos melhores anos da nossa juventude.

Estarei a ser injusto? Afinal, ainda me restam do Império 150 euros anuais, antes de impostos!

Fico com a convicção de que me esforcei por este objetivo a que me propus, reconhecendo que ainda fica muito por dizer. Nada se esgotou aqui, muitas páginas minhas e de outros camaradas ficarão por escrever.

Merecem uma referência particular os amigos, os verdadeiros e os leais camaradas, e a desinteressada amizade, que ainda hoje nos une e resiste com a mesma vivacidade ao tempo e à distância.

Numa Angola “profunda”, muito no interior, não esqueço aquele povo bondoso e arredado dos conflitos de interesses dos movimentos armados, homens, muitas mulheres e ainda mais crianças, que nos receberam tão bem.

Ainda há poucos meses, ao telefone, um leitor e amigo dos tempos do quartel em Chaves, mas de outra guerra, Moçambique, me dizia: Ainda recordo com admiração a minha lavadeira, que me acompanhou todo o tempo no mato e em duas regiões distintas… foi preciosa a cuidar e a defender, conheci a sua cultura e os seus costumes, como ninguém.

É verdade, África tem uma magia inexplicável… também sobre mim… foram os cheiros, os batuques, os sons (até o trabalhar do gerador à noite), a simplicidade do povo quioco, o soar do clarim do Virgílio, o barulho das hélices do avião, que trazia as notícias da família… que aos poucos se entranharam e me acompanham durante todos estes anos, gerando um sentimento único… saudade.

Sem querer esquecer ninguém, faço questão de recordar:

- O excesso de rigor a que estivemos sujeitos, com a desculpa da manutenção da disciplina… não era preciso tanto, não eramos um bando de anormais, nem uns fora‑da‑lei;

- As carecadas dos furriéis… a luta improvável;

- Quando libertei um camarada amarrado a um eucalipto e recebi de volta a primeira ameaça de 5 dias de prisão;

- O Alferes Coelho… sem emoções;

- O Primeiro-sargento Ledo Teixeira, uma agradável presença… lembrava-me o meu pai;

- Os “meus” Furriéis, o Alfredo Gomes, o José Canossa e o José Santos (o saudoso menino branco) … não podia ter tido melhor companhia;

- Os camaradas sinceros, do dia-a-dia, que nunca me abandonaram na mata e a quem nunca ouvi um não, o Nuno Pereira, o Hamilton Castro (transmissões), o José Sousa, o Luís Carvalho (enfermeiro), o José Costa, o Daniel Velosa, o Augusto Teixeira, o Fernando Freitas, o Fernando Conceição, o Mário Vieira, o António Alves, o António Alberto, o António Pinheiro, o José Quirino, o Ilídio Canela, o José Novo, o Cassiano Gonçalves e mais seis bons companheiros do contingente angolano, que omito os nomes, intencionalmente;

- Do meu cuidador, um beirão vaidoso, um bom amigo dos velhos tempos (falecido), que se despiu de preconceitos, na sua guerra de gabinete e de papéis, de quem eu beneficiei da sua confiança e da boa vontade, com ajudas e avisos;

- O Manuel Carvalho (enfermeiro) e a enfermaria, as paixões do meu cão Buda;

- As estafadas viaturas e os milagres que aconteciam na equipa do Furriel Marques… só aquele radiador reconstruido à mão, bastava para acreditar;

- O Furriel Victor, que, com muito pouco, fazia muito para o nosso bem-estar alimentar… aquele pão grande, que, quando sobrava, levava para a mata, ainda hoje lhe sinto o sabor… obrigado;

- A equipa de transmissões sempre atenta aos nossos movimentos no mato e o Furriel Chagas, aquele bom gigante cuja imagem de um não guerrilheiro não pretendo esquecer;

- O Alferes Boavida, um durão… a oferecer “tareias”, mas no fim até dava a camisa;

- O Alferes Monteiro, que nos intervalos da guerra era um trabalhador incansável nas obras… acabou incompreendido, desprezado e atirado para longe… ainda hoje desconheço o porquê de tanta intolerância; e

- Finalmente… todos… que souberam estar ou deixaram as suficientes boas recordações para, agora, passados tantos anos, lembrarmos a saudável, sincera e desinteressada colaboração vivida em momentos de precariedade e de amizade desinteressada.

A todos, a Nzambi e aos Espíritos da mata… devo muito!

Carlos Alberto Santos

www.cc3495.pt

Alto Chicapa (parte 2), a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 16.10.20

Férias no Puto

No início de 1973 fui de férias, da guerra até ao “puto” (Portugal), numa longa viagem de 40 dias, 4 dias em Henrique de Carvalho (2 à ida e 2 no regresso), 6 dias em Luanda (3 à ida e 3 no regresso) e 30 dias em Lisboa com a família.

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O descanso, os passeios… os dias de férias passaram rapidamente e muito mais depressa do que eu estava à espera. A vida civil deixou-me sem grande vontade de regressar, mas o dever, de um voluntário à força, chamava-me novamente para o interior de Angola.

A saborosa bica no “Xico Careca” (Pastelaria Restelo, se faz favor!), em breve, seria substituída por outra, que só por dificuldades da máquina, não seria tão boa, mas facilitaria a continuidade de um vício, que muitas vezes era complementado com uma aguardente 1920, em balão aquecido.

No meu regresso à guerra, o pequeno avião, que me transportava da cidade de Luanda para a cidade de Henrique de Carvalho (Saurimo), desviou para a cidade de Silva Porto (Kuito) devido a uma tempestade tropical. Pernoitei no pequeno Hotel Girão. Da cidade… só me lembro o largo junto ao hotel e de uma casa de família, a que chamavam de “Meiaonça”.

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Ao jantar, o empregado, que apoiava o pequeno serviço às mesas, um pouco “abichanado” mas muito simpático, acercou-se de mim e junto ao ouvido, confidenciou:

- Hoje, é a noite das mulheres de fogo! São 50 do “puto”… no melhor sítio e com a minha companhia!

- Obrigado. Amanhã tenho que sair cedo e também já vi disso nos bares em Luanda.

- Não! Não! Esta é uma festa anual, da boa, é dança de preto, mesmo! É seguro!

Pela educação do moço, acabei por aceitar… eramos jovens. Quando chegámos, depois de um pequeno trajeto a pé, reinava um intrigante silêncio, entrecortado a espaços por vários e misteriosos ruídos, sem origem definida, parecendo os fantasmas de um povo residente na selva.

De um lado, havia tocadores de gomas e tchinguvos (tambores), ágeis e fortes nas suas pancadas, e do outro lado, vários tocadores de quissange (instrumento de palhetas) com sons e melodias doces. Ao centro, alguns homens seminus com vozes roucas, em coro forte e ritmado, eram acompanhados por um coro invisível de vozes femininas.

Mais longe, outro grupo de mulheres responde entoando sons parecidos.

Momentaneamente, os tambores começam a tocar muito fortes, as vozes dos homens tornam-se mais claras e precisas e, ao fundo, o outro coro de vozes femininas torna-se empolgante e arrepiante.

Repentinamente, surgem chamas e faúlhas de todos os lados, iluminando a noite, e as mulheres até aqui escondidas, aparecem sem panos, envoltas nos pulsos, nos tornozelos e na cintura com um material herbáceo a arder e a produzir uma chama azulada.

As atitudes, o fogo, os bailados, os sons dos chocalhos e das argolas, dos tchinguvos e dos quissange, formavam uma beleza rítmica impressionante, ao ponto de até o ar parecer fosforescente e fantasmagórico.

As mulheres de fogo, cada vez mais próximas de nós, insistiam nos movimentos sensuais e num bailado a simular o orgasmo, como estivessem a ser possuídas por uma divindade da dança glorificando a nudez sem complexos e a criação da vida.

Num cenário natural, nunca pensei viver momentos de arte, com origens tão primitivas.

De madrugada, noutro avião, maior, rumámos para Henrique de Carvalho, sem sobressaltos.

Como os anteriores, este texto continua a abordar a singeleza da vida, sem esquecer que fui um dos muitos militares milicianos que passaram por Angola sem sonhos de carreira e que a tais memórias me devo dedicar liberto de rancores e com um olhar calmo e enternecido.

As reflexões, deixo-as a outros, mais doutos.

Dizem, que em Portugal, por cada ex-combatente, que morre, uma biblioteca arde.

Cheguei dias depois ao Alto Chicapa por volta da hora do almoço, aproveitando o favor (pago) do desvio de um avião monomotor.

Mal tive tempo para me apresentar ao comando… a sala de refeições, que eu bem conhecia, esperava por mim para o almoço na companhia de personagens da OPVDCA / DGS… as comodidades eram uma mais-valia, que nos faziam sentir bem às refeições e, também naquele complemento, no bar, com café e bebidas… num espaço muito agradável e bem cuidado pelo camarada Sousa.

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Foi sem grandes motivos de alegria, que passei ou passámos o primeiro ano de tropa naquele mundo cheio de mistérios, com outros valores muito primitivos, numa região isolada e muito pobre onde se travava uma luta constante com a natureza, para a sobrevivência. Num raio de 200 km, existiriam, talvez, meia dúzia de europeus civis.

Durante aqueles meses, apercebi-me que o povo sofria em silêncio… com os fantasmas dos feitiços, com a prepotência do chefe de posto e dos seus cipaios e com a ignorância dos colonos e dos militares a cilindrarem tradições e a deslocarem estrategicamente as aldeias.

Temporal

À noite, no meu quarto, enquanto lia A Selva, de Ferreira de Castro, a luz do gerador desapareceu na sequência de um enorme relâmpago.

A seguir, um violento temporal desabou mesmo por cima de nós, numa infernal barulheira sobre as chapas de zinco. Foram horas e horas de chuva e trovoada. Em qualquer cidade seria uma catástrofe.

A meio da manhã, recebemos a informação de que a região continuaria sob o violento temporal.

A área do aquartelamento transformou-se num enorme lamaçal, as picadas próximas ficaram cortadas em vários sítios, as pontes destruídas pela força da água e a pista do avião cheia de sulcos. Um dilúvio, que nos deixou ainda mais pobres e sem o abastecimento semanal dos alimentos frescos.

