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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

Qual é a parte da recomendação "fiquem em casa" que não compreendem?

Alto Chicapa, 30.03.20

O alerta de uma médica / Leiam com calma e se quiserem... até ao fim.

Se há assunto que não deixa de ser falado 24h/dia, 7 dias por semana, em todos os canais noticiosos é a progressão da pandemia ao vírus SARS-CoV-2. Todos os dias, a Diretora-geral de Saúde com a Ministra da Saúde emitem um boletim númerico da evolução do contágio da país. A tutela encerrou as escolas até dia 9 de abril e decretou estado de emergência nacional. Se isto não é pôr os sinos a tocar a rebate, não sei certamente o que será.

Por isso, é com absoluta repugnância que assisto na televisão ao engarrafamento no tabuleiro da ponte 25 de abril em plena tarde solarenga de sábado. Que seja preciso que a polícia faça uma operação STOP para demover o mais comum dos mortais de ir apanhar um bocadinho de sol à praia é absolutamente chocante. Somos um país de brandos costumes, de dar uma no cravo e outra na ferradura, de gente sem a mínima espinha dorsal para assumir a necessidade de manter o isolamento social. Vergonha! Tenham vergonha!

Querem perceber exactamente porque é que a infeção pelo vírus SARS-CoV-2 é complicada? Trata-se de um vírus completamente novo, para o qual não dispomos de um tratamento dirigido, nem vacina protectora. Não, não é como a gripe. E é justamente isto que gostaria de vos explicar.

Olhando para o caso italiano, sabemos que por ano, em Itália, morrem 10.7 pessoas em cada 1.000 habitantes. Para um país com 60 milhões de habitantes, são expectáveis 640 000 mortes anuais, a um ritmo médio de 12.300 mortes por semana. O facto de, desde 15 de fevereiro (aproximadamente), terem falecido um número extra de 10 000 pessoas, significa que a taxa de mortalidade aumentou 12%.

Para compreenderem o impacto disto, vamos comparar justamente com o vírus da gripe: em 6 meses de surto anual (nos países temperados, como Itália e Portugal, é expectável que exista gripe entre novembro e abril), estimamos um aumento da mortalidade que ronda os 15%. O que a COVID-19 fez em Itália em seis semanas, sem ter acabado ainda o surto, é o equivalente ao que faz a gripe em 6 meses.

Percebem porque é que um surto desta natureza consegue colapsar qualquer sistema de saúde, por muito avançado e evoluído que seja? Não se iludam, as condições sanitárias no norte de Itália e em Espanha são globalmente superiores às condições portuguesas. Reparem: em Itália existem 12 camas de cuidados intensivos para cada 100.000 habitantes. Em Portugal temos 4. Não há forma, a não ser através do abrandamento do contágio, de lutarmos contra isto.

Mas, se ainda não estão convencidos que o vírus SARS-Cov-2 não é uma simples gripe, posso continuar a esgrimir argumentos: apenas entre 10 a 12% dos doentes com gripe desenvolvem pneumonia/ doença moderada a grave. Esta realidade atinge os 18% para o vírus Sars-CoV-2.

Lembram-se do caos provocado em 2009 pelo aparecimento da famosa gripe A (H1N1)? Atualmente a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a taxa de mortalidade da gripe A seja 0,02%. A mortalidade global estimada para a doença COVID-19 é estimada entre 1,7-2,1%. E para os doentes acima dos 70 anos, a taxa de mortalidade ronda os 8%.

Se eu não consigo compreender porque é que as pessoas acima dos 70 anos continuam a sair à rua para beber um cafezinho, ou fazer uma caminhada, ou ir ao supermercado comprar 2 ou 3 items só porque sim, muito menos consigo compreender as pessoas de 30 anos que agem como se nada fosse. Como se não pudessem ser infetados (sabem que há óbitos abaixo dos 30 anos, ou não?) e continuar a transmitir a doença. Será que não pensam que o seu comportamento é um risco evidente para os outros?

