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Notícias e Estórias

O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

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O momento justifica-o e o objecto da família, Ex-Militares da Companhia de Caçadores 3485, impõe-no. Vamos, todos, contribuir com notícias e estórias do presente e do passado.

A viagem dos grandes choques de realidade para milhares de voluntários à força

Alto Chicapa, 23.07.20

Poucos tinham visto um Boeing 707 (04-02-1972 / Figo Maduro, Lisboa)

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Eram 23 horas, de uma noite muito fria, escura e… triste. Estávamos no Aeroporto em Lisboa, numa aerogare da força aérea. Entre momentos de boa camaradagem, de espanto e de alguma descontração, fizemos um razoável percurso a pé, até ao avião.

Poucos tinham visto um avião de tão perto. Era todo branco com uma risca azul ao meio e uma cruz latina vermelha no bojo, junto às janelas, entre as asas e na porta de acesso. Organizados, subimos as escadas e entrámos deslumbrados.

Já no ar, com o espetáculo de uma Lisboa à noite a perder-se de vista, passou-se, rapidamente, para o Oceano Atlântico num ambiente de nuvens muito escuras.

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De madrugada, no meio de uma grande tempestade tropical, o avião era sacudido grosseiramente entre grandes deslocações para baixo e para cima. Lá fora, via-se perfeitamente como se fosse dia e as nuvens em baixo eram rasgadas frequentemente por enormes clarões.

Para me proteger da luz dos relâmpagos, ajeitei-me na cadeira e adormeci, praticamente inconsciente, como se o vazio se tivesse apoderado do meu espírito fazendo-me esquecer aquela agonia familiar da partida para a guerra.

Despertei ao som da voz de um militar da Força Aérea Portuguesa, “a nossa hospedeira de bordo”, anunciando que o pequeno-almoço ia ser servido.

Passavam trinta minutos das seis da manhã.

Quando foi servido o pequeno-almoço, à base de fiambre, pão, manteiga, croissant, café com leite, compota, geleia e mais qualquer coisa com ovo, estávamos muito perto de Angola, já se via o oceano muito bem e a altitude era mais reduzida, sobrevoávamos a orla marítima, formada por retalhos onde o verde da vegetação contrastava com uma terra avermelhada, e os arredores de Luanda com uma extensa zona de bairros pobres e, mais adiante, junto ao aeroporto, a cidade onde já havia alguns edifícios modernos.

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Uma madrugada calma

À hora em que a natureza começava a mostrar-se com toda a sua exuberância, a costa africana ainda estava envolta pelo cacimbo do amanhecer. O verde, o calor e a terra encarniçada misturavam-se entre capim, árvores e neblinas.

O sol nascia desde a traseira do avião boeing 707 dos TAM (Transportes Aéreos Militares).

Tudo, ou quase tudo, parecia ser tão irreal, um grande rio a vencer o oceano, a floresta, uma pequena aldeia, e algumas casas isoladas cobertas de vegetação em clareiras rodeadas de frondosas árvores.

Fiquei feliz por ter desfrutado, assim, dos primeiros cenários naturais de Angola.

Semanas depois era o percurso até... à nobreza dos animais nas chanas junto à água e ao rugido cavernoso do leão, à noite. As plantas que curam ou fortalecem e o secretismo dos feitiços. A jovens nativas, frutos silvestre, corpos de gazela, olhos luzindo promessas de desejo nos seios… nuas numa esteira em noite escura, aiué, aiué... os batuques, entre avisos de guerra, e as fogueiras com as silhuetas e as sombras que se deleitam entre danças. Foram muitos meses, a viver, em plena selva, com dois panos de tenda a servir de teto… num choque indescritível, que ainda arrepia, entre medo, respeito e fascínio.

Foi a dureza da vida e aquela imensidão africana que me permitem, hoje, olhar a natureza de outra maneira, moldar a minha mentalidade e a libertar o meu espírito de comportamentos mesquinhos.

A integração, no espírito africano.

O dia começava cedo na cidade de Luanda, o orgulho do Império, num trabalho lânguido misturado com o lazer e a prática corrente da sesta.