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Ao fim de duas semanas os géneros começavam a ser escassos e a ridícula verba disponibilizada pelo estado português não dava para compras extra.

Tínhamos entrado no ano de 1973, com a época das chuvas a causar muitos aborrecimentos. Era o mau estado das picadas, a dificuldade em circular com as viaturas e a falta do abastecimento e do correio. Aliás, o responsável pela gestão dos alimentos já vinha há algum tempo alertando para o facto de estarmos com poucos géneros, com défice orçamental, e com uma verba que não dava para compras extra. As refeições dividiam-se entre feijão guisado, esparguete com água e sal, e atum ou cavalas de lata.

O furriel Vítor, o vago mestre, foi perentório:

- Aqui não se fazem milagres!

- Estou farto de pedir, mas não mandam o que necessitamos!

- Não há viaturas que venham ao Alto Chicapa e o avião não pode aterrar na nossa pista!

- Como o tédio parece abundar e as noites custam a passar, proponho uma caçada na zona para reabastecer as arcas frigoríficas e modificar as magras dietas.

Caça

Éramos quatro num Unimogue a gasolina e quatro G3, uma caixa de ferramentas, uma espingarda mauser, do tempo da segunda guerra mundial, e um farolim. A natureza era generosa… conseguimos a carne que o exército nos deveria fornecer.

Regressámos por volta das duas da madrugada com duas peças de caça, um animal de bom porte, um burro do mato com cerca de 120 quilos, e uma gazela com cerca de 20 quilos.

Nunca gostei de caçadas, mas neste caso, a necessidade falava mais alto e em consciência, foi mesmo apenas o necessário.

Quando chegámos ao quartel, os mais curiosos interromperam o sono para verem o resultado.

No entanto, ainda nos atormentava a falta do correio, que, em condições de bom tempo, a pouco menos de uma hora de voo, vinha uma vez por semana, pela parte da manhã, no pequeno avião desde a base aérea em Henrique de Carvalho.

Apesar dos estragos, e da urgência nas reparações das picadas, nas pontes e na pista do avião, as operações e as patrulhas não podiam parar.

Sorte e Contrariedades

Sem mortes, feridos graves ou acidentados nas nossas 79 operações, ficou para recordar a sorte, que nos acompanhou, e algumas contrariedades, que não foram mais do que isso… soubemos ser disciplinados e prudentes. A todos devo muito.

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A jiboia

Quando iam abastecer os cantis de água, ficaram estáticos a meio do percurso… frente a frente a um monstro de cabeça levantado à altura de um homem.

O Cassiano, era o último do grupo. Voltou atrás a pedir ajuda.

Ficámos à prova, numa situação inédita e que teve que ser tratada com pinças.

Com algum sangue frio, abati o animal com dois tiros na cabeça, um ao lado do outro.

Mais calmos, e passada a surpresa, confrontámo-nos com uma jibóia, com mais de seis metros de comprimento e palmo e meio de largura, um bicho lindo e respeitável, daqueles que só se vêm nos filmes.

Sem o sabermos, a sorte esteve do nosso lado… só não fomos atacados ou mordidos devido ao facto de a cobra estar com uma cabra inteira dentro da barriga, com cornos e tudo.

O Buda ataca

O ataque do meu cão Buda sobre três nativos, que tentavam passar dissimulados.

Estávamos muito afastados do nosso quartel, junto à nascente do rio Chiumbe, numa zona de guerra onde era proibida a circulação de civis.

Num abrir e fechar de olhos, o cão sai disparado sobre os três indivíduos, que ficaram sem reação. Hoje já não me lembro como é que tudo acabou, mas recordo-me… conforme o cão avançava ouviam-se vários gritos, Buda euá, Buda euá, Buda euá … (Buda vai-te embora).

Percebi, que o cão foi reconhecido… não percebi a ausência de tiros e a nossa passividade.

Pensando melhor… o Buda era um cão conhecido e temido pelos nativos… foi bom para nós e para eles, que acabaram por fugir.

Formigas térmitas

O ataque das formigas térmitas, que durante uma noite comeram silenciosamente parte dos panos de tenda, calças, o fundo dos sacos mochila e até os elásticos das cuecas.

Formigas quissonde

Sem sabermos, paramos num território de formigas quissonde… o corpo fino e avermelhado, uma cabeça relativamente grande e duas fortes mandíbulas que se cravam facilmente na nossa pele… lentamente começaram a andar pelo interior das nossas calças e botas… de uma forma telecomandada somos todos mordidos violentamente e quase em simultâneo como uma descarga elétrica.

A aflição instalou-se, foi necessário tirar as roupas para aliviar as dolorosas ferroadas e retirar as formigas, uma a uma… mesmo só com a cabeça e as mandibulas agarradas ao nosso corpo. Pelo que aconteceu, o ser humano ou outros animais em dificuldades, seriam devorados vivos.

A fuga dos carregadores

Num trajeto no rio Chiume apercebi-me que os carregadores andavam nervosos. Faziam de tudo para não continuar, diziam-se doentes, sem forças, e que estavam em lugares de feitiço. Durante a noite, fugiram.

Acabou por ficar o carregador principal, o Sá Moço e mesmo assim com muitas dores de dentes. Devido às fugas, não acreditámos nas suas queixas… para se livrar daquele tormento meteu na boca uma rudimentar faca e arrancou, assim a sangue frio e pela raiz, um grande dente cariado.

Perdidos na mata

Numa das primeiras saídas para a mata, sem saber bem como, em determinado momento deixei de ter locais para referência, o mapa não conseguia ajudar, os carregadores não se entendiam, e não havia meio de se encontrar um trilho ou um simples regato para orientação.

À nossa volta, havia um denso e alto arvoredo e um terreno arenoso sem vegetação. Nunca consegui encontrar uma explicação para todo aquele desatino.

Ao quinto dia já andávamos a comer ração de combate a meias e algumas folhas.

Ao sexto dia, sem comida e com alguns raspanetes do capitão, via rádio, lá conseguimos chegar a um pequeno curso de água que nos orientou e nos permitiu após uma longa caminhada chegar à picada de Luma-Cassai e enviar as coordenadas certas para a recolha do grupo.

Decidiram a recolha para um dia depois (o poder instalado, mandava), deixaram de responder aos nossos contatos via rádio (dividir para reinar) e quando entrámos esfomeados no quartel recebi o reconforto, mais filho da puta, da minha vida: Daqui a três dias volta para a mata!

Andar de roda

O dia, em que estivemos a passar no mesmo sítio, uma vez, duas vezes, e à terceira… ouve-se a voz do furriel Gomes… porra, já passei por aqui!

O Buda perdeu-se

Entre o rio Cuilo e o Luchico, o meu cão Buda desapareceu. Como nunca tinha acontecido, tememos o pior… comido por uma onça, mordido por uma cobra ou preso numa armadilha.

Fizemos de tudo para o encontrar.

Em desespero, retardámos os nossos movimentos, deixámos vários pedaços de roupa e outros materiais, que ele bem conhecia, como por exemplo o líquido fortificante dos enfermeiros esfregado nas folhas ao longo do trajeto.

Íamos para a segunda noite de angústia… o Teixeira, que estava numa sentinela mais avançada deu um sinal de alerta e de perigo. Estavam a rastejar na nossa direção. Movimentamo-nos em auto defesa, mas ato contínuo o Cabo Novo grita: - Calma pessoal… é o Buda, é o Buda. Anda Buda! Logo que ouviu o seu nome levantou-se, avançou e imediatamente demonstrou todo o seu contentamento, entre lambidelas. Parecia muito cansado e magro, mas a sua felicidade parecia maior do que a nossa.

As raízes do Sá Moço

Durante uma pausa, encontrei o Sá Moço a contemplar o horizonte, perdido no tempo e a mascar raízes (já sabíamos, que era um consumidor frequente de afrodisíacos naturais).

- É bom?

- Sim! É remédio para dar força! As mulheres esperam-me!

- As quatro?

- Sim, todas! As mulheres são ciumentas e não se pode adiar a visita conjugal. Pedem para ser contempladas, de igual modo.

Quando o confrontei pelo excesso de afrodisíacos, respondeu-me:

- Tudo o que sirva para estimular o pénis (lukutu) e excitar a vagina (sundji) é bom, porque um homem ou uma mulher sem desejo, são cadáveres vivos.

Matacanha

A meio da manhã, no bar do quartel, entre uma cerveja e uma sempre saborosa sandes de chouriço, comecei a sentir algum desconforto no meu pé direito. Mais tarde, na enfermaria, fiquei a saber que estava com duas matacanhas, uma no calcanhar, quase do tamanho de uma ervilha, e outra muito mais pequena debaixo da unha do dedo grande.

A matacanha é uma espécie de pulga penetrante.

Naquela época, os nativos eram os únicos e os verdadeiros médicos especialistas no tratamento destes parasitas. Um pouco a medo, aceitei a ajuda de um indivíduo da sanzala, que confirmou: - São dois ninhos.

Sujeitei-me a uma pequena “intervenção cirúrgica” com um rudimentar pau muito bem afiado na ponta e desinfetado ao fogo. Com tempo e muito cuidado, tirou uns sacos sem os romper. Continham, o respetivo animal e umas centenas de ovos. No final, encheu os buracos com petróleo e cinza retirada de uma fogueira.

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Sem sangrar, ficaram apenas dois orifícios no pé.

Mais tarde, com a ajuda do enfermeiro Luís, do Dr. Vila Verde e com uns comprimidos (LM), o meu pé recuperou completamente.

Passeio a Henrique de Carvalho

Fui em “passeio” a Henrique de Carvalho. O pouco tempo passado na civilização, de uma pequena cidade, não compensou o desconforto da viagem e um trajeto tão longo.

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No entanto, aproveitei o momento de ócio para rever dois velhos camaradas de Mafra, os Alferes Duro e Saldanha, colocados na sede do batalhão.