Como é que uma Provedora de Justiça se acha no direito de terminar a quarentena a quem, proveniente de outro país devastado pela pandemia, regressa agora, na Páscoa, para as aldeias envelhecidas do interior do país? Estamos a brincar aos brandos costumes? Estamos a brincar às meias medidas?

Por isso, tenho muita dificuldade em compreender como é que uma população de um país pequeno, pobre, mal governado, recentemente alvo de resgate económico, não age em conformidade com a real ameaça que esta pandemia representa. O que nos separa do total colapso do sistema sanitário é tão e somente o comportamento da população. Dinheiro não há, camas extra não existem, as equipas médicas não se multiplicam, nem as omoletes se fazem sem ovos e os famosos 20.000 ventiladores chineses ainda não chegaram. Restamos todos nós!

Qual é a parte do risco que não conseguem compreender?

Querem que, como médica, vos trate a 50% daquilo que é recomendado? Ou que, caso entrem em insuficiência respiratória, providencie suporte ventilatório apenas 12 horas por dia?

Qual é a parte da recomendação "fiquem em casa" que não compreendem?

Um texto da médica pediatra Joana Martins.

Deus estará farto de nos aturar?

Alto Chicapa, 26.03.20

Junto ao rio Tejo há pessoas que se passeiam, com cão, sem cão. Passeiam a pensar que vão isoladas e que está tudo bem. Não percebo que parte do Fique Em Casa é que não perceberam, mas depois recebo um vídeo de um senhor num centro comercial a dizer que isto é uma praga divina, Deus estará farto de nos aturar, que isto é uma limpeza mas que a ele especificamente, este senhor com cerca de 70 anos, ou seja, grupo de risco, nada afetará. Deduzo que nada o atacará por acreditar em Deus.

Lembro-me sempre da anedota do tipo que vive umas cheias terríveis e está agarrado à janela a ver a água subir, subir. Passa um barco que o quer levar e ele recusa, dizendo: “Deus me salvará”. Mais tarde, já numa situação terrível, passa um helicóptero e quer tirar o homem do cimo do telhado no qual teve de procurar refúgio. De novo, a resposta: “Deus me salvará”.

Conclusão, o homem, tão crente, morre e chega ao céu, injuriado e frustrado refila com Deus: “Então? Eu acreditei em ti e TU não me salvaste!” Deus, podemos imaginar que é o Morgan Freeman que sempre dá mais sumo à história, vestido de um branco imaculado, quem sabe de jelaba, responde. “Então?! Então nada, eu mandei-te um barco e um helicóptero e tu não quiseste”.

No nosso caso, quando nos dizem para ficar em casa não são palavras divinas, são palavras de quem sabe mais do que nós.

E a quem não pode ficar em casa, porque é médico, porque está numa mercearia, padaria, porque recolhe o lixo ou está a trabalhar para garantir bens essências, o meu agradecimento.

Texto de Patrícia Reis

 

Nota pessoal.

A nossa Europa sofisticada, com alta tecnologia e cheia de “glamour”, evidenciou neste futuro recente penúria e uma falta de visão política e cultura do passado. Menospreza todos os ensinamentos adquiridos à volta de doenças como a malária e outras epidemias nas suas ex-colónias de África à Ásia.

A Europa tem de se reinventar… sem dependências em todos os setores, quer para produzir máscaras e outros equipamentos de proteção… uma simples bata de enfermeiro, que está para chegar da China… um medicamento, esgotado, de um laboratório no Paquistão, que voltou a ser desviado por quem pagou mais.

Enfim, os “nossos” eleitos que decidem o que é prioridade, esquecem-se / esqueceram-se que os males e/ ou epidemias também podem acontecer no sistema de saúde de países ditos ricos… onde os orçamentos se sobrepõem às pessoas.

A lição que o coronavírus nos está a dar, talvez…

Carlos Alberto Santos

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