Num intenso calor carregado de humidade e de mosquitos, a vida parecia preguiçosa, embora as alienadas gentes, idas do “Puto”, antes da guerra, invadissem tudo, abanando a “árvore das patacas” num saque que parecia urgente. Os nascidos na terra, esses olhavam-se incrédulos e confusos, perguntando frequentemente, porquê tanto trabalho.

Bem à portuguesa, os chamados colonos tinham filhos, casavam-se, eram felizes na terra de adoção. Mantinham ali o seu dinheiro e investiam na vida profissional e material local como um cidadão na sua terra natal.

Havia gente de toda a espécie, aqueles que tinham trocado toda a riqueza, na santa terrinha, por uma carta de chamada, documento original na diplomacia portuguesa, imprescindível à imigração dos sonhadores, os portugueses de primeira, que se achavam altos funcionários cheios de importância e os intelectuais de esquerda, tacitamente contra o colonialismo, mas sem abdicarem das mordomias e de tudo o que era bom.

No mundo urbano central, quase restrito aos brancos, novos-ricos, perdidos em vaidades e rodeados de criados, a guerra no mato, impiedosa, noticiada diariamente, era ignorada… até um anormal movimento de helicópteros com feridos, sobre a cidade, não conseguia agoirar um fim de tarde de lazer ou uma revista local acabada de sair, cheia de fotografias de bailes, festas sociais, moda e automóveis do tipo americano. Ninguém se apercebia do fim eminente.

Na Mutamba apanhei um “machimbombo”.

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Fui dar uma volta pela cidade. Estava deserta. O comércio fechado, as ruas vazias, os táxis parados, sinaleiros sem trânsito, dormitando tranquilamente até que a cidade volte a si… é que das 12h00 às 15h00, Luanda defende-se do calor. Fecham as farmácias, as barbearias, as lojas, as repartições públicas, os consultórios e até os quiosques. É um ato de hibernação regulado pelos sons no forte de S. Miguel que anuncia as 13h00, o momento da passagem da mesa do almoço para o cadeirão de verga onde se lê o jornal e se dorme… uma sesta.

A minha hora do almoço foi passada, estrategicamente, na estrada de Catete junto ao Jumbo.

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Era o local escolhido para o descanso do motorista ou… do tropa que em 1963 tinha sido retirado de Macedo de Cavaleiros para ir defender Cabinda.

A nossa aproximação começou com um... és um recém-chegado a África!

- Sim, sou tropa, cheguei de Lisboa, vou para o Leste.

- Vais precisar de tempo para aprenderes, o que esta terra tem para nos ensinar.

- Nunca esqueças! Não andes mais depressa do que o teu anjo-da-guarda puder voar… coisas de África… quando te passarem os fulgores da juventude e perceberes que o homem não é omnipotente… vais acreditar!

- Na guerra, que acontece nas terras para onde vais, mata-se e morre-se… quando regressares, que não seja entre cal e chumbo ou enfermo da violência psicológica e da solidão ou com rancor pelos anos que te roubaram, mas com o espírito encantado, vagueando perdido, saudoso e prisioneiro dos horizontes míticos... só assim conseguirás a tua própria paz!

O acordar do povo foi rápido e o “machimbombo”, uma comprida camioneta, em marcha lenta, já ia cheio… pretos, brancos e mulatos.

O entardecer rápido.

Agitava cafés, cervejarias e esplanadas enquanto o sol se envolvia num largo turbante vermelho para um número final do seu belo espetáculo de todos os dias… o pôr-do-sol.

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Havia, sempre, muita gente no centro da cidade, na Marginal, no Cais do Porto, nas Ingombotas, na Maianga, na Vila Alice, na Vila Clotilde, na Cidade Alta… a respirar um ar húmido, que tornava tudo pegajoso, e que entrava pelas narinas como um bafo inebriante e erótico, vindo das fornalhas daquele clima tropical onde o desejo fervia… sem parar.

A noite era igualmente morna e húmida entre a água calma e deslumbrante da baía de Luanda.

Os majestosos edifícios iluminados, encimados por reclames multicolores, o edifício do Banco de Angola, os andares do Banco Comercial de Angola, os grandes edifícios dos hotéis, o edifício de apartamentos da indústria do prazer, o “treme treme” (local muito frequentado por belas morenas, que tornavam tudo mais fácil e pelos militares em férias ou regressados do mato), o porto de Luanda repleto de navios e os vários bares onde havia espetáculos de variedades e de striptease de categoria duvidosa.