Convidaram-me para a cervejaria Bonina(?), junto ao cinema Chicapa(?). Passámos em amena cavaqueira junto ao edifício do governador, aos jardins, à igreja e numa rua ladeada por estabelecimentos comerciais junto à avenida principal.

O petisco era excelente, mas a conversa foi o melhor. Comemos um bife de asas (a sair do prato), muito bem temperado com gindungo e um molho com óleo de palma e leite de coco, acompanhado com muitas batatas fritas, um pão grande acabado de fazer e umas garrafas de vinho verde Gatão (muitas).

- Carlos, então?

- Está tudo ótimo… é de chorar por mais… não há disto no Alto Chicapa.

- A sobremesa… vai ser ali, mais à frente, na pastelaria (?)… onde o chouriço, até vira paio.

Ficámos instalados junto à vitrina dos bolos… sem qualquer pedido feito, fomos logo atendidos, por uma das filhas do patrão... três cafés e duas aguardentes velha antiqua, em balão aquecido.

Eram duas irmãs, com roupas justas a realçar ainda mais os seus corpos, mas não precisavam… eram as rainhas da casa e as delícias dos clientes… vindos do mato tinham tratamento especial… e como elas sabiam ser cúmplices do acréscimo de tesão, que nos percorria o corpo.

Acabei a noite no cinema com outros camaradas. Cheguei atrasado… mesmo no momento em que as luzes se apagavam. Só deu para ver uma sala quase repleta de militares.

A sessão, começou com um noticiário / documentário sobre o império e o mundo e alguns desenhos animados, que ajudaram à boa disposição.

Depois do intervalo, começou o filme, Um Dólar Furado, uma história de cowboys, que agradou a todos e foi certamente o tema das conversas nos dias seguintes. No final, houve uma salva de palmas.

Ainda fomos beber umas cucas... mas com os vapores de Baco já trocavam tudo… até tinham ouvido, à saída do cinema, duas, das muitas pulgas existentes na sala, a decidirem: - Vamos a pé ou num tropa.

Malta! Não podem esquecer… hoje é dia d’ânus… a Teresinha arrumadora está com o período …, ih! ih! ih!

Agora, era o tipo do peido... saíste antes de tempo! Já não vês o filme ….

Irra… não há outra conversa... vai outra rodada?

Abandonei o grupo, para aproveitar algumas horas de sono, antes da partida para o Alto Chicapa. Esperava-me muito asfalto e o grande desconforto da picada.

A nossa coluna era composta por duas viaturas, um Unimogue a gasolina, onde ia o condutor, o capitão, o correio e alguns géneros alimentares, e uma Berliet com um condutor, eu, dois furriéis, três soldados, muitos sacos de cimento e alguns cartões com ovos.

No regresso a casa, o trajeto parecia ser melhor e até o condutor estava com o pé mais pesado… era o desejo de chegar ainda com dia.

Na Vila do Cacolo, antes de entrarmos na picada, petiscámos na Tasca do Mais-Velho. Comi um arroz malandro de bacalhau, único e delicioso, com cerveja gelada. Dei pela ausência do capitão… já sabiam, era assim mesmo nesta altura do percurso, com ou sem petisco, não esperava e continuava para o quartel.

Praticamente no final da nossa viagem, um pouco antes da descida para a sanzala do Cambatchilonda, numa zona reta onde a picada plana convidava para mais velocidade, um troço de areias e lama obrigou à troca para uma mudança mais segura. Sem explicação a viatura vira para o lado e sai da picada. Valeu a travagem e a destreza do condutor. Uma das rodas ficou bloqueada. Não houve estragos na carroceria, nem ferimentos… incluindo os ovos.

Ficou para a história uma reparação fora da picada e uma longa noite passada com os mecânicos Ferreiro, Barradas e Morgado, que tudo fizeram para resolver a avaria com um recuperado material, muito gasto, e não esqueço a ajuda providencial de uma árvore, no lugar certo, para estaca do guincho.

Torneio de Futebol

Com os equipamentos, que tinha trazido de Lisboa, camisola laranja às riscas e calção branco, inaugurámos o campeonato interno de futebol de onze. O nosso primeiro jogo, foi contra a CCS (o pessoal do arame farpado).

Os escorpiões do 1º grupo de combate, estiveram insuperáveis num grande jogo com certeiros remates do Canossa, Gomes, Miguel e Neto, que nos permitiram alcançar uma estrondosa vitória por seis bolas a duas.

O João, era o nosso guarda-redes das grandes defesas, no entanto a esta distância já não consigo reproduzir qualquer momento dos jogos… exceto quando o nosso homem, o das grandes defesas, abandonava o jogo para ir à casa de banho.

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A circuncisão dos rapazes e a iniciação das raparigas

Como, em 1973, o ambiente entre as NT (nossas tropas) e as populações ainda era de mútua confiança, fui convidado a participar na festa da circuncisão dos rapazes, e na iniciação das raparigas.

A circuncisão dos rapazes

A circuncisão dos rapazes, acontecia aos catorze anos na “mukanda”, onde lhes eram, também, ministrados todos os ensinamentos.

Durante alguns dias haverá uma enorme atividade que gira em redor do rapaz, dos pais, do operador, do ajudante e do professor. No final do serviço, há sempre um pagamento obrigatório, geralmente feito em animais domésticos, bebidas, ou outros bens.

Tudo acontece num cercado redondo com uma única entrada que fica virada para a aldeia, a “tchifwa”. Lá dentro, existe uma pequena palhota destinada à mulher mais idosa da aldeia (uma mulher pura sem relações sexuais) a quem compete a preparação das refeições para que os circuncisados não emagreçam, não adoeçam ou morram.

Na véspera da entrada dos rapazes, logo que anoitece, todos os casais da aldeia e outros estranhos convidados vão para dentro do cercado onde acendem varias fogueiras, junto das quais se sentam, dançam, gozam a vida, comem e bebem.

Quando se ouvem os sons do batuque, começa a dança da circuncisão, a “tchisela”, a noite propiciatória e licenciosa, como diziam. Era o início de todas as liberdades, onde todas as brincadeiras são permitidas. Nesta noite, não há casais, não há adultério, apenas homens e mulheres. É a noite dos amantes, em que a todos é permitido divertirem-se com a sua mulher ou com outras. Para que não haja dúvidas, o chefe da aldeia informa todos… ninguém pode provocar desordens ou estragar a alegria… se não concordarem saiam. As relações sexuais consentidas, procuradas ou toleradas, nesta noite, são todas praticadas fora do cercado, e só, até ao nascer do dia, quando acaba a dança da circuncisão.

Logo que nasce o sol, o chefe da aldeia, acompanhado de todos, rezam aos espíritos dos seus antepassados para que tudo corra bem e livre os circuncisados de toda e qualquer doença, feitiço ou mal.

Depois, os operadores, os seus ajudantes e o “mukiche” (mascarado), abrem outra saída no cercado, no lado oposto à única existente, por onde vão sair a fim de procederem ao corte dos prepúcios. Com os braços prendem-nos, e a cabeça é virada para o lado para não verem a operação, que é feita sem anestesia ou outros cuidados anti-inflamatórios. O “mukiche” guarda o local da operação, para evitar que profanem o recinto da circuncisão.

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Depois de operados, ficam em fila virados para nascente completamente nus com o pénis a sangrar.

Para acalmar a agitação, o medo e a dor, colocam na cabeça argila branca bem molhada e para parar o sangue, põem sobre o golpe, um pouco de pó proveniente de plantas.

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Por fim, os iniciados dormem três noites ao ar livre junto de uma fogueira, e depois dentro de umas palhotas, que construíram. Assistem ao nascer do Sol e pedem para que lhes dê fecundidade e potência sexual.

A partir da data da circuncisão, passam a ser considerados homens e adquirem o nome definitivo.

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Iniciação das raparigas

Ao contrário do que aconteceu com os rapazes, em que tive muita liberdade para participar, a iniciação das raparigas, depois de me informarem o que costumava acontecer, disseram-me que apenas estava convidado para a parte final.

Contam: Tudo acontece quando a adolescente tem a primeira menstruação e foge para o mato longe da vista dos homens. Uma das mulheres adultas da aldeia, a que chamavam de mestra, procura a jovem e leva-a para junto de uma árvore e aí mantêm-na acocorada. Dá-lhe umas raízes a comer e leva-a tapada para a casa das menstruadas, fora da aldeia. A iniciação dura uma semana, na companhia da mestra e de uma virgem, com quem dorme. A mestra ensina e exemplificava o verdadeiro comportamento nas relações sexuais, a prática dos movimentos da vagina e as técnicas para a obtenção do máximo prazer. Cada lição de aprendizagem só termina quando a aluna atinge o orgasmo. No corpo da iniciada, também são feitos alguns golpes transversais, acima da púbis, nas costas, cintura e rins. Estas linhas, têm finalidades eróticas, excitantes e indicam onde o homem deve colocar a mão esquerda durante o ato sexual.

A parte visível, só acontece quando termina o fluxo menstrual. A iniciada é lavada no rio e pintada de branco. É levada para a casa da família ou do marido, onde lhe dão o nome definitivo. Nesta altura passa a dormir com o marido, mas só na terceira noite lhes é permitido ter relações sexuais.

Independentemente da anterior vida da jovem, com ou sem relações sexuais, o que contava para a mulher era o dia da menstruação e efetivamente o inicio da sua verdadeira vida de casada.

Visita à aldeia de António Cavula

Enquanto se preparavam as infraestruturas para a instalação do novo destacamento em António Cavula, fiz uma visita à aldeia. A meu pedido, esta foi previamente preparada pelo professor. Fui conhecer em pormenor os limites da aldeia, as entradas, o soba, alguns dos mais velhos e o adivinho ou “tchimbanda”.

Foi uma visita estranha num ambiente aparentemente sem população à vista e cheio de ambiguidades… o soba e o filho, pareciam duas marionetas dos seus familiares, sempre indecisos entre os, que ainda estavam na aldeia e os, que já andavam na guerrilha.

No conselho dos mais velhos, foi tudo mais fácil, mesmo sem falarem, demonstraram por gestos a sua aceitação para a instalação do destacamento militar.

Quando chegámos perto do adivinho os meus olhos faiscaram nele… talvez devido às diferenças culturais ou à minha formação.

Apesar de tudo, quis saber mais e vê-lo em ação, quando fosse possível.

O momento aconteceu no tratamento de um homem doente. Começou o tratamento invocando os ídolos e os espíritos dos antepassados. No fim informou: Está enfeitiçado, deve fazer rezas, pagar com uma cabra e tomar o remédio (?), que encontra na mata.cestoadvinhação

Contaram-me:

- Quando a doença era mais pequena, o “roubo” era maior. Chamava-lhe uma “mahamba”. Neste caso o tratamento era feito por exorcismo com batuque e cânticos onde o “tchimbanda” e o assistente hipnotizam o doente. Mais tarde, indicam-lhe o pagamento que é necessário para acalmar os espíritos.

- Por exemplo, quando alguém tinha dores nos braços, nas pernas ou reumático, dizia que eram provocadas pelos espíritos dos brancos… só passa após o pagamento para contato com o espírito.

A minha conclusão foi simples… quem mandava na aldeia era o adivinho ou “tchimbanda”. O povo tinha muito medo dele. Nesta aldeia, o único que conheci, era considerado como um deus. Dizia, que conhecia todos os segredos da natureza e da vida do sobrenatural a quem os espíritos obedeciam.

Os meus olhos faiscaram porque me apercebi do negócio… este adivinho e o assistente eram pessoas sem escrúpulos, a quem toda a gente era obrigada a venerar, pagar e acreditar… de tal forma, que nenhuma decisão era tomada por alguém sem que fosse consultado o adivinhador… só ele podia resolver depois de entrar em contato com os espíritos dos antepassados.

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt

Sacassange, a viagem dos grandes choques de realidade para duas centenas de voluntários à força

Alto Chicapa, 18.09.20

Diferente, desconhecido e estranho

Chegámos completamente esgotados a Sacassange, onde era tudo diferente, desconhecido e estranho.

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Valeu o simpático acolhimento.

O aquartelamento, a cerca de 24 kms da Vila do Luso, do tipo destacamento, tinha instalações pouco cuidadas e era muito rudimentar.

Do que ainda me lembro, a estrutura, à primeira vista, parecia “abandonada”… havia uma porta de armas, uma espécie de dormitório dos oficiais, o depósito de géneros, uma secretaria, um barracão / sala de refeições, um posto de vigia, o forno do pão, um gorduroso local para refeitório e cozinha coberto com chapas de zinco e ao lado uma espécie de cantina.

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As oficinas e a arrecadação do material ficavam próximas das casernas dos soldados.

Apesar de tudo, havia aspetos agradáveis: Um clima de planalto, quase idêntico ao da metrópole, calor durante o dia e um fresco intenso à noite, que não dispensava cobertores, e um pequeno rio (o Dala), afluente do rio Luena. Passava bem encostado à proteção em arame farpado e foi muito útil no dia-a-dia.

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Estávamos num antigo colonato a 1300 metros acima do nível do mar, numa região agrícola decadente com grandes áreas abandonadas, devido à guerra e à implantação da UNITA na região, e de madeireiros, que neste ano de 1972 eram em número reduzido.

Junto à estrada principal, a 2 km das nossas instalações, havia, e ainda há, uma grande povoação, a sanzala do Moxico Velho.

O que fiz nos primeiros dias esteve longe de ser interessante, mas eram momentos necessários, a rendição… dos velhinhos, pelos maçaricos ou os “mikes” da Companhia 3485.

Começava o meu envolvimento nesta estúpida guerra, onde nunca consegui perceber se era a Guerra Colonial, se a Guerra do Ultramar ou a Guerra de África.

Ajudei na inventariação e na receção de algum material em monótonas e enfadonhas listas de todo o tipo e formatos… com assinaturas conjuntas, dos que ficam e daqueles que partem.

Contavam: Nas rendições havia a tendência ou a necessidade para realizar algumas aldrabices… cobertores dobrados ao meio para serem contados por dois, vasilhas de azeite ou de óleo, em que metade era água, guinchos de viatura sem o mecanismo interior ou peças, que depois de contadas, saiam por uma porta e voltavam à contagem, enfim… sempre me disseram que a tropa manda desenrascar, mas… não podes ser apanhado.

A referida transmissão de responsabilidades para a Companhia 3485, do Batalhão 3870, só ficou concluída com a rendição dos militares do destacamento, na povoação do Luatamba / Canage, a 46 quilómetros do quartel, uma estrutura improvisada junto à picada, que continuava para as Vilas do Lucusse e de Gago Coutinho.

Por nossa conta e risco

Uma vez sozinhos, o novo comando e cada um de nós no seu posto e funções teve de se adaptar às circunstâncias, aprender o que nunca nos ensinaram, improvisar muito e decidir, sem medo de errar… mesmo quando não havia informação de suporte ou tempo para pensar.

Eramos maioritariamente milicianos, com exceção de um primeiro-sargento e de um sargento-ajudante. Também, maioritariamente, formávamos uma boa estrutura de camaradas, 5 estrelas, como se costuma dizer… num misto de militares naturais de Angola (pretos e brancos) e de soldados brancos provenientes da metrópole (Portugal), quase todos naturais de Trás-os-Montes.

Apesar da minha juventude e da inexperiência dos meus 24 anos foi fácil perceber, que quem estava a mandar na organização da companhia eram os dois sargentos do quadro já habituados à máquina burocrática do exército… como instalar os mais convenientes e evidentemente, a instalarem-se… eram peritos na guerra do papel e a recrear vícios adquiridos noutras comissões.

Em conclusão, uma engrenagem montada para funcionar bem dentro do arame, mas que era insuficiente para responder com qualidade e prontidão às necessidades de quem andava no exterior. No campo militar o poder do Estado existia, à altura (1972), ainda omnipresente e omnipotente. Exigiam o uso da violência física e o apoio da DGS / Pide, o que surpreendia os mais esclarecidos Alferes milicianos e o Capitão de proveta, também miliciano, habituados aos discursos antiguerra ouvidos nas universidades, desde 1968.

A todos, devo muito… apesar do comando do nosso capitão, adepto confesso do Estado Novo e da ditadura, interpretar à letra o poder interno e externo pelo uso excessivo da violência psicológica e física.

A minha passagem pelo Leste de Angola foi penosa… numa lenta e difícil adaptação. Deixei, por lá, naquelas matas, as minhas primeiras revoltas e consequentemente muitas lágrimas e angústias.

Rações de combate, tubos de repelente e muitos mosquitos

Diariamente, entre rações de combate, tubos de repelente e muitos mosquitos, os grupos de combate faziam a proteção às máquinas, aos trabalhos e aos empregados da empresa Tecnil e da JAEA (Junta Autónoma das Estradas de Angola), que abriam a nova via asfaltada, Luso / Lucusse / Gago Coutinho.

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Naquela guerra de proteção o nosso dia-a-dia era sempre uma rotina desde as deslocações na mata, conforme o avançar das frentes de trabalho e até a quantidade do nosso armamento disponível… tudo era previsível e conhecido… numa zona muito complicada, lado a lado com um corredor, a Rota do Luena ou de Agostinho Neto, de passagem de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) vindos da Zâmbia. Na região, estavam identificados 3 esquadrões (1 esquadrão = 100 / 150 homens), o Voina, o Vitória e o Sakembo.

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O pessoal afeto à construção da estrada, trabalhadores e capatazes, oriundos de Angola, da metrópole e de Cabo Verde organizavam-se como queriam, sem problemas nas deslocações e nas horas mais impróprias ignoravam tacitamente o exército português. É certo que não os conhecia, mesmo nada, mas pelo que se observava diariamente tinha razões para duvidar destes comportamentos… a nossa organização teria de ser bem calculada, para não sermos transformados em alvos fáceis na mata ou junto à picada.

O cuidador

Um velho amigo beirão (Vitor A), companheiro de liceu e de faculdade, que teve a arte e o engenho de conseguir cumprir o serviço militar num gabinete em Luanda, passou a ser o meu companheiro distante do meu serviço militar no Leste de Angola… um cuidador, que eu alguma vez esperava ter. Para os curiosos, mas mais para os controladores do costume, dizia que era correspondência do meu primo Marinho Santos, que vivia em Luanda… um escritor, também de aerogramas.

Entre temas, simples, de velhos amigos, recordo aqui a primeira informação, que me enviou em Abril de 1972:

  • A FNLA ameaça a fronteira Leste pela área de Nova Chaves, a partir da base de Kaundu, com movimentos constantes na estrada de Dilolo. Fazem pequenos acampamentos ao longo do rio Cassai para o apoio dos guerrilheiros com destino aos locais de fixação, Moxico, Buçaco, Camgumbe, Munhango, Luma-Cassai e Alto Chicapa.
  • O MPLA fixou-se entre, os rios Luzege e Cassai, visando os movimentos militares das NT (nossas tropas) no itinerário Chimbila a Cazage. Usam a implantação de armadilhas, minas antipessoal e anticarro.
  • Na região norte do rio Canage, há pequenos grupos de reconhecimento, com 5 a 10 elementos emboscados ou móveis, sob a chefia do comandante Cauevo.
  • O comandante Cauevo domina a tua região com informadores fixos no Luso, no Moxico Velho e no Lumege. Usa, também, mulheres jovens, que parecem inofensivas. São conhecidas por Rosas Negras. Movimentam-se junto aos aquartelamentos e destacamentos das NT, no triângulo Teixeira de Sousa, Luso e Gago Coutinho.

Terminava sempre... um abraço de merda e não percas a cabeça, porque depois não tens onde colocar o quico.

Abandonados à nossa sorte

Ao fim de quatro meses, éramos homens tristes, cansados psicologicamente e saturados da rotina e do abandono à nossa sorte. Andávamos com munições contadas e com armamento muito pouco estimado (num primeiro teste, não autorizado, a cada uma das 25 espingardas G3 do grupo, só 7 funcionaram depois de muito bem limpas e oleadas).