Luandanoite

Noite dentro, no Largo da Cervejaria Portugália…

- Qxxxxxx, tu... por aqui?

- Alferes!?

- Viemos comprar batatas!

- Batatas?

- Batatas-doces… riram-se.

- Viemos às meninas.

- E então?

- A primeira que encontrámos, disse que era a Josefa… parecia ter cinquenta anos… mostrou-nos a perna até… à… barriga, só pintelhos.

- Depois… outra e ainda outra a usar grandes óculos de sol à noite… aquele bimbo só se ria... pirou-se... e eu fiquei ali parado, a olhar os oculos escuros na noite escura… são 50 do puto por uma “mamada”!

- E... que tal?

- Meu Alferes, uma vergonha, aquele bimbo percebeu a tempo… era um travesti. Isto já é a guerra… posso morrer na merda, ficar sem pernas ou sem pila, mas não quero entrar na minha terra, esticadinho no caixão, só a arrotar a colhões de um qualquer travesti.

Havia uma outra Luanda

Nos arredores da cidade, os musseques... um mundo de gente fugida da guerra das montanhas do Norte e das planícies do Leste, iludida por uma vida melhor… esgotados nas entranhas das ruelas escuras, fedorentas, insalubres, das fogueiras queimando excrementos e das águas estagnadas, ninho de milhões de mosquitos e de incontáveis misérias.

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As inacabadas casas de madeira ou de lata não eram um mundo impenetrável para o branco, ali encontravam desejo, tesão, prazer… galope desenfreado e o gozo de fazer sexo livre em qualquer lado… entrava-se e sai-se livremente e, naturalmente, aconteciam as uniões entre as raças. Nascia a mestiçagem uma geração de gente mulata, onde as raparigas, quase irresistíveis, eram esbeltas e harmoniosas… Kuringa, uma cabrita, de cor “canela”, em meneio gingado como uma potra de raça, sorriso de marfim, corpo maduro ansiando parelha, linda, vestida de panos garridos e justos a realçar as formas esculturais do belo corpo já bronzeado, o ventre liso, os seios excitados, o “mataco”, que dança e até se insinua na cidade, marcado por calcinhas minúsculas e… tudo o resto… nem era preciso adivinhar.

Campo Militar do Grafanil.

A chegada, ao Campo Militar, em veículos de mercadorias, “gado” entre taipais, foi apenas o começo, de semanas e mais semanas… anos de um jogo mortal de guerrilha.

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3º. Grupo - zona do Cassai

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Eles

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- Alferes, isto é tudo um fingimento.

- São as casernas, que não são… são pocilgas e tendas.

- São as camas, que não são… são viveiros de percevejos e prateleiras de cimento com um cobertor.

- O vinho, que não é vinho… é banga-sumo, uma mistela.

- A capela, que não é capela… é um embondeiro… o Capitão é que a sabe toda, de mansinho desenfia-se… vai-nos enrabando de fininho… igualzinho ao meu padrasto.

Pairava no ar muita angústia e o ambiente era infeto e incaracterístico. Representava, a síntese das fragilidades da sociedade angolana, o nível intelectual dos muitos militares de gabinete, ébrios de poder... conhecidos pelos calhaus da engrenagem.

O chão vermelho da parada, onde as poucas árvores estrategicamente colocadas julgavam contrariar a fúria dos elementos, fervia aos primeiros raios solares com a intensidade de um forno crematório.

Nas noites, passadas entre percevejos, mosquitos e um silêncio de morte, os corpos escorriam suor e os pés escorregavam no chão gorduroso e húmido dos líquidos que habitualmente escorriam das latrinas cheias.

Apesar de tudo, não esquecerei os momentos de camaradagem na esplanada, com uns “conversados” camarões, a solidariedade, o humor, o desconforto físico e, em certos casos… muita revolta. Foi ali, com as minhas próprias forças… as internas e as outras, que comecei a aprender a resistir e a ultrapassar os fantasmas e os medos.

Primeiro dia da viagem para o Leste de Angola

Já era noite alta quando chegámos à cidade de Nova Lisboa (Huambo).

Não houve salvas, nem festa, nem, como em Luanda, bandos de aguerridos miúdos a receber-nos.

Num olhar rápido pelos arredores e pela estação dos comboios, vejo alguns edifícios iluminados e todas as ruas desertas.

Atiro-me para um cadeirão de verga num quarto alugado para… mais dois. Fiquei-me… sem reação… sem dar pelo tempo… a tentar recordar os muitos quilómetros percorridos (600). Queria lembrar-me de episódios, de paisagens, de cenas, de costumes, mas… só conseguia reconstituir na penumbra, da luz mortiça de uma lâmpada, a manhã calma da partida, as cubatas ao longo da esburacada estrada, o espetáculo fantasista do sol a morrer para lá das últimas palmeiras gigantes, que se viam no horizonte, os casebres pobres em silhuetas coladas sobre um chão encarnado e um céu onde se adivinhava a agonia rápida do dia.

Perto de mim, escreviam-se aerogramas e uma conversa em surdina acabou em evocações sentimentais:

- A minha senhora faz anos... que pena não haver um telefone!

Um camarada… mais "cusco"… comenta alegremente:

- Mas há mosquitos, moscas, muita merda, uma bala perdida e mais mil quilómetros, bem medidos… com o peso dos teus cornos duvido que lá chegues!

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Pálidos… pelo desconforto.

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A paisagem era desoladora e agressiva. O capim dominava a região entre a densa mata, algumas clareiras e os raros terrenos de cultura onde os braços desiguais e retorcidos dos embondeiros pareciam estar em atitudes alucinadas de quem protesta e se revolta contra o solo ingrato.

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Em algumas aldeias, junto à estrada, a população parecia ser feliz, gritavam as mulheres, as crianças, os jovens e os velhos, quando passávamos perto. Os gritos… pareciam ir de sanzala em sanzala como o som do batuque que comunicava de terra em terra, no alfabeto indecifrável daquele povo, com a notícia da chegada do “chindelo”.

Noutras, havia um silêncio imprevisto, e em contraste lá estão junto das cubatas as mesmas mulheres, homens e crianças, parados sem que os olhos se abram amistosamente, sem uma atitude de interesse, quase sem se voltarem… em desprezo. Outros estão sentados, de costas apoiadas nas paredes frágeis das cubatas, indolentes, inúteis e tristes.

Numa loja, onde se vendia de tudo, com um quadro do Bom Jesus de Braga à entrada e um velho colono sentado ao balcão a fumar e a beber cerveja… gabava-se de episódios de outros tempos, de lutas… para nós, os maçaricos, eram simplesmente irreais e impossíveis.

Quilómetros, quilómetros, quilómetros… 

A espaços uma sanzala igual a tantas outras, onde o povo aparece no caminho com saudações diferentes, uns fazem continência, outros batem no peito e as palmas, outros quase se deitam no solo e erguem as mãos numa atitude de inspiração fascista.

Passámos por pequenas povoações, postos isolados de governadores solitários, por alguns colonos portugueses… a bandeira portuguesa, entre casas de adobe e telhados de zinco.

A um soba, perguntei: - Então, como correm as coisas por aqui?

Metido no seu fato de Terça-Feira de Carnaval com botões dourados, descalço e de chapéu-de-chuva, bracejou na mímica do seu complicado idioma.

Pelo semblante, só podia estar a dizer... vai-te embora, vai para a tua terra!

Um intérprete de ocasião tenta convencer-me de um encontro amistoso... não disse nada, era só discurso.

Era o contraste de ideias, que passava a estar incluído no preço que iria, realmente pagar, para, um dia, poder voltar a Portugal.

Nos Caminhos de Ferro de Benguela, até á Vila do Luso

Inspirado nos livros de Agatha Christi e no meu imaginário esperava por umas confortáveis carruagens, um restaurante onde poderiam jantar 30 pessoas em verdadeiro luxo de espelhos e cristais, empregados aprumados de fardas bordadas a ouro, um menu de africanos… cadeirões confortáveis para a noite.

Percorri o comboio de ponta a ponta… não fiquei entusiasmado, nem acabei surpreendido.

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Passámos, dois dias em bancos de madeira, alguns longitudinais, em grandes molhos de corpos, de braços, de pernas, de armas e de porcaria… os líquidos de odor duvidoso, os restos das latas de conserva e outros detritos iam ficando espalhados pelo chão.