Suportávamos uma tortura diária de muito calor ou chuva e lutávamos contra outro exército… pequenas abelhas que tentavam a todo o custo entrar em qualquer orifício do nosso corpo.

Nestes dias de inatividade ou de luta, as nossas refeições eram sempre feitas à base da Ração Individual de Combate, composta por uma lata de leite, uma lata de atum ou sardinha, uma lata de salsichas, uma lata de feijão com chouriço, duas latas de sumo ou salada de frutas e um pacote de bolachas de água e sal.

Como diz o poeta… estávamos numa guerra invisível e traiçoeira em que a bala espreita e a mina acontece… e eu acrescento… com o mosquito a “foder-nos” o juízo.

MVL

Uma vez por semana, passava na nossa zona de proteção, o MVL (Movimento de Viaturas Ligeiras) um conjunto de várias viaturas civis, para o transporte de pessoas, equipamentos e mantimentos, e de viaturas de um esquadrão de comandos, os Dragões. Esta coluna de viaturas, como os militares lhe chamavam, devido à sua previsibilidade, tinha uma longa história de ataques na zona do Luatamba, uma aldeia abandonada, muito próxima da nova aldeia do Canage e do nosso destacamento.

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Esta zona da picada, entre densa floresta, era temida e considerada muito perigosa. As viaturas tinham que abrandar a marcha devido ao declive, ao excesso de areia no final da descida e ao esforço suplementar que era exigido aos motores para vencerem a subida até à aldeia do Canage.

Era o local eleito para os ataques do comandante Cauevo. Diziam que a tática era sempre a mesma, umas vezes atacavam e isolavam uma das últimas viaturas, outras vezes atacavam as da frente para criar confusão e desorganizar a proteção à retaguarda.

Num desses ataques eu estava muito perto em proteção às máquinas do asfalto. Uma vez mais, tinha sido emboscada uma das últimas viaturas civis do MVL, que ficou com danos materiais no meio da desorganização geral, dos tiros e da morte de um jovem guerrilheiro, que aparentava ter pouco mais de 16 anos.

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Este jovem, sem qualquer identificação, foi atingido no abdómen pelos Dragões com uma rajada de G3. Encontrava-se, a cerca de 20 metros de um grupo de 10 guerrilheiros, encostado a uma árvore com uma metralhadora automática ao ombro, que parecia estar presa a uma corda para facilitar a sua retirada em caso de insucesso.

Em conclusão: durante a confusão alguém levou a arma (quem?), abandonou o jovem guerrilheiro e a corda.

Operação Perseguição

Ao assumir o comando da ZML (Zona Militar Leste), o general Bettencourt Rodrigues tinha sob o seu comando, 21 500 homens de toda a natureza militar - unidades do Exército, da Marinha e da Força Aérea e 11 700 homens de forças auxiliares, os "Fiéis", catangueses refugiados em Angola, os "Leais", refugiados da Zâmbia, os "Grupos Especiais", conhecidos por GEs, os "Flechas" da PIDE e as milícias armadas.

Foi um grupo de catangueses, fiéis seguidores políticos do deposto Moisés Tschombé, que perseguiu o grupo atacante.

Colaboravam com o exército português a troco de armas, dinheiro e troféus. Viviam de uma forma primária e com um regulamento de disciplina próprio.

Acompanhei-os… eramos apenas onze portugueses… a experiência de viver dias com um grupo de guerrilheiros caçadores de trofeus, que apenas usavam uma catana, uma panelinha e um cobertor amarrado ao cinturão das cartucheiras da G3, era impensável… mas aconteceu.

Arrancámos cedo para a mata. Antes do por do sol já estávamos no primeiro objetivo, sem encontrar vestígios de movimentos de outras tropas. Acabámos por pernoitar em plena selva africana... entre tanto silencio imposto… até ouvia o meu cuidador: “nunca percas a cabeça, porque depois não terás onde colocar o quico”.

Tinha uma carta topográfica (coisas de maçaricos) que não me servia para nada, tantas eram as manobras de diversão. Impressionou-me a floresta que ladeava as margens dos afluentes do rio Canage. Havia folhas de vários anos espalhadas no chão e a sua cor castanho brilhante formava um tapete com características únicas. À distância, havia dezenas de pequenos montes e vales, que se sucediam uns atrás dos outros cobertos por uma ténue bruma azulada e tonalidades mais escuras na linha do horizonte do Parque Nacional da Camea.

Era uma floresta rica em árvores de grande porte, o Mussivi, e muito mel em colmeias altas. Era tanto, que chegava a haver em buracos nas cascas ou nas aberturas das árvores.

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Ainda de madrugada, com a escuridão da noite a desaparecer, retomámos uma marcha sempre em silêncio e contínua até a um outro ponto previamente referenciado. A única paragem foi ao fim de cinco horas num local de vegetação muito densa, que serviu mais para o descanso e menos para o comer. A restante progressão fez-se ao ritmo das catanas numa dura passagem por vegetação cerrada.

Foram quatro dias de marcha dura, de ensinamentos e de atenção a todos os vestígios no terreno. Apesar do calor e da humidade e das muitas manobras de despiste de alguma perseguição ou emboscada, o que mais me impressionou foi a disciplina e o silêncio imposto em toda a jornada. Estes homens não gostavam de participar em operações com brancos. Tinham um apurado sexto sentido para o perigo e de tal forma, que até a nossa pasta para os dentes e o sabão ou o cheiro da comida enlatada os incomodava.

Foi a minha primeira operação militar. Andei muito assustado, com medo QB (quanto baste), entregue a mim e à sorte dos outros militares brancos… no meio de 30 indivíduos a falarem uma linguagem estranha, ocasionalmente francês, e com hábitos e costumes muito próprios. Mas, nem tudo foi mau, ensinaram-me a estar na guerrilha e a abrir todos os meus sentidos, vista, ouvidos e olfato, como grandes sentinelas… compreendi o silêncio imposto, porque só assim se conseguia ouvir o que a natureza tinha para nos dizer.

Ao princípio da tarde chegámos ao destacamento do Canage, com a Operação Perseguição terminada e sem nada de relevante a assinalar.

O jovem guerrilheiro que tinha sido sepultado por nós, sem qualquer mutilação do corpo, embora a vontade dos catangueses fosse outra… ao contarem-me os pormenores, impressionou-me a frieza e a obsessão pelos trofeus… reclamei contra o ritual à custa de um desconhecido, que morreu a lutar, também por uma causa, com as mesmas armas, embora do lado oposto…, mas teimaram, para eles ia manter-se o ritual de trofeus.

A aldeia do Canage era uma populosa sanzala, atravessada pelo rio canage, numa clareira aberta no meio de uma densa floresta, ligada por uma ponte metálica à picada, futura estrada de alcatrão, Luso a Gago Coutinho.

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Antes de voltar ao quartel em Sacassange, tomei um banho no rio, com um pedaço de “sabonete” azul e branco, que o Alferes Monteiro emprestou... foi a melhor refeição, que tanto ansiei durante os últimos quatro dias.

O desenfiado

O meu regresso ao quartel, onde raramente estava para usufruir de um dia de descanso, coincidiu com a abertura do primeiro auto à luz do Código de Justiça Militar.

Durante o fim-de-semana, o soldado Oxxx tinha-se ausentado (desenfiado) sem autorização e sem avisar ninguém. No quartel pensava-se em tudo, rapto, morte… menos no que realmente acabou por acontecer. Depois de vários dias em complicadas buscas e contatos com sobas, acabámos por encontrar o nosso camarada na aldeia do Moxico Velho, escondido numa cubata, mas em plena lua-de-mel com a sua nova companheira, uma fogosa luena.

Na fase final das averiguações, perguntaram-lhe:

- Soldado Oxx, está arrependido?

- Meu capitão, acredite… não estou nada arrependido… se eu soubesse que era assim tão bom já lá tinha ido há mais tempo!

Quanto ao auto, já não me lembro das conclusões ou das consequências, mas era evidente que para muitos dos nossos tropas a experiência militar também significou:

- A primeira viagem de avião;

- A saída de casa;

- A ausência de vergonha dos vizinhos;

- O primeiro contato com outras realidades;

- A obrigatoriedade de princípios de higiene e de hábitos alimentares;

- A liberdade de terem satisfação sexual, normalmente com a popular figura da lavadeira, que facilmente misturava o trabalho com o prazer.

A geraldina

Numa das minhas passagens pelo destacamento do Canage, corria o mês de Julho de 1972, em plena estação do cacimbo.

Quatro “bons” malandros, do meu grupo de combate, lembraram-se de… participar à noite numa "geraldina"… cada um à sua vez, a ter prazer sexual.

No final de cada serviço, diziam:

- O nosso alferes vem no fim… confia, ele paga-te!

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Bem cedo, na madrugada do dia seguinte, a enganada, outras mulheres e mais dois homens, apareceram à porta do nosso rudimentar destacamento, onde rapidamente se armou uma tremenda confusão a exigirem um ajuste de contas com o “nosso alferes”.

Eu ainda estava deitado e não sabia, nada de nada e do que se tinha passado (mas o meu cuidador sabia… “não percas a cabeça, porque depois não tens onde colocar o quico”). Bem… falei com todos, entre desculpas, e como não contavam ouvir-me dizer: com a noite perdi-me na aldeia… é fácil num local escuro… acalmaram… o triplo do dinheiro necessário para reparar os estragos acabou por fazer o resto, a bem de todos.

Andei, algum tempo, muito desconfortável com aquele comportamento… mas precisava de manter o quico na cabeça… diziam-me insistentemente que não pensaram nas consequências da brincadeira e que só queriam desenferrujar o prego… mas aqueles dias de guerra e aquele local sem leis ou regras, o desfecho poderia ter sido irreparável.

Os Movimentos de Libertação, desfaziam-se

À medida que os meses passavam, mesmo em tempo de guerrilha, percebia-se facilmente que as pessoas iam ficando diferentes e que a sua revolta não era para nós mas pelos sucessivos anos de maus tratos, do trabalho forçado e não pago e de muita “porrada”, como diziam.