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Depois de breves paragens em Bela Vista, Chinguar, Silva Porto, Munhango, Cangumbe e Vila General Machado chegámos à pequena estação da Vila do Luso quando o luar já tomava conta da paisagem.

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Destacavam-se algumas casas brancas, recortes de arvoredo em ruas largas e muitos europeus… maioritariamente militares e seus familiares.

A mil trezentos e vinte metros de altitude gozava-se ali as delícias de um clima planáltico temperado e saudável.

Na povoação, de uma tranquilidade excecional, ouvia-se ainda, lá longe, como um eco, como um rugido, como um grito abafado pelo tambor e pelos cânticos do batuque, a repetir sem descanso: - Chindelo chegou… chindelo chegou…

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No restaurante Catespero, perto do Hotel Luso, finalmente uma refeição… um grande bife, batatas fritas, três ovos estrelados e vinho verde Gatão. Aí, conheci o Sr. Joaquim, um velhote, marcado pelas febres, respeitado e saudado por toda a gente… setenta e sete anos de idade e 50 anos na Universidade do Leste.

Contava:

- Era tão fácil andar pelo mato noutros tempos… andava à vontade até nos extremos da fronteira.

- Firmavam-se tratados de amizade com os sobas, deixando como permuta a bandeira das quinas.

Apesar dos prepativos para uma nova partida para a primeira noite num “quartel” no mato... entre espingardas, outras tralhas, munições... uma voz mais alta em brado de aviso irónico faz coro com o ronco do motor da Berliet… Cuidado com os leões! Não os matem todos…

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No dia seguinte, já em Sacassange… reparei na triste monotonia da paisagem.

Carlos Alberto Santos

www.cc3485.pt (Site dos Ex-Militares Companhia 3485)

Texto sobre a 4ª Edição Raid TT Kwanza Sul - 2009

Alto Chicapa, 29.05.10

(embora um pouco longo merece ser lido)

 

O Raid é também uma referência na promoção turística de Angola, ao mostrá-la aos angolanos e ao mundo.

 

A prová-lo, a cobertura mediática que vem em crescendo. Este ano, com várias televisões a transmitirem imagens de grande beleza e vários “directos” mostrando a dureza da prova. A confirmação de que a mensagem vem passando são os muitos sites e blogues que utilizam de forma espontânea, imagens e textos relacionados com o Raid.

 

O itinerário de 2009 cobriu o Norte do País. O seu litoral (Ambriz, N’Zeto (ex-Ambrizete), Soyo (ex-Santo António do Zaire), Cabinda e, ainda, o interior das Províncias do Uige, Malanje, Kwanza-Norte e Kwanza-Sul, num total de 3700km., que foram percorridos de 16 a 25 de Maio.

 

Normalmente, a 15 de Maio, pontualmente, começa o cacimbo (estação seca) mas, este ano, houve chuva até mais tarde e os raidistas (cerca de 50, metade angolanos, metade portugueses) e as 18 viaturas TT da NISSAN, enfrentaram sérias dificuldades, principalmente em certos troços (argilas expansivas, frequentemente com componente vegetal). Assinala-se a dureza com que teve de ser vencido o troço do N’Zeto (Ambrizete)ao Uige (ex-Carmona). Num dia avançaram-se apenas 44 km.! Com constantes atolamentos a exigirem manobras alternativas (construção de variantes em “picada àla-minute”) e uso de cintas de reboque…

 

Para além das magníficas paisagens que se puderam observar (matas de café com frequentes “abertas” de plantação de citrinos e palmar), os participantes puderam conviver com uma população, pobre mas super-hospitaleira, a recuperar rapidamente dos efeitos do conflito armado, população que não escondia o seu entusiasmo por aquela visita às suas terras e que foi inestimável na ajuda à abertura dos tais “percursos alternativos”: jovens a brandirem catanas com enorme mestria, em poucos minutos “deitavam” o capim e os carros passavam a “corta-mato” evitando, assim, as traiçoeiras lagoas de lama…

 

Houve mesmo que pernoitar uma noite dentro das viaturas para prosseguir ao romper da aurora.