Estávamos, já há algum tempo, deslocados naquele destacamento com o nosso melhor espírito de sacrifício, a enorme capacidade de sofrimento dos soldados e a aproveitar uma paz inesperada, devida, momentaneamente, ao desentendimento entre os movimentos de libertação. A FNLA enfrentou uma grave amotinação na base de Kinkuso, obrigando as tropas do Zaire a intervir, o MPLA foi confrontado com uma revolta encabeçada por Daniel Chipenda (ex-jogador da Académica de Coimbra), em oposição a Agostinho Neto e o pacto de não-agressão oferecido à UNITA, com a garantia cínica do controlo do Leste de Angola.

Mais tarde, perante a desorganização dos movimentos, que se desfaziam, a OUA (Organização de Unidade Africana) e Mobutu juntou-os, com a assinatura do acordo de Kinshasa em 13 de Dezembro de 1972. Quando fui informado deste acordo, temi o pior para nós e calculei que iria surgir no terreno uma força poderosa com um objetivo comum devido à solução encontrada com a criação do CSLA (Conselho Superior de Libertação de Angola), do CMU (Comando Militar Unificado) e do CPA (Conselho Político Angolano) … mas as fortes contradições e as inúmeras divergências dos movimentos de libertação e dos seus líderes anularam o acordo… felizmente para as NT (nossas tropas). Hoje, ainda não percebo como é que a diplomacia portuguesa não aproveitou esta situação… tinha a força do seu lado e todas as condições para preparar a independência de Angola, sair organizados pela porta grande e evitar a guerra civil aos angolanos.

Dois enrabichados

A nossa vida, neste longínquo destacamento para onde fomos atirados, mantinha-se religiosamente com os mesmos rituais, proteção diária à construção da estrada, esporádicas patrulhas na mata e a vida na aldeia. Durante a noite, lia ou ouvia rádio, a Emissora Nacional e a BBC, que chegavam com qualidade razoável em ondas curtas. Ouvia, ocasionalmente, uma rádio da Zâmbia, a Maria Turra. Falavam de nós, mas exageravam muito. Por exemplo: -Tínhamos sido vítimas de uma emboscada, da qual não escapámos ficando a picada mais vermelha com o nosso sangue.

Apesar de tudo, nem tudo era mau, se soubéssemos partilhar as experiências e abrir os olhos para o que nos rodeava… foi o que aconteceu ao nosso jovem Qxx…o amor.

Só me apercebi quando uma esbelta luena se queixou do chindelo Qxx… quer sempre acabar em “maka” (armar confusão) … “Nossoalfers, essi gaju num tens esperto, num querer só esfoder assunji da minina”… e insistia comigo… “nossoalfers, pá, asboca és pra comer, osmataco és pra cagar, xiiii”… percebi logo que estes dois estavam enrabichados.

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Naquela época a mulher luena, enquanto solteira, tinha muita liberdade na sua vida sexual por desejo…não parava até ter o homem escolhido.

Voltando à jovem luena, convém referir, que enquanto novas eram sempre muito elegantes e que aquela acusação, ao chindelo Qxx, tinha, para além de tudo, um fundamento cultural, nesse ano de 1972. Via-se, que entre os nativos, não existia, por exemplo, o beijo e o contacto físico, senão, como diziam, durante a intimidade do ato sexual.

Até o cumprimento de mão era substituído por um bater as palmas ou bater no peito.

Também não existiam as aberrações, nem a perversão dos costumes, aliás existiam lendas para provocar a repugnância, o medo e o horror a tais práticas com os órgãos do corpo humano, que só devem ser usados nas funções para que a natureza os criou.

Em poucos meses, aprendi muito sobre o povo desta região do Leste de Angola. A mulher valia na tribo pelos trabalhos que realizava e pelos filhos que procriava mesmo sem haver, provavelmente, o amor como nós o entendíamos. Começavam o dia cedo, muitas vezes carregando os filhos às costas. As suas tarefas diárias incluíam, tratar dos animais, a preparação da comida e da terra, plantar mandioca, feijão, milho e batata-doce, secar ou fermentar os tubérculos da mandioca, transportar a água, a lenha, frutos, raízes, assim como, ratos, gafanhotos e larvas. Os homens tinham tantas mulheres quantas pudessem comprar, porque ter mulher ou melhor mulheres, significava ter comida e ser rico.

Dedicavam-se à caça com arcos, flechas, dardos e armadilhas. A caça estava intimamente ligada às convicções religiosas ou tribais e também servia para fornecer carne para alimentação própria e para a comunidade. Adicionalmente, era seu dever construir a casa, procurar mel e destilar milho em aguardente.

O destacamento

No destacamento, convivi de perto com dois irmãos de mães diferentes, um rapaz e uma rapariga… muito jovens. Cuidavam há algum tempo da minha roupa, com esmero.

Ele “arranhava” razoavelmente o português e era muito curioso pela leitura. Aos poucos começámos a ter uma mútua confiança. Tratava-o por Dito.

Num domingo andou comigo pela aldeia, numa zona praticamente vedada ao branco ou a estranhos… vi o sítio onde se lavavam, visitei o adivinhador, uma espécie de médico, o jango das cerimónias fúnebres, o local da circuncisão e o da iniciação, a zona da sanzala onde vivia a sua família e no batuque que aconteceu depois do por sol, na “lua escura”, onde entre sons e danças acontecia sexo com naturalidade e sem ciúmes… fumavam a erva / maconha, bebiam a aguardente de milho… puuum, puuum, puuum… ouviam-se os sons e o eco dos tambores no silêncio de uma noite envolta num maravilhoso manto de estrelas. À volta da grande fogueira projetavam-se enormes sombras e reinava a momentos um intrigante silêncio da erva, entrecortado a espaços por vários e misteriosos ruídos, sem origem definida, parecendo os fantasmas errantes do imaginário das mentes ou das mensagens, codificadas, com outro destino.

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Noutro momento, apresentou-me, aos seus nove irmãos e irmãs (alguns ainda de colo) e a quatro fogosas e esbeltas mulheres, duas ainda de seios empinados e muito jovens, uma seria a sua mãe.

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Ao fundo do caminho de terra batida havia uma cubata diferente, a maior… na frente e à sombra de uma grande árvore, estava “aninhado” um homem que aparentava ser muito mais velho. A todos falei… mas em simultâneo o meu pensamento desviou-se para o batuque da ” lua escura”.

Dito! Como é que o teu pai consegue dar conta de quatro mulheres tão novas?

"Oh alferes, não esfala isso, os filho és mesmo dele."

Era gente feliz… regressei intrigado ao destacamento… como consegue um homem muito mais velho ter tantos filhos com aquelas jovens mulheres.

Durante a noite, aconteceu o que não conhecíamos… chuva persistente e muito forte. Era o início da época das chuvas. A aldeia e toda a área circundante do destacamento ficou coberta de água e de terra barrenta. A trovoada e os relâmpagos eram tão fortes e intensos que pareciam estar junto a nós. O chão tremia, como nunca o tinha sentido, e a barulheira da trovoada vinda dos quatro cantos era contínua e infernal.

Quando deixei o destacamento fiz questão de me ir despedir daquela família… deixei uns livros ao Dito e à irmã e umas cucas (cervejas) ao pai em troca do segredo da sua capacidade sexual.

Respondeu-me: - "Cá, nossalferes, tomo milongo (remédio)”… uma raiz amarelada grande, que há nas areias da mata… “para ter os pau direito e fazer o sexo divino de Nzambi (Deus) e os minino nas minina".

Saí desta zona, sem a angústia dos pretendentes a heróis, satisfeito comigo, honrado e com o luxo de ter gravado no meu olhar, longa e eternamente, momentos mágicos, que, quando os recordo, fazem parar o meu tempo e me ajudam na minha sanidade mental.

Muitos anos depois, vi o filme África Adeus… como eu entendi a frase, que Meryl Streep diz para Robert Redford: - Tudo o que disseres agora, acredito.

O meu oásis e as forças redobradas

Durante as ultimas seis semanas, em Sacassanje, tive um pequeno oásis na minha vida e na guerra e também as forças redobradas. Passei a ter a companhia da minha mulher e do meu filho João. Hoje, ainda recordo com gratidão aqueles momentos e não esqueço aquela coragem.

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Sacassanje Adeus

Saí de Sacassanje com motivos para recordar, gostava daquele povo luena (malwena), dos batuques e dos merengues no Canage, que eram sempre muito ritmados e de grande beleza, com um grupo de homens, colocados ao centro, tocavam os tambores, e o resto dançava de volta, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, mexendo-se com espantosa facilidade e cantando ao mesmo tempo uma linguagem que nunca cheguei a perceber. O Soba e os Mais Velhos, todos muito velhos, vestidos de umas velhas fardas de um luxo esfarrapado, assistiam sentados em banquinhos baixos, com uma dignidade imperturbável.

Aquele mundo africano era lindo, cheio de vida, de juventude e de imaginação.

As casas de adobe e de capim, a mandioca a secar e a cheirar a quilómetros, o milho, o feijão, a batata-doce, os panos soltos com que as mulheres mal se cobriam, a imensa proliferação de crianças de todos os tamanhos e as estupendas figuras das meninas prontas para o casamento rentável para a família, tudo isto era de facto estranhamente original, belo e apaixonante… apesar da vida primitiva.

Deste bocadinho de comissão guardei comigo, para hoje partilhar com amigos e outras pessoas, mapas, fotografias, slides, memórias e umas garrafas de whisky. Outras, impartilháveis, como os cheiros, os sabores, a poeira, a lama, o cansaço e a nostalgia depois de cada aerograma, ainda são, mesmo assim, levemente passíveis de serem descritas. Porém, ainda outras… que não podiam vir, vão andar comigo para sempre até que a morte as apague… os amigos sem cor e que nunca mais vi, as matas que ainda não conheciam a ganância do ser humano, os horizontes, o medo, a alegria, a descoberta e a camaradagem.

Os portugueses que por ali estiveram noutras épocas, muitos são acusados, de terem matado, estropiado e escravizado. Não foi grandioso ou louvável para nós, mas hoje ninguém os pode avaliar e seria insuportável desconfiar de tais intenções, porque julgar os outros e a história tendo a vantagem do tempo diante dos nossos olhos, é duvidoso.