 

E logo a população surgiu a assar mandioca, batata-doce e ginguba (amendoim), fazendo com que alguém nos dissesse: “acabou por ser uma
noite muito agradável. Vi um céu magnificamente estrelado e senti-me em segurança total. Não me sentiria assim se tivesse que dormir no meu
carro na marginal Lisboa-Cascais…”


Hospitalidade, beleza e optimismo...

 

Impressões gerais: A inegável hospitalidade e cordialidade das populações. A beleza das paisagens e das terras: a praia do Ambrizete, a força das águas na Foz do Rio Zaire, as florestas de Cabinda, a memória histórica de N’Banza Congo – ex-S. Salvador do Congo – onde se encontra a primeira Igreja católica de pedra e cal, a Sul do Sahara, as matas de café, a vitalidade das terras com o Negage e Camabatela, as quedas de Kalandula – ex-Duque de Bragança - o Rio Kwanza – na ponte Filomeno da Câmara, no Dondo, na Muxima – as Cachoeiras do Binda, Porto Amboim… Tudo são imagens que se fixaram indelevelmente nas nossas memórias…


Outras impressões que nos marcaram: O optimismo no futuro. Todas as pessoas falam em novos projectos e em novas iniciativas (A crise chegou. Angola passou de 15% de crescimento em 2008 a uma previsão de 0% este ano, mas o optimismo e a vontade de fazer estão presentes).

 

A pujança do português. Em todo o lado a comunicação é predominantemente em português.
Mesmo na fronteira do Massabi (entre Cabinda e o Congo Brazaville), onde um imenso mercado anima as relações – frequentemente familiares – de um lado e de outro da fronteira, o português era a base da comunicação. O português, através de Angola, irradia para os países vizinhos.

 

Outra impressão forte, a da reconstrução nacional. Muitos prédios estão em recuperação e reabilitação. As estradas em Cabinda são boas.
Uma óptima estrada abre-se a norte do Rio Kwanza, entre Kapanda (a barragem construída por brasileiros e soviéticos) e o Alto do Dondo.

 

O Turismo dá os primeiros passos. Logicamente, começando pelo turismo interno. Em três anos são visíveis as diferenças, para melhor, na qualidade do serviço, nas pequenas unidades hoteleiras que por toda a parte vão surgindo. Uma referência especial à Estalagem de Cabuta (perto do Calulo), propriedade das organizações Ritz. Os edifícios desta estalagem, além de lindíssimos, estão também inseridos numa mata que parece um jardim botânico, com vistas magníficas.

 

A maior e a mais importante das impressões positivas é o da Paz e Segurança. Nos últimos três anos fiz mais de 15 mil kms em todo-o-terreno em Angola. Jamais senti qualquer constrangimento em matéria de segurança. Os angolanos sabem o que lhes custou o não terem tido Paz durante demasiado tempo e hoje – parece-me – é coisa que, de forma alguma, querem perder.

 

Terra de grande beleza, emoções e muitas lições, esta Angola do século XXI. Para recordar e para acentuar que ela é assim porque as suas bases culturais são muito diferentes das dos outros países. Coordenei a edição de um livro, que teve a colaboração de nomes de elevada competência, contando um pouco de História e estórias das terras visitadas pelo Raid. O livro – patrocinadopelo Banco Keve – foi editado pela Pangeia Editora, em Portugal, e pelas Edições Chá de Caxinde, em Angola.
Acho que vale a pena ler o livro para se compreender melhor esta Angola do Sec. XXI. Anda a escrever sobre Angola muita gente que não sai de Luanda. E em Luanda não sai do asfalto. E no asfalto não sai do Hotel Trópico…

 

Angola não é terra para ser vista de uma forma redutora. E para o ano, se Nossa Senhora da Muxima ajudar, lá estamos de novo… Desta vez será o Leste?

 

Um texto de Miguel de Anacoreta Correia na Revista do INATEL

 

A 5ª Edição Raid TT Kwanza Sul - 2010 vai acontecer entre os dias 23 de Junho e 4 de Julho (ler mais)

 

Carlos Alberto Santos

 

África à distância de um desejo

Alto Chicapa, 16.03.10

Depois dos quatro itinerários que vos propus em Abril de 2009, da reunião que fizemos, para o efeito, em Torremolinos e de uma meia dúzia de pareceres técnicos, que entretanto obtive, deixo-vos a proposta (quase) final da nossa viagem a Angola.
 

É importante a vossa opinião. A avaliação do itinerário também é fundamental para que tudo corra bem. Não se esqueçam que é uma grande viagem e… é a nossa viagem.

 

Agradeço que a validem.
 

Finalmente… logo que esteja ultrapassada mais esta etapa e depois de se conhecerem os eventuais interessados, a proposta será entregue a três operadores turísticos em Portugal e à Associação das Agências de Viagens e Operadores Turísticos de Angola.

 

Ler mais...

 

Carlos Alberto Santos

 

Falar de nós... no Natal

Alto Chicapa, 23.12.09

A Companhia de Caçadores 3485 foi uma das três companhias operacionais do Batalhão 3870. Formou-se, no ano de 1971, no quartel de Chaves e no Campo Militar de Santa Margarida.

 

Podes recordar aqui, com algumas imagens, todos os nossos nomes.

 

Esteve em Angola de Fevereiro de 1972 a Julho de 1974.

 

...terra de magia e beleza... que podes recordar aqui, com fotografias cedidas pelo António Ferreira, Daniel Velosa, Carlos Alberto Santos, Álvaro Marques, Carlos Oliveira, Carlos Tavares Santos e Manuel Coimbra.

 

 

 

Angola, terra de magia e beleza, marcou a nossa juventude. As nossas memórias, entre perigos e alegrias, retiveram as populações, muitas e variadas paisagens de sonho e a camaradagem. Luanda, Nova Lisboa, Luso, Henrique de Carvalho, Teixeira de Sousa, Gago Coutinho, Sacassange, Canage, Lucusse, Alto Chicapa, António Cavula, Camachilonda, Cacolo, …, (nomes da época), fazem parte das nossas vidas.

 

...esta época, que fez parte das nossas vidas, e que podes recordar aqui com textos escritos por Manuel Esteves com Cambatxilonda, Manuel Carvalho com Paragem Leste  e Carlos A Santos com Chicapa, o final da viagem e As minhas conversas com Sá Moço.

 

 

 

Como qualquer guerra, esta foi igualmente injusta, estúpida, cruel e que em muitos momentos nos fez sofrer tanto, mas qualquer que seja a abordagem a este passado, sabemos que é extraordinário em todos os aspectos a camaradagem e a amizade que se mantém, como podes ver:

Um Feliz Natal para todos, e... um abraço do tamanho do Txicapa, como diz o nosso bom amigo Manuel Esteves.

 

Também desejo, umas Boas Festas e de um Bom Ano Novo ao povo angolano.

 

 

Carlos Alberto Santos

 

Ex-Militares, Companhia Caçadores 3485, Batalhão 3870 - Almoço / Convívio nas Caldas da Rainha - 16 de Maio

Alto Chicapa, 12.05.09

Há trinta e sete anos (Lembram-se? Foi ontem?) um grupo de jovens, ainda com sonhos por viver, entra num avião a caminho do desconhecido e de uma miserável guerra.
 

Foram dois anos e meio, difíceis, Deus sabe!
 

Mesmo assim, Angola, Luanda, Luso (Luena), Sacassange, Luatamba, Canage, Lucusse, Alto Chicapa, Cacolo, Henrique de Carvalho (Saurimo), Sá da Bandeira (Lubango), aquele povo e aquelas matas ficaram-me no coração.
 

Hoje… acho que o nosso acto heróico foi sabermos traçar o futuro, agora o nosso presente.

 

A vida é uma experiência compensadora, mesmo nas adversidades. É nisto que eu acredito, por isso sou grato a tudo e a todos pela minha vida.
 

Como estamos no mês de Maio, o mês do nosso convívio / almoço anual, pareceu-me que seria bonito recordar alguns encontros, onde estive ou de onde tenho algumas imagens.
 

Em 1996 - Peniche

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Em 1998 - Santarém

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Em 2002 - Alenquer

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Em 2003 - Arouca

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Em 2006 - São João da Pesqueira

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Em 2007 - Ponte de Lima

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Em 2008, Évora

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Carlos Alberto Santos

 

 

As fotografias mais vistas

Alto Chicapa, 09.05.09

 Das 7.925 vezes, que as nossas fotos foram vistas, destaco:

 

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Carlos Alberto Santos

 

 

De pau feito

Alto Chicapa, 08.04.09

Estava de serviço no Alto Chicapa, era o chamado oficial de dia, mas neste caso, era da noite. Como de costume dava o meu passeio em paz, no meio de uma grande cidade de estrelas.
A determinada altura, as estrelas fugiram e a paz passou a pesadelo.