A todos, devo muito…

Carlos Alberto Santos

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A viagem dos grandes choques de realidade para milhares de voluntários à força

Alto Chicapa, 23.07.20

Poucos tinham visto um Boeing 707 (04-02-1972 / Figo Maduro, Lisboa)

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Eram 23 horas, de uma noite muito fria, escura e… triste. Estávamos no Aeroporto em Lisboa, numa aerogare da força aérea. Entre momentos de boa camaradagem, de espanto e de alguma descontração, fizemos um razoável percurso a pé, até ao avião.

Poucos tinham visto um avião de tão perto. Era todo branco com uma risca azul ao meio e uma cruz latina vermelha no bojo, junto às janelas, entre as asas e na porta de acesso. Organizados, subimos as escadas e entrámos deslumbrados.

Já no ar, com o espetáculo de uma Lisboa à noite a perder-se de vista, passou-se, rapidamente, para o Oceano Atlântico num ambiente de nuvens muito escuras.

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De madrugada, no meio de uma grande tempestade tropical, o avião era sacudido grosseiramente entre grandes deslocações para baixo e para cima. Lá fora, via-se perfeitamente como se fosse dia e as nuvens em baixo eram rasgadas frequentemente por enormes clarões.

Para me proteger da luz dos relâmpagos, ajeitei-me na cadeira e adormeci, praticamente inconsciente, como se o vazio se tivesse apoderado do meu espírito fazendo-me esquecer aquela agonia familiar da partida para a guerra.

Despertei ao som da voz de um militar da Força Aérea Portuguesa, “a nossa hospedeira de bordo”, anunciando que o pequeno-almoço ia ser servido.

Passavam trinta minutos das seis da manhã.

Quando foi servido o pequeno-almoço, à base de fiambre, pão, manteiga, croissant, café com leite, compota, geleia e mais qualquer coisa com ovo, estávamos muito perto de Angola, já se via o oceano muito bem e a altitude era mais reduzida, sobrevoávamos a orla marítima, formada por retalhos onde o verde da vegetação contrastava com uma terra avermelhada, e os arredores de Luanda com uma extensa zona de bairros pobres e, mais adiante, junto ao aeroporto, a cidade onde já havia alguns edifícios modernos.

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Uma madrugada calma

À hora em que a natureza começava a mostrar-se com toda a sua exuberância, a costa africana ainda estava envolta pelo cacimbo do amanhecer. O verde, o calor e a terra encarniçada misturavam-se entre capim, árvores e neblinas.

O sol nascia desde a traseira do avião boeing 707 dos TAM (Transportes Aéreos Militares).

Tudo, ou quase tudo, parecia ser tão irreal, um grande rio a vencer o oceano, a floresta, uma pequena aldeia, e algumas casas isoladas cobertas de vegetação em clareiras rodeadas de frondosas árvores.

Fiquei feliz por ter desfrutado, assim, dos primeiros cenários naturais de Angola.

Semanas depois era o percurso até... à nobreza dos animais nas chanas junto à água e ao rugido cavernoso do leão, à noite. As plantas que curam ou fortalecem e o secretismo dos feitiços. A jovens nativas, frutos silvestre, corpos de gazela, olhos luzindo promessas de desejo nos seios… nuas numa esteira em noite escura, aiué, aiué... os batuques, entre avisos de guerra, e as fogueiras com as silhuetas e as sombras que se deleitam entre danças. Foram muitos meses, a viver, em plena selva, com dois panos de tenda a servir de teto… num choque indescritível, que ainda arrepia, entre medo, respeito e fascínio.

Foi a dureza da vida e aquela imensidão africana que me permitem, hoje, olhar a natureza de outra maneira, moldar a minha mentalidade e a libertar o meu espírito de comportamentos mesquinhos.

A integração, no espírito africano.

O dia começava cedo na cidade de Luanda, o orgulho do Império, num trabalho lânguido misturado com o lazer e a prática corrente da sesta.

Num intenso calor carregado de humidade e de mosquitos, a vida parecia preguiçosa, embora as alienadas gentes, idas do “Puto”, antes da guerra, invadissem tudo, abanando a “árvore das patacas” num saque que parecia urgente. Os nascidos na terra, esses olhavam-se incrédulos e confusos, perguntando frequentemente, porquê tanto trabalho.

Bem à portuguesa, os chamados colonos tinham filhos, casavam-se, eram felizes na terra de adoção. Mantinham ali o seu dinheiro e investiam na vida profissional e material local como um cidadão na sua terra natal.

Havia gente de toda a espécie, aqueles que tinham trocado toda a riqueza, na santa terrinha, por uma carta de chamada, documento original na diplomacia portuguesa, imprescindível à imigração dos sonhadores, os portugueses de primeira, que se achavam altos funcionários cheios de importância e os intelectuais de esquerda, tacitamente contra o colonialismo, mas sem abdicarem das mordomias e de tudo o que era bom.

No mundo urbano central, quase restrito aos brancos, novos-ricos, perdidos em vaidades e rodeados de criados, a guerra no mato, impiedosa, noticiada diariamente, era ignorada… até um anormal movimento de helicópteros com feridos, sobre a cidade, não conseguia agoirar um fim de tarde de lazer ou uma revista local acabada de sair, cheia de fotografias de bailes, festas sociais, moda e automóveis do tipo americano. Ninguém se apercebia do fim eminente.

Na Mutamba apanhei um “machimbombo”.

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Fui dar uma volta pela cidade. Estava deserta. O comércio fechado, as ruas vazias, os táxis parados, sinaleiros sem trânsito, dormitando tranquilamente até que a cidade volte a si… é que das 12h00 às 15h00, Luanda defende-se do calor. Fecham as farmácias, as barbearias, as lojas, as repartições públicas, os consultórios e até os quiosques. É um ato de hibernação regulado pelos sons no forte de S. Miguel que anuncia as 13h00, o momento da passagem da mesa do almoço para o cadeirão de verga onde se lê o jornal e se dorme… uma sesta.

A minha hora do almoço foi passada, estrategicamente, na estrada de Catete junto ao Jumbo.

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Era o local escolhido para o descanso do motorista ou… do tropa que em 1963 tinha sido retirado de Macedo de Cavaleiros para ir defender Cabinda.

A nossa aproximação começou com um... és um recém-chegado a África!

- Sim, sou tropa, cheguei de Lisboa, vou para o Leste.

- Vais precisar de tempo para aprenderes, o que esta terra tem para nos ensinar.

- Nunca esqueças! Não andes mais depressa do que o teu anjo-da-guarda puder voar… coisas de África… quando te passarem os fulgores da juventude e perceberes que o homem não é omnipotente… vais acreditar!

- Na guerra, que acontece nas terras para onde vais, mata-se e morre-se… quando regressares, que não seja entre cal e chumbo ou enfermo da violência psicológica e da solidão ou com rancor pelos anos que te roubaram, mas com o espírito encantado, vagueando perdido, saudoso e prisioneiro dos horizontes míticos... só assim conseguirás a tua própria paz!

O acordar do povo foi rápido e o “machimbombo”, uma comprida camioneta, em marcha lenta, já ia cheio… pretos, brancos e mulatos.

O entardecer rápido.

Agitava cafés, cervejarias e esplanadas enquanto o sol se envolvia num largo turbante vermelho para um número final do seu belo espetáculo de todos os dias… o pôr-do-sol.

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Havia, sempre, muita gente no centro da cidade, na Marginal, no Cais do Porto, nas Ingombotas, na Maianga, na Vila Alice, na Vila Clotilde, na Cidade Alta… a respirar um ar húmido, que tornava tudo pegajoso, e que entrava pelas narinas como um bafo inebriante e erótico, vindo das fornalhas daquele clima tropical onde o desejo fervia… sem parar.

A noite era igualmente morna e húmida entre a água calma e deslumbrante da baía de Luanda.

Os majestosos edifícios iluminados, encimados por reclames multicolores, o edifício do Banco de Angola, os andares do Banco Comercial de Angola, os grandes edifícios dos hotéis, o edifício de apartamentos da indústria do prazer, o “treme treme” (local muito frequentado por belas morenas, que tornavam tudo mais fácil e pelos militares em férias ou regressados do mato), o porto de Luanda repleto de navios e os vários bares onde havia espetáculos de variedades e de striptease de categoria duvidosa.

Luandanoite

Noite dentro, no Largo da Cervejaria Portugália…

- Qxxxxxx, tu... por aqui?

- Alferes!?

- Viemos comprar batatas!

- Batatas?

- Batatas-doces… riram-se.

- Viemos às meninas.

- E então?

- A primeira que encontrámos, disse que era a Josefa… parecia ter cinquenta anos… mostrou-nos a perna até… à… barriga, só pintelhos.

- Depois… outra e ainda outra a usar grandes óculos de sol à noite… aquele bimbo só se ria... pirou-se... e eu fiquei ali parado, a olhar os oculos escuros na noite escura… são 50 do puto por uma “mamada”!

- E... que tal?

- Meu Alferes, uma vergonha, aquele bimbo percebeu a tempo… era um travesti. Isto já é a guerra… posso morrer na merda, ficar sem pernas ou sem pila, mas não quero entrar na minha terra, esticadinho no caixão, só a arrotar a colhões de um qualquer travesti.

Havia uma outra Luanda

Nos arredores da cidade, os musseques... um mundo de gente fugida da guerra das montanhas do Norte e das planícies do Leste, iludida por uma vida melhor… esgotados nas entranhas das ruelas escuras, fedorentas, insalubres, das fogueiras queimando excrementos e das águas estagnadas, ninho de milhões de mosquitos e de incontáveis misérias.