- Então C, estás bonito… já nem dás com a caserna! Deixas-te o destacamento?
 

- Não! Não quero conversas consigo… foda-se!
 

- Que mal te fiz? Calma, é para ali e vai lá embora… toma um banho!
 

- São todos uns cabrões, chicalhada! Não quero conversas, já disse, só falo com a minha mãe! Hoje estou de sentinela sem parar!
 

Deixei-o. Continuou de mal com a vida, com todos e até o quico enfiado na cabeça o revoltava. Perguntava insistentemente, quem vem lá… quem vem lá... lá, lá, lá lá lá?
 

Passado uns dias, não desisti, de chegar à fala com ele. Era um rapaz educado, embora um pouco revoltado. Foi fácil dar-lhe alguma razão, percebeu-me e conseguimos ter uma conversa muito agradável (ainda adoro uma boa conversa de amigos).
 

- Vim do Cambatxilonda, não sei se de castigo, o homem é duro, não sabe brincar, mesmo aqui na mata…, se um tipo… leva logo uma “piçada”.
- Sabe! Andava de pau feito e sem a possibilidade de o desfazer, até doía!
 

- Entendo, um homem de pau feito não é a mesma coisa que um homem feito de pau!
 

- Aconteceu ou deram-me qualquer porra!
- Fui dar uma volta pela aldeia. A determinada altura fiquei a olhar para uma, era ela, escura no escuro, imaginei-a logo, descascadinha. Nunca a tinha visto assim, mas é como a tivesse visto, estendida, oferecida, só com o lençol por cima, até estava calor, o meu olhar estava perdido e o pau… todo no ar… deves ser um espanto, agora é que vai ser, beleza, não te assustes.
 

- Já percebi! Assustou-se e deu merda!
 

- É verdade, mas não se assustou, até lhe soube bem e era uma doida a foder de lado, só que no fim… queria muito dinheiro.
 

- Já viste, os tipos podiam estar feitos com ela ou sabe-se lá quem, até podiam aparecer nos bicos dos pés e darem-te cabo do canastro. Agora que tudo está mais calmo, digo-te, ia ser bonito, um tipo morto a caminho do putu de piça… ou melhor de pau feito…
 

- Era uma vergonha, foooda-se…

 

Agradecimentos:

 

À família 3485.
Convosco, continuo jovem e a sonhar... e percebo, que para alegria de muitos, ainda vemos o mundo desta forma!

 

Ao Manuel Carvalho e ao seu blog Paragem Leste.
Obrigado, é uma nova delícia de recordações.

 


Relativamente aos meus comentários às tais cagadeiras, agora acrescento esta fotografia, pois, como enfermeiro, talvez consigas, no meio de tanta porcaria adivinhar os milhões de salmonelas e outras... onde estaria o tipo dos colhões cor-de-rosa quando se lhe reportavam as situações...

 

Ao nosso manel, o Manuel Esteves e ao seu blog Cambatxilonda.
Parabéns, achei a estreia plena de sensibilidade e com muito que ler nas entrelinhas, até me lembrei do episódio que acabei de contar. Estou ansioso pelo próximo tema.

 

(cedida por Álvaro Marques)
 

Deixo esta fotografia… tantas recordações!

 

Finalmente, aos que estão atentos ao nosso site.
Deixo um verdadeiro muito obrigado, a todos, quantos, com maior ou menor regularidade, nos têm honrado com o prazer e a importância das suas visitas.
 

Carlos Alberto Santos

 

Luanda, rápido desenvolvimento, e o "resto" vem no fim

Alto Chicapa, 25.03.09

Como em todo o mundo, a miséria das grandes cidades fica escondida e esquecida entre as cortinas... do nada, ...mas, e a seguir, num segundo video, vejam a verdadeira Angola, aquela que me encantou e quero voltar a ver.

 

 

 

 

 

Carlos Alberto Santos

 

Ex-Militares da 3485 no MEO Kanal

Canal nº 888882 – Ex-Militares da 3485 no MEO Kanal