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As inacabadas casas de madeira ou de lata não eram um mundo impenetrável para o branco, ali encontravam desejo, tesão, prazer… galope desenfreado e o gozo de fazer sexo livre em qualquer lado… entrava-se e sai-se livremente e, naturalmente, aconteciam as uniões entre as raças. Nascia a mestiçagem uma geração de gente mulata, onde as raparigas, quase irresistíveis, eram esbeltas e harmoniosas… Kuringa, uma cabrita, de cor “canela”, em meneio gingado como uma potra de raça, sorriso de marfim, corpo maduro ansiando parelha, linda, vestida de panos garridos e justos a realçar as formas esculturais do belo corpo já bronzeado, o ventre liso, os seios excitados, o “mataco”, que dança e até se insinua na cidade, marcado por calcinhas minúsculas e… tudo o resto… nem era preciso adivinhar.

Campo Militar do Grafanil.

A chegada, ao Campo Militar, em veículos de mercadorias, “gado” entre taipais, foi apenas o começo, de semanas e mais semanas… anos de um jogo mortal de guerrilha.

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3º. Grupo - zona do Cassai

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Eles

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- Alferes, isto é tudo um fingimento.

- São as casernas, que não são… são pocilgas e tendas.

- São as camas, que não são… são viveiros de percevejos e prateleiras de cimento com um cobertor.

- O vinho, que não é vinho… é banga-sumo, uma mistela.

- A capela, que não é capela… é um embondeiro… o Capitão é que a sabe toda, de mansinho desenfia-se… vai-nos enrabando de fininho… igualzinho ao meu padrasto.

Pairava no ar muita angústia e o ambiente era infeto e incaracterístico. Representava, a síntese das fragilidades da sociedade angolana, o nível intelectual dos muitos militares de gabinete, ébrios de poder... conhecidos pelos calhaus da engrenagem.

O chão vermelho da parada, onde as poucas árvores estrategicamente colocadas julgavam contrariar a fúria dos elementos, fervia aos primeiros raios solares com a intensidade de um forno crematório.

Nas noites, passadas entre percevejos, mosquitos e um silêncio de morte, os corpos escorriam suor e os pés escorregavam no chão gorduroso e húmido dos líquidos que habitualmente escorriam das latrinas cheias.

Apesar de tudo, não esquecerei os momentos de camaradagem na esplanada, com uns “conversados” camarões, a solidariedade, o humor, o desconforto físico e, em certos casos… muita revolta. Foi ali, com as minhas próprias forças… as internas e as outras, que comecei a aprender a resistir e a ultrapassar os fantasmas e os medos.

Primeiro dia da viagem para o Leste de Angola

Já era noite alta quando chegámos à cidade de Nova Lisboa (Huambo).

Não houve salvas, nem festa, nem, como em Luanda, bandos de aguerridos miúdos a receber-nos.

Num olhar rápido pelos arredores e pela estação dos comboios, vejo alguns edifícios iluminados e todas as ruas desertas.

Atiro-me para um cadeirão de verga num quarto alugado para… mais dois. Fiquei-me… sem reação… sem dar pelo tempo… a tentar recordar os muitos quilómetros percorridos (600). Queria lembrar-me de episódios, de paisagens, de cenas, de costumes, mas… só conseguia reconstituir na penumbra, da luz mortiça de uma lâmpada, a manhã calma da partida, as cubatas ao longo da esburacada estrada, o espetáculo fantasista do sol a morrer para lá das últimas palmeiras gigantes, que se viam no horizonte, os casebres pobres em silhuetas coladas sobre um chão encarnado e um céu onde se adivinhava a agonia rápida do dia.

Perto de mim, escreviam-se aerogramas e uma conversa em surdina acabou em evocações sentimentais:

- A minha senhora faz anos... que pena não haver um telefone!

Um camarada… mais "cusco"… comenta alegremente:

- Mas há mosquitos, moscas, muita merda, uma bala perdida e mais mil quilómetros, bem medidos… com o peso dos teus cornos duvido que lá chegues!

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Pálidos… pelo desconforto.

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A paisagem era desoladora e agressiva. O capim dominava a região entre a densa mata, algumas clareiras e os raros terrenos de cultura onde os braços desiguais e retorcidos dos embondeiros pareciam estar em atitudes alucinadas de quem protesta e se revolta contra o solo ingrato.

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Em algumas aldeias, junto à estrada, a população parecia ser feliz, gritavam as mulheres, as crianças, os jovens e os velhos, quando passávamos perto. Os gritos… pareciam ir de sanzala em sanzala como o som do batuque que comunicava de terra em terra, no alfabeto indecifrável daquele povo, com a notícia da chegada do “chindelo”.

Noutras, havia um silêncio imprevisto, e em contraste lá estão junto das cubatas as mesmas mulheres, homens e crianças, parados sem que os olhos se abram amistosamente, sem uma atitude de interesse, quase sem se voltarem… em desprezo. Outros estão sentados, de costas apoiadas nas paredes frágeis das cubatas, indolentes, inúteis e tristes.

Numa loja, onde se vendia de tudo, com um quadro do Bom Jesus de Braga à entrada e um velho colono sentado ao balcão a fumar e a beber cerveja… gabava-se de episódios de outros tempos, de lutas… para nós, os maçaricos, eram simplesmente irreais e impossíveis.

Quilómetros, quilómetros, quilómetros… 

A espaços uma sanzala igual a tantas outras, onde o povo aparece no caminho com saudações diferentes, uns fazem continência, outros batem no peito e as palmas, outros quase se deitam no solo e erguem as mãos numa atitude de inspiração fascista.

Passámos por pequenas povoações, postos isolados de governadores solitários, por alguns colonos portugueses… a bandeira portuguesa, entre casas de adobe e telhados de zinco.

A um soba, perguntei: - Então, como correm as coisas por aqui?

Metido no seu fato de Terça-Feira de Carnaval com botões dourados, descalço e de chapéu-de-chuva, bracejou na mímica do seu complicado idioma.

Pelo semblante, só podia estar a dizer... vai-te embora, vai para a tua terra!

Um intérprete de ocasião tenta convencer-me de um encontro amistoso... não disse nada, era só discurso.

Era o contraste de ideias, que passava a estar incluído no preço que iria, realmente pagar, para, um dia, poder voltar a Portugal.

Nos Caminhos de Ferro de Benguela, até á Vila do Luso

Inspirado nos livros de Agatha Christi e no meu imaginário esperava por umas confortáveis carruagens, um restaurante onde poderiam jantar 30 pessoas em verdadeiro luxo de espelhos e cristais, empregados aprumados de fardas bordadas a ouro, um menu de africanos… cadeirões confortáveis para a noite.

Percorri o comboio de ponta a ponta… não fiquei entusiasmado, nem acabei surpreendido.

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Passámos, dois dias em bancos de madeira, alguns longitudinais, em grandes molhos de corpos, de braços, de pernas, de armas e de porcaria… os líquidos de odor duvidoso, os restos das latas de conserva e outros detritos iam ficando espalhados pelo chão.

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Depois de breves paragens em Bela Vista, Chinguar, Silva Porto, Munhango, Cangumbe e Vila General Machado chegámos à pequena estação da Vila do Luso quando o luar já tomava conta da paisagem.

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Destacavam-se algumas casas brancas, recortes de arvoredo em ruas largas e muitos europeus… maioritariamente militares e seus familiares.

A mil trezentos e vinte metros de altitude gozava-se ali as delícias de um clima planáltico temperado e saudável.

Na povoação, de uma tranquilidade excecional, ouvia-se ainda, lá longe, como um eco, como um rugido, como um grito abafado pelo tambor e pelos cânticos do batuque, a repetir sem descanso: - Chindelo chegou… chindelo chegou…

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No restaurante Catespero, perto do Hotel Luso, finalmente uma refeição… um grande bife, batatas fritas, três ovos estrelados e vinho verde Gatão. Aí, conheci o Sr. Joaquim, um velhote, marcado pelas febres, respeitado e saudado por toda a gente… setenta e sete anos de idade e 50 anos na Universidade do Leste.

Contava:

- Era tão fácil andar pelo mato noutros tempos… andava à vontade até nos extremos da fronteira.

- Firmavam-se tratados de amizade com os sobas, deixando como permuta a bandeira das quinas.

Apesar dos prepativos para uma nova partida para a primeira noite num “quartel” no mato... entre espingardas, outras tralhas, munições... uma voz mais alta em brado de aviso irónico faz coro com o ronco do motor da Berliet… Cuidado com os leões! Não os matem todos…

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No dia seguinte, já em Sacassange… reparei na triste monotonia da paisagem.

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt (Site dos Ex-Militares Companhia 3485)

Entre homens que tinham estado na guerra...

Alto Chicapa, 22.06.17

Chamavam-lhe "terras do fim do mundo" a esse lugar para onde os mandaram na sua chegada a Angola... "Vais para o Leste? É o pior, isso são só mortos e feridos", diziam-lhe os que já estavam de regresso a Portugal. Nesse Leste, o primeiro sítio onde ficou chamava-se Lumbala. Ali, o entretém das horas mortas incluía mergulhos num rio onde primeiro se lançavam granadas para afastar os crocodilos. Tudo era hostil.

 

António diz que não é um santo, que é um homem. Aos mais experientes chamavam "velhinhos". Por serem os que estavam há mais tempo na guerra (as comissões eram de dois anos) eram eles que acolhiam os mais novos como ele, "os maçaricos", nos costumes da guerra. Explicaram-lhe que havia que arranjar uma mulher local que lhe lavasse a roupa, como faziam os outros homens.

 

Depressa aprendeu hábitos e vocabulário. Também lhe ensinaram que havia as lavadeiras "sem lavagem de quico" e "com lavagem de quico". As segundas eram as que, além de lavar a roupa dos militares, se prestavam também a favores sexuais em troca de dinheiro, em troca de comida.
 
Na enfermaria havia "camisas de Vénus", poucas, mas ninguém as pedia, "não era hábito na altura"...

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Carlos Alberto Santos

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Angola, o Alto Chicapa veio comigo

Alto Chicapa, 20.11.14

Ainda... oiço o gongo do cinema Miraramar, ao ar livre... sinto o ruido e o cheiro da Baía de Luanda... não esqueci o feitiço das Luenas... vejo o brilho das estrelas nas noites da Lunda, no Alto Chicapa. Quem se lembra das aldeias, dos animais, das águas limpas dos rios...!

 

Ex-Militares da 3485 no MEO Kanal